{"id":2179,"date":"2009-03-30T00:00:00","date_gmt":"2009-03-29T23:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/?p=2179"},"modified":"2009-08-08T21:40:09","modified_gmt":"2009-08-08T20:40:09","slug":"a-rusga","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/a-rusga\/","title":{"rendered":"A Rusga"},"content":{"rendered":"<p>A noite estava quente e o sono era constantemente interrompido para voltar a almofada ao contr\u00e1rio, na esperan\u00e7a que o outro lado estivesse mais fresco. Nunca estava. A rede mosquiteira enrolava-se nos p\u00e9s e nas m\u00e3os que fugiam ao calor. O len\u00e7ol enrolava-se \u00e0s pernas e aos bra\u00e7os h\u00famidos e peganhentos. L\u00e1 fora, a ocasional mota barulhenta fazia disparar os alarmes hist\u00e9ricos dos carros. Nada de novo, portanto. Uma noite de Ver\u00e3o em Luanda igual a tantas outras.<\/p>\n<p>Mas, eis que h\u00e1 novidades! \u00c0s dez para as cinco da matina, h\u00e1 um anormal (na altura chamei-lhe e \u00e0 sua digna m\u00e3ezinha uma s\u00e9rie de outros nomes) que se lembra de desatar a buzinar como se n\u00e3o ouvesse amanh\u00e3 ou gente a dormir.<\/p>\n<p>Duas, tr\u00eas, quatro, dezasseis vezes. Ser\u00e1 que algu\u00e9m trancou um carro? Aqui na rua n\u00e3o \u00e9 costume. Come\u00e7am a ouvir-se vozes na rua e nas escadas. Pancadas na porta e nas grades de algu\u00e9m. \u00ab<em>\u00d3 vizinho, \u00f3 vizinho!<\/em>\u00bb. O vizinho devia estar surdo, porque nunca mais aparecia para tirar o carro.<\/p>\n<p>Levantei-me e fui \u00e0 janela, de mau humor, cheio de vontade de perguntar ao buzinador de repeti\u00e7\u00e3o se achava bonito acordar as pessoas \u00e0quela hora. Na rua estava um Land Cruiser branco do \u00ab<em>Servi\u00e7o de Migra\u00e7\u00e3o e Estrangeiros \u2013 Fiscaliza\u00e7\u00e3o<\/em>\u00bb. Perdi a vontade de reclamar. O condutor aplicava-se a fundo no bot\u00e3o da buzina, espreitando de vez em quando pela janela.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" title=\"sme\" style=\"border-right: 0px; border-top: 0px; display: inline; border-left: 0px; border-bottom: 0px\" height=\"400\" alt=\"sme\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2009\/02\/sme.jpg\" width=\"600\" border=\"0\" \/>    <br \/>Filho de uma grandess\u00edssima santa<\/p>\n<p> \u00abBonito, uma rusga de madrugada\u2026\u00bb, pensei.<\/p>\n<p>As vozes e os barulhos acalmaram, mas a buzina continuava em grande. At\u00e9 que parou. O condutor sa\u00edu do carro e arrastou-se at\u00e9 \u00e0 porta do sal\u00e3o de jogos. Achei estranho. Talvez fosse do sono. Passado um bocadinho, regressou, segurando uma lata de cerveja e encostando-se aos carros estacionados. Vem para uma rusga podre de b\u00eabado. Mas que bela imagem d\u00e1 do pa\u00eds.<\/p>\n<p>Buzina mais meia-d\u00fazia de vezes e depois arranca fazendo chiar os pneus. N\u00e3o estava mais ningu\u00e9m no carro. Ser\u00e1 que perdeu os colegas? Ser\u00e1 que s\u00f3 me queria acordar?<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A noite estava quente e o sono era constantemente interrompido para voltar a almofada ao contr\u00e1rio, na esperan\u00e7a que o outro lado estivesse mais fresco. Nunca estava. A rede mosquiteira enrolava-se nos p\u00e9s e nas m\u00e3os que fugiam ao calor. O len\u00e7ol enrolava-se \u00e0s pernas e aos bra\u00e7os h\u00famidos e peganhentos. 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