{"id":2195,"date":"2009-03-19T00:00:00","date_gmt":"2009-03-18T23:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/?p=2195"},"modified":"2009-09-19T15:15:47","modified_gmt":"2009-09-19T14:15:47","slug":"lenda-da-kiela","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/lenda-da-kiela\/","title":{"rendered":"Lenda da Kiela"},"content":{"rendered":"<p>O jogo da <em>Kiela<\/em> costuma ser encarado como o xadrez africano. S\u00e3o ambos jogos de estrat\u00e9gia, que beneficiam o jogador menos impaciente e com melhor vis\u00e3o do jogo. Ambos t\u00eam lendas associadas. O xadrez tem a lenda dos gr\u00e3os de trigo duplicados em cada casa como pagamento ao inventor do jogo. A <em>Kiela<\/em> tem uma lenda que come\u00e7a com uma hist\u00f3ria de guerra e acaba com a Paz.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2009\/02\/huambo-20090205162919s1276451-e01574595-44.jpg\" border=\"0\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"400\" \/><br \/>\nJogo de estrat\u00e9gia<\/p>\n<p>Contam os mais-velhos que a <em>Kiela<\/em> \u00e9 um jogo de s\u00e1bios, nascido da vontade de poupar os filhos das guerras sangrentas que os v\u00e1rios povos travavam entre si.<\/p>\n<p>Reza a lenda que, h\u00e1 muitos s\u00e9culos, duas tribos que se guerreavam desde sempre iniciaram mais um cap\u00edtulo da sua hist\u00f3ria de viol\u00eancia. Emiss\u00e1rios do ex\u00e9rcito atacante dirigiram-se \u00e0 capital do reino vizinho, comunicando a inevitabilidade de uma batalha como nunca antes se tinha visto. Essa batalha resultaria na aniquila\u00e7\u00e3o daquela tribo. Todos os sobreviventes seriam feitos escravos e a mem\u00f3ria do reino seria como o p\u00f3, arrastada pelo vento. Seria melhor capitular j\u00e1, para evitar derramar tanto sangue.<\/p>\n<p>O velho rei convocou os seus generais, para decidir que resposta dar aos emiss\u00e1rios, que aguardavam impacientemente. Os guerreiros garantiam que a derrota n\u00e3o era certa, mas a vit\u00f3ria tamb\u00e9m n\u00e3o estava garantida. As for\u00e7as de ambas as tribos eram muito semelhantes e o \u00fanico desfecho assegurado era um banho de sangue.<\/p>\n<p>Enquanto entretinha os embaixadores, fazendo-os refrear os \u00e2nimos, convocou tamb\u00e9m o seu conselho de anci\u00e3os, para que se encontrasse uma solu\u00e7\u00e3o para o problema.<\/p>\n<p>Ao fim de alguns dias, o mais velho dos <em>mais-velhos<\/em> sugeriu que se partisse para a guerra. Antes de poder concluir o seu racioc\u00ednio, foi interrompido por todos os outros, dizendo que n\u00e3o era isso que se pretendia. L\u00e1 conseguiu continuar. Guerra sim, mas n\u00e3o nos moldes tradicionais. Vamos travar uma \u00faltima batalha decisiva, apenas com um punhado dos melhores homens de cada lado. Quem perder, abdica e cede o seu reino ao Rei vencedor.<\/p>\n<p>Muitas vozes se levantaram. Umas a favor, outras contra. Porqu\u00ea arriscar o futuro do reino na valentia de um punhado de homens? Quem garantia que o advers\u00e1rio se comportava lealmente? Quantos homens?<\/p>\n<p>Chamaram os emiss\u00e1rios estrangeiros. E propuseram-lhes as condi\u00e7\u00f5es. Haveria uma batalha, travada na fronteira, entre tr\u00eas d\u00fazias de guerreiros de cada lado. Mas, ao inv\u00e9s de ter todos os homens a combater que nem uns tolos, a luta seria travada sem derramamento de sangue, um golpe de cada vez.<\/p>\n<p>Os emiss\u00e1rios partiram com esta resposta t\u00e3o estranha ao ultimato. O Rei estrangeiro, confiante na valentia dos seus guerreiros, aceitou que se acertassem regras para esta batalha esquisita.<\/p>\n<p>No dia combinado, os dois ex\u00e9rcitos juntaram-se na fronteira. Ambos os soberanos escutaram as regras propostas pelo anci\u00e3o.<\/p>\n<p><em>\u00abAo longo da fronteira, cada ex\u00e9rcito estabelecer\u00e1 duas d\u00fazias de postos de observa\u00e7\u00e3o. Uma d\u00fazia na vanguarda e outra na retaguarda. No in\u00edcio da batalha, distribuir-se-\u00e3o tr\u00eas d\u00fazias de guerreiros em patrulhas de alguns homens pelos postos que se entender. Os movimentos das tropas ser\u00e3o efectuados \u00e0 vez, para permitir aos estrategas definir o curso da batalha e evitar que os \u00e2nimos mais exaltados provoquem um derramar de sangue desnecess\u00e1rio. N\u00e3o vencer\u00e1 apenas o mais forte, vencer\u00e1 o povo mais inteligente.\u00bb<\/em><\/p>\n<p>Esta frase deixou ambos os monarcas com um sorriso nos l\u00e1bios e a vontade de provar que eram mais espertos que o outro.<\/p>\n<p><em>\u00abOs generais ter\u00e3o de fazer as suas tropas percorrer os postos de vigia, libertando todos os homens de um determinado posto e distribu\u00edndo-os, um por cada posto, da esquerda para a direita quando na retaguarda, e da direita para a esquerda, quando na vanguarda.<\/em><\/p>\n<p><em>Sempre que o \u00faltimo homem desse grupo for colocado num posto j\u00e1 ocupado, todos esses homens continuar\u00e3o a ser distribu\u00eddos pelos postos seguintes, at\u00e9 que o \u00faltimo fique sozinho num posto. Os guerreiros isolados dever\u00e3o esperar por refor\u00e7os no posto onde se encontrarem. Nessa altura, o advers\u00e1rio poder\u00e1 movimentar as suas tropas da mesma forma.<\/em><\/p>\n<p><em>Os soldados advers\u00e1rio encontrados pelo \u00faltimo soldado da patrulha ser\u00e3o capturados, bem como os da sua retaguarda. N\u00e3o ser\u00e3o maltratados nem feridos e<\/em><em> passar\u00e3o a servir o ex\u00e9rcito advers\u00e1rio, com lealdade. J\u00e1 vi demasiada morte na minha vida e estes jovens ainda t\u00eam muito para viver. Continuar\u00e3o a patrulha que os capturou. A \u00fanica excep\u00e7\u00e3o a esta regra s\u00e3o os guerreiros que n\u00e3o t\u00eam o posto de retaguarda guarnecido. N\u00e3o ser\u00e3o atacados cobardemente. Ficar\u00e3o no seu posto at\u00e9 que lhes sejam dadas ordens de marcha.<\/em><\/p>\n<p><em>O vencedor ser\u00e1 aquele que conseguir capturar todas as for\u00e7as do advers\u00e1rio.\u00bb<\/em><\/p>\n<p>Ambos os reis ficaram espantados com este plano. As regras eram simples e a promessa de poupar os seus melhores guerreiros agradava a ambos. Mesmo se as coisas n\u00e3o se decidissem por esta via, podiam sempre recorrer a guerras mais convencionais. Resolveram aceitar.<\/p>\n<p>Os guerreiros foram distribu\u00eddos pelas suas patrulhas e a batalha come\u00e7ou.<\/p>\n<p>A princ\u00edpio, todos levavam as suas armas e os seus escudos. As pinturas de guerra e os gritos amedrontavam os advers\u00e1rios e cada um prometia tormentos terr\u00edveis aos restantes.<\/p>\n<p>Mas a impetuosidade esta batalha n\u00e3o era decidida pelos novos. Esses s\u00f3 davam o corpo. Seguia o ritmo ditado pelos <em>mais-velhos<\/em>, com muitas pausas para decidir a estrat\u00e9gia a tomar.<\/p>\n<p>Os primeiros advers\u00e1rios come\u00e7aram a ser capturados por ambos os lados. Se a princ\u00edpio houve alguma viol\u00eancia, mas, com o tempo, as regras come\u00e7aram a ser interiorizadas por todos. A troca de lados passou a ser encarada com normalidade. Os guerreiros capturados comiam, conversavam e dormiam com os captores. No dia seguinte a situa\u00e7\u00e3o podia inverter-se.<\/p>\n<p>Como as armas nunca eram usadas, as patrulhas passaram a cumprir as suas miss\u00f5es de m\u00e3os vazias. Uma faca e um peda\u00e7o de madeira permitiam ocupar as horas vagas, esculpindo qualquer coisa.<\/p>\n<p>Como a batalha come\u00e7ava a dar sinais de demorar, ambas as aldeias se mudaram para mais perto da fronteira. As mulheres dos guerreiros de um e outro lado come\u00e7aram a cruzar as linhas, procurando os respectivos maridos. A guerra continuava, mas agora assemelhava-se a um passeio. Antigos advers\u00e1rios conversavam agora, ocupando o tempo. Falavam da sua terra e da sua fam\u00edlia. Cada um enumerava as maravilhas do seu reino e despediam-se: <em>\u00abAt\u00e9 \u00e0 pr\u00f3xima!\u00bb<\/em><\/p>\n<p>A dada altura, cada ex\u00e9rcito foi composto por mais advers\u00e1rios do que soldados seus, mas as regras diziam que tinham de servir lealmente o rei a que estavam afectos. E foi isso que fizeram.<\/p>\n<p>A grande aldeia que surgiu na fronteira tamb\u00e9m j\u00e1 n\u00e3o pertencia a ningu\u00e9m. Os habitantes de cada reino constru\u00edam a casa onde melhor lhes convinha, sem se importar se o vizinho era inimigo ou n\u00e3o. Um seu primo, filho ou irm\u00e3o estava agora no ex\u00e9rcito do outro. E os filhos que cresciam neste meio brincavam uns com os outros.<\/p>\n<p>O tempo foi passando e a batalha continuava indecisa. Muitas vezes esteve prestes a terminar, mas uma decis\u00e3o inspirada dos estrategas invertia a situa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O anci\u00e3o morreu. A guerra continuou. Ambos os reis morreram. A guerra continuou. Os guerreiros cansados de tanto andar foram substitu\u00eddos por outros mais novos. A guerra continuou. A aldeia comum cresceu e as antigas capitais dos reinos desapareceram.<\/p>\n<p>Um dia algu\u00e9m correu pelas ruas, gritando <em>\u00abA guerra acabou! A guerra acabou!\u00bb \u00abQuem ganhou?\u00bb<\/em>, perguntavam as pessoas. <em>\u00abN\u00f3s! Fomos n\u00f3s!\u00bb<\/em><\/p>\n<p>Todos se juntaram \u00e0 festa. A guerra que existia desde sempre, por raz\u00f5es j\u00e1 esquecidas, tinha terminado sem mortos ou feridos, mas j\u00e1 ningu\u00e9m sabia de que lado estava.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2009\/02\/kiela-01.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"400\" \/><br \/>\nA batalha<\/p>\n<p>A mem\u00f3ria do anci\u00e3o perdeu-se, mas a sua sabedoria ainda perdura. De vez em quando temos a sorte de ver recria\u00e7\u00f5es desta famosa batalha.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O jogo da Kiela costuma ser encarado como o xadrez africano. S\u00e3o ambos jogos de estrat\u00e9gia, que beneficiam o jogador menos impaciente e com melhor vis\u00e3o do jogo. Ambos t\u00eam lendas associadas. O xadrez tem a lenda dos gr\u00e3os de trigo duplicados em cada casa como pagamento ao inventor do jogo. 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