{"id":2215,"date":"2009-03-26T00:00:00","date_gmt":"2009-03-25T23:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/?p=2215"},"modified":"2009-07-16T22:52:12","modified_gmt":"2009-07-16T21:52:12","slug":"uma-chuvinha","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/uma-chuvinha\/","title":{"rendered":"Uma chuvinha"},"content":{"rendered":"<p>O dia amanheceu cinzento e quente, como a imita\u00e7\u00e3o de um dia de cacimbo, mas mais escuro. O tr\u00e2nsito do costume fez perceber que a amea\u00e7a de chuva ainda n\u00e3o tinha sido cumprida. Ningu\u00e9m acredita que uns minutos de chuva possam paralisar uma capital, mas tudo \u00e9 poss\u00edvel \u00e9 Luanda.<\/p>\n<p>Perto do meio-dia, gotas grossas agrediam as vidra\u00e7as e abafavam o ru\u00eddo da vida l\u00e1 fora. As conversas habituais no parapeito ficaram mudas, com os intervenientes a procurar abrigo e at\u00e9 mesmo os lagartos que costumam percorrer as paredes se deixaram ficar nas \u00e1rvores mais frondosas, esperando que passasse.<\/p>\n<p>Quem vem da rua reclama da molha que apanhou. Vou at\u00e9 \u00e0 porta ver chover. Suspiro por n\u00e3o poder ir correr para a chuva. H\u00e1 trabalho para fazer e todos iriam pensar que o <em>pula<\/em> tinha pirado de vez. O ar est\u00e1 quente e pastoso. Estendo a m\u00e3o. A \u00e1gua est\u00e1 igualmente quente. Na verdade, bem mais quente do que aquela com que costumo tomar banho.<\/p>\n<p>Ao fim do dia, e depois de mais umas chuvadas, pensei que tinha sido m\u00e1 ideia pedir para lavar o carro. Mas o jardineiro tinha aproveitado a \u00faltima aberta para lhe passar um pano por cima. Reparei nos baldes que tinha deixado debaixo das caleiras do edif\u00edcio, colocados estrategicamente para apanhar a \u00e1gua que ca\u00eda l\u00e1 de cima e, ao mesmo tempo, obrigar a um <em>slalom<\/em> quem queria sair.<\/p>\n<p>O tr\u00e2nsito no regresso a casa estava um pouco mais lento que o normal. A chuva miudinha que me fazia ligar as escovas a cada par de minutos n\u00e3o parecia estar a aumentar a fluidez. Nas bairros populares do Prenda, Cassenga e Rocha Pinto via-se muita gente a baldear \u00e1gua dos p\u00e1tios e das casas.<\/p>\n<p>Mi\u00fados s\u00f3 de cuecas e cabe\u00e7a rapada, baldeiam com ar resignado a \u00e1gua lamacenta em que est\u00e3o enfiados at\u00e9 aos joelhos. Cuecas castanhas em pele castanha sobre a \u00e1gua castanha. Gotas de \u00e1gua e suor escorrem-lhes pelo corpo abaixo, at\u00e9 se juntarem ao charco onde lhes desaparecem as pernas e os p\u00e9s. Por um momento julgamos que surgem da \u00e1gua e que se tentam baldear a si mesmos para fora da mis\u00e9ria que \u00e9 ver a casa inundada a cada chuvada.<\/p>\n<p>Os buracos da estrada est\u00e3o todos cheios de lama. \u00c9 imposs\u00edvel adivinhar quais s\u00e3o os fundos. Temos de nos socorrer da mem\u00f3ria para tentar identificar os perigosos, mesmo sabendo que o mapa muda a cada hora.<\/p>\n<p>J\u00e1 no centro da cidade, os pe\u00f5es caminham apressados, ultrapassando os pol\u00edcias de tr\u00e2nsito que hoje ostentam os seus imperme\u00e1veis imaculadamente brancos. A habitual protec\u00e7\u00e3o branca que usam no chap\u00e9u cresceu e agora cobre-os at\u00e9 aos p\u00e9s. O mundo todo parece passar por n\u00f3s em ritmo acelerado. Demora-se cerca de meia-hora para percorrer tr\u00eas quarteir\u00f5es. Grande parte do tempo estive de motor desligado, mas voltei a ficar com a sensa\u00e7\u00e3o de que fui o \u00fanico.<\/p>\n<p>Nas paragens habituais, as pessoas esperam, resignadas e cabisbaixas, pelo candongueiro que os h\u00e1-de levar a casa. A aus\u00eancia de abrigos \u00e9 encarada como mais uma contrariedade da vida e quem quer ir cedo para casa tem de se sujeitar \u00e0 chuva. Alguns improvisam um guarda-chuva com um saco de pl\u00e1stico enfiado na cabe\u00e7a ou segurando um jornal dobrado ao meio. O segundo abrigo dura at\u00e9 que as letras se come\u00e7am a desfazer e a escorrer para o cabelo do dono, como uma esp\u00e9cie de caspa alfabetizada.<\/p>\n<p>Poucos minutos depois de chegar a casa, a chuvada anunciada ao longo de todo o dia desaba finalmente. F\u00e1-lo com intensidade suficiente para interromper o sinal de televis\u00e3o que chega \u00e0 nossa antena. O tr\u00e2nsito abranda ainda mais e agora s\u00f3 se conseguem distinguir escovas a esfregar furiosamente os p\u00e1ra-brisas. Assim consegue-se ver melhor o carro parado \u00e0 frente.<\/p>\n<p>A \u00e1gua que escorre pelas valetas evita as sarjetas entupidas e continua pela rua abaixo. Acaba por transbordar e ir enchendo a rua at\u00e9 que tudo pare\u00e7a um rio. Passada a hora de ponta, os poucos carros que circulam fazem-no deixando uma esteira. Parece que estamos a assistir a uma regata. N\u00e3o fosse a chuva que ainda ca\u00eda e os cobradores dos candongueiros seguiriam, como de costume, de rabo \u00e0 janela, imitando os velejadores pendurados de fora do barco numa curva apertada.<\/p>\n<p>Mais um pouco e alguns rel\u00e2mpagos e trov\u00f5es anunciaram o fim das hostilidades. A \u00e1gua que escorre das partes altas da cidade ou que \u00e9 baldeada das casas continua a correr pela rua, n\u00e3o mostrando sinais de abrandamento. Parece que continua a chover.<\/p>\n<p>Horas depois da chuva ter parado, as valetas ainda t\u00eam pequenos regatos a serpenteam os montes de pedras, lama e areia que foram sendo arrastados. Nos bairros mais pobres, a chuva arrastou mais do que lama. Todo o lixo que se acumulava nos cantos foi arrastado para as ruas e casas. Amanh\u00e3 a cidade vai estar parada por causa da lama que deixou muitas ruas intransit\u00e1veis. Depois de amanh\u00e3 vai continuar parada por causa do atraso na limpeza. Talvez para o fim-de-semana os cantoneiros consigam domar, finalmente, a lama e a areia e tudo volte \u00e0 normalidade poss\u00edvel.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" title=\"dondo13\" style=\"border-right: 0px; border-top: 0px; display: inline; border-left: 0px; border-bottom: 0px\" height=\"400\" alt=\"dondo13\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2009\/03\/dondo13.jpg\" width=\"600\" border=\"0\" \/>    <br \/>Regos e valas abertos nas estradas<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O dia amanheceu cinzento e quente, como a imita\u00e7\u00e3o de um dia de cacimbo, mas mais escuro. O tr\u00e2nsito do costume fez perceber que a amea\u00e7a de chuva ainda n\u00e3o tinha sido cumprida. Ningu\u00e9m acredita que uns minutos de chuva possam paralisar uma capital, mas tudo \u00e9 poss\u00edvel \u00e9 Luanda. 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