{"id":2260,"date":"2009-03-25T00:00:00","date_gmt":"2009-03-24T23:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/?p=2260"},"modified":"2009-07-19T13:12:01","modified_gmt":"2009-07-19T12:12:01","slug":"uma-odisseia-de-12-anos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/uma-odisseia-de-12-anos\/","title":{"rendered":"Uma odisseia de 12 anos"},"content":{"rendered":"<p>\u00c9 obra. Levei um pouco mais de uma d\u00e9cada para acabar um livro. Como at\u00e9 nem leio devagar, ou o livro era grande, ou era dif\u00edcil.<\/p>\n<p>Na verdade, era um pouco dos dois. Muito grande, com alguns cap\u00edtulos de mais de duzentas p\u00e1ginas. E muito dif\u00edcil, com passagens quase incompreens\u00edveis a menos que se lhes dedicasse toda a aten\u00e7\u00e3o. Mesmo assim, ficamos com a sensa\u00e7\u00e3o que com cada leitura nos ir\u00edamos aperceber de mais e mais coisas, de pormenores que nos passaram despercebidos nas primeiras vezes. Um pouco como os filmes de Jacques Tati, que nunca nos deixam de mostrar algo novo.<\/p>\n<p> <img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" title=\"ulisses\" style=\"border-top-width: 0px; display: inline; border-left-width: 0px; border-bottom-width: 0px; border-right-width: 0px\" height=\"400\" alt=\"ulisses\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2009\/03\/ulisses.jpg\" width=\"600\" border=\"0\" \/>  <br \/>Fama merecida  <\/p>\n<p>Foram tr\u00eas tentativas para domar o Ulisses de James Joyce. A primeira, ainda antes do virar do s\u00e9culo terminou com uma desilus\u00e3o. A tradu\u00e7\u00e3o brasileira era francamente m\u00e1. Depressa me abstra\u00ed da diferente ortografia, mas fui incapaz de aturar uma tradu\u00e7\u00e3o t\u00e3o miser\u00e1vel. O tradutor substitu\u00eda as express\u00f5es que n\u00e3o conhecia por palavras portuguesas de som semelhante. Havia par\u00e1grafos inteiros de n\u00e3o-frases. Aguentei a tortura at\u00e9 ao final do segundo cap\u00edtulo porque sabia que o livro era dif\u00edcil. Se o tivesse terminado, teria ficado muito mal impressionado com uma obra t\u00e3o famosa.<\/p>\n<p>A segunda tentativa, uns anos mais tarde, foi com a tradu\u00e7\u00e3o de Palma Ferreira, sustentada por muitas notas e refer\u00eancias a obras que estudaram o livro e o autor. No final do s\u00e9timo cap\u00edtulo percebi que ainda n\u00e3o era a idade certa para o fazer. Precisaria de mais vida para o poder ler.<\/p>\n<p>Ler n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 saber encadear letrinhas umas atr\u00e1s das outras e decifrar palavras e frases. Ler \u00e9 conseguir decifrar ideias por tr\u00e1s dessas palavras.<\/p>\n<p>Agora, ao fim de mais de uma d\u00e9cada depois da primeira tentativa, voltei a lan\u00e7ar-me \u00e0 odisseia de Leopold Bloom. Em dois meses li-a de fio a pavio. Houve partes mais dif\u00edceis que outras, como j\u00e1 esperava, mas compreendo agora porque \u00e9 considerada uma das obras mais importantes de sempre.<\/p>\n<p>Como em qualquer tradu\u00e7\u00e3o, houve alguns pontos em que discordei do tradutor. Uma express\u00e3o aqui e outra ali, mas nada que se comparasse \u00e0 outra, em que s\u00f3 podia concordar com os pontos finais par\u00e1grafos.<\/p>\n<p>Gostaria de, um dia, ter a coragem de enfrentar a vers\u00e3o inglesa, para poder apreciar melhor a riqueza do livro. James Joyce n\u00e3o fez <em>bluff<\/em> quando disse que escreveria um livro que demoraria s\u00e9culos a dissecar completamente.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00c9 obra. Levei um pouco mais de uma d\u00e9cada para acabar um livro. Como at\u00e9 nem leio devagar, ou o livro era grande, ou era dif\u00edcil. Na verdade, era um pouco dos dois. Muito grande, com alguns cap\u00edtulos de mais de duzentas p\u00e1ginas. 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