{"id":2170,"date":"2009-03-14T00:00:00","date_gmt":"2009-03-13T23:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/?p=2170"},"modified":"2009-07-19T13:21:07","modified_gmt":"2009-07-19T12:21:07","slug":"a-preferida","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/a-preferida\/","title":{"rendered":"A preferida"},"content":{"rendered":"<p>H\u00e1 algumas palavras que sentimos mais que outras. Como em tantas coisas na vida, temos as nossas preferidas e as nossas preteridas. H\u00e1 palavras pelas quais nos apaixonamos, que se enrolam na nossa l\u00edngua e na alma como amantes perfeitas, que dizem muito mais que o seu significado, que s\u00e3o, \u00e0 sua maneira, mais do que palavras. H\u00e1 palavras indom\u00e1veis que nos trazem mem\u00f3rias e sonhos. H\u00e1 sonhos e mem\u00f3rias que nos trazem palavras.<\/p>\n<p>Das palavras detestadas, quase todas entram na categoria dos \u201ceufemismos politicamente correctos que mascaram hipocrisia\u201d. Mas n\u00e3o falemos delas. Falemos das outras, das que nos tocam c\u00e1 dentro e nos fazem sorrir, nem que seja disfar\u00e7adamente.<\/p>\n<p>Sinto-me previlegiado em ter crescido com uma l\u00edngua riqu\u00edssima, complicada, cheia de quase-sin\u00f3nimos opacos para os estrangeiros, mas perfeitamente distintos para os nativos. \u00c9 t\u00e3o bom brincar com as palavras. \u00c9 t\u00e3o bom v\u00ea-las dan\u00e7ar \u00e0 volta do que queremos dizer, umas vezes fugindo, outras vezes tocando na ess\u00eancia do nosso pensamento.<\/p>\n<p>Tenho muitas palavras preferidas. Gosto de as usar. Gosto de usar os seus sin\u00f3nimos. Uso a riqueza desta l\u00edngua para evitar a monotonia e a repeti\u00e7\u00e3o. De entre todas essas, h\u00e1 uma que se destaca. Tem uma simplicidade complicada ou uma complica\u00e7\u00e3o simples (haja l\u00ednguas pobres capazes de traduzir isto), uma leveza et\u00e9rea e uma perfei\u00e7\u00e3o como nenhuma outra. A melhor maneira que tenho de a descrever \u00e9 onomatopeia visual. Consegue explicar melhor o que se v\u00ea do que as palavras que convencion\u00e1mos simbolizar as cores.<\/p>\n<p>Em quatro s\u00edlabas, arranjadas em rima de p\u00e9-quebrado, conseguimos descrever de forma completa e absoluta, aquilo que poetas, pintores e fot\u00f3grafos procuram captar, em v\u00e3o, desde sempre.<\/p>\n<p>Aqueles breves momentos entre o ocaso e a chegada da noite, quando o dia perde a cor e s\u00f3 nos apercebemos das sombras das coisas, em que sentimos a luz fugir-nos e tentamos agarr\u00e1-la, abrindo mais os olhos, desesperadamente. As coisas ganham um tom cinzento-azulado cada vez mais escuro, indefinido.<\/p>\n<p>Por muito que tente, nunca conseguirei descrever o verdadeiro significado da palavra. As suas varia\u00e7\u00f5es, embora todas iguais, s\u00e3o imensas. Nunca haveria tempo nem palavras capazes de o fazer. At\u00e9 mesmo os sin\u00f3nimos ficam aqu\u00e9m do esperado. Falta-lhes tudo o resto para al\u00e9m do fen\u00f3meno f\u00edsico. S\u00e3o est\u00e9reis e angulosos. Est\u00e3o mortos. N\u00e3o t\u00eam alma.<\/p>\n<p>Haver\u00e1 palavra mais bonita que Lusco-fusco?<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 algumas palavras que sentimos mais que outras. Como em tantas coisas na vida, temos as nossas preferidas e as nossas preteridas. 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