{"id":2281,"date":"2009-03-22T00:00:00","date_gmt":"2009-03-21T23:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/?p=2281"},"modified":"2009-08-23T01:25:31","modified_gmt":"2009-08-23T00:25:31","slug":"a-caminho-de-casa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/a-caminho-de-casa\/","title":{"rendered":"A caminho de casa"},"content":{"rendered":"<p>Numa manh\u00e3 de Ver\u00e3o, que acordou a pensar ser dia de Cacimbo, com as moscas peganhentas por julgarem que vai chover, levantei-me eu tamb\u00e9m, julgando serem horas ainda de sonhar.<\/p>\n<p>Mesmo assim, a perspectiva era animadora. Algumas horas de espera no aeroporto internacional de Luanda antecederiam uma longa viagem de regresso a casa. Umas semanas de f\u00e9rias ap\u00f3s alguns meses de trabalho.<\/p>\n<p>Maravilhas da tecnologia, o <em>check-in<\/em> j\u00e1 estava feito da v\u00e9spera e o lugar escolhido numa janela estrat\u00e9gica. Em vez das cinco horas de anteced\u00eancia habituais, era-me permitido estar na gare uma hora antes. Fui com duas, n\u00e3o fosse o diabo tec\u00ea-las.<\/p>\n<p>As perip\u00e9cias do 4 de Fevereiro j\u00e1 s\u00e3o t\u00e3o conhecidas que at\u00e9 aborrecem. Os <em>agilizadores<\/em>, que prometem facilitar isto e aquilo reconhecem-se \u00e0 dist\u00e2ncia. Desta vez, por ser um voo numa data pouco concorrida, o seu n\u00famero quase superava o dos passageiros.<\/p>\n<p>Antes sequer de entrar na sala de espera, j\u00e1 tinha dois <em>agilizadores<\/em> a prometerem-me uma espera dentro da sala de embarque, ao inv\u00e9s de uma espera irmamente repartida entre a fila da entrada e a sala de embarque. N\u00e3o o disseram, mas seria a troco de alguns kwanzas\u2026 Perguntei-lhes se o avi\u00e3o partia mais cedo se me ajudassem a passar a fila. Pois, bem me parecia. Prefiro esperar aqui, obrigado.<\/p>\n<p>Uma d\u00fazia de pessoas na fila, meia-d\u00fazia de malas. Dez minutos, talvez menos. Foi menos. Ainda n\u00e3o tinha acabado de ler a p\u00e1gina do livro que trazia e j\u00e1 estava na sala do <em>check-in<\/em>. Teria mudado de p\u00e1gina se n\u00e3o tivesse sido interrompido por mais quatro <em>agilizadores<\/em> desesperados pelo neg\u00f3cio fraco.<\/p>\n<p>Sem bagagem de por\u00e3o e com o bilhete impresso de v\u00e9spera, o <em>check-in<\/em> foi o mais r\u00e1pido de sempre. N\u00e3o havia ningu\u00e9m na fila.<\/p>\n<p>No controlo seguinte verificavam se t\u00ednhamos o canhoto do tal\u00e3o da emigra\u00e7\u00e3o que se preenche \u00e0 entrada do pa\u00eds. Se n\u00e3o tivermos, n\u00e3o h\u00e1 problema, d\u00e3o-nos um novo para rasgar a meio e fingir que \u00e9 o original\u2026<\/p>\n<p>Antes de me carimbarem a sa\u00edda do pa\u00eds no passaporte, tive de aguardar enquanto o guarda atendia uma chamada urgent\u00edssima de algu\u00e9m. Profiss\u00e3o? F\u00e9rias? Trabalho? Carimbadela. Leva moeda nacional? E se levasse? N\u00e3o \u00e9 aqui que se faz a declara\u00e7\u00e3o de valores. Mas n\u00e3o h\u00e1 como tentar a sorte e ver se os viajantes deixam algum.<\/p>\n<p>No Raio-X, a cena repete-se. L\u00e1 me perguntam pelos benditos kwanzas. Aqueles que deixei em casa, prontos para o meu regresso. O passageiro que me antecedia \u00e9 que teve menos sorte. Levava um frasco de perfume caro. Ficou retido porque era um l\u00edquido inflam\u00e1vel, que podia rebentar em voo e n\u00e3o podia entrar no avi\u00e3o. O passageiro acabou por se resignar e fazer de conta que o perfume n\u00e3o fazia parte dos objectos permitidos.<\/p>\n<p>Mais \u00e0 frente, outra vis\u00e3o familiar. Um pol\u00edcia com o ar de ditador do quarteir\u00e3o estala os dedos, com uma m\u00e3o na anca e a boina de lado.<\/p>\n<p><em>\u00abPlisse! F\u00e1chavor!\u00bb<\/em><\/p>\n<p>Aponta para a declara\u00e7\u00e3o de valores, fazendo os passageiros entrar no confession\u00e1rio dos kwanzas, euros e d\u00f3lares.<\/p>\n<p>Desta vez, por confiar nos sistemas banc\u00e1rios europeus e n\u00e3o levar dinheiro nenhum comigo, enfureci o fiscal. A cada pergunta acerca dos montantes que levava respondia-lhe \u00abNada!\u00bb. Insistiu que me queria ver a carteira. Mostrei-lha, mas n\u00e3o achei muita piada a partilhar a sala com um outro passageiro que tamb\u00e9m declarava o que levava.<\/p>\n<p>Em menos de meia-hora venci aquilo que costuma ser um pesadelo. Agora restava-me esperar. Sentei-me nas poucas cadeiras que h\u00e1 na sala de embarque, fora da zona vedada. L\u00e1 em cima h\u00e1 mais, mas est\u00e1 sempre tudo cheio de mosquitos.<\/p>\n<p>Os passageiros reclamavam que n\u00e3o havia cadeiras suficientes na sala de embarque. O funcion\u00e1rio encolhia os ombros e n\u00e3o tirava os olhos do telefone onde escrevia uma mensagem. Com a m\u00e3o livre apontava para as cadeiras j\u00e1 ocupadas.<\/p>\n<p>Dois Sul-Africanos, exasperados com tantas burocracias e complica\u00e7\u00f5es, contavam o s\u00e9timo controlo de bilhetes e passaportes. <em>\u00abAnother check-in. These guys are too complicated. And all for nothing!\u00bb<\/em> Antes que perguntem, n\u00e3o, n\u00e3o eram brancos. Meti-me na conversa e acrescentei que todo o pa\u00eds \u00e9 complicado. <em>\u00abYes! Too much.\u00bb<\/em><\/p>\n<p>\u00c0 sala de embarque chega uma Espanhola, que telefonava para casa pedindo que lhe cancelassem os cart\u00f5es de cr\u00e9dito. Tinha sido roubada j\u00e1 no aeroporto, ao tirar o passaporte de mala. No meio da confus\u00e3o de passageiros, <em>agilizadores<\/em> e ladr\u00f5es da entrada, algu\u00e9m lhe levou a carteira. Curioso \u00e9 que a senhora estava coberta de j\u00f3ias. Brincos, an\u00e9is e rel\u00f3gio grandes e dourados chamam a aten\u00e7\u00e3o em qualquer lado. Aposto que n\u00e3o \u00e9 a maneira mais sensata de andar em Luanda.<\/p>\n<p>O avi\u00e3o aterrou. Deu umas voltas na pista e parou em frente \u00e0 sala de embarque. Daqui a uma hora estamos a embarcar. Mais umas tantas e desembarco em Lisboa.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Numa manh\u00e3 de Ver\u00e3o, que acordou a pensar ser dia de Cacimbo, com as moscas peganhentas por julgarem que vai chover, levantei-me eu tamb\u00e9m, julgando serem horas ainda de sonhar. Mesmo assim, a perspectiva era animadora. Algumas horas de espera no aeroporto internacional de Luanda antecederiam uma longa viagem de regresso a casa. 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