{"id":231,"date":"2008-07-06T22:23:53","date_gmt":"2008-07-06T21:23:53","guid":{"rendered":"http:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/?p=231"},"modified":"2009-08-08T20:36:45","modified_gmt":"2009-08-08T19:36:45","slug":"%e2%80%9csera-que-uma-chega%e2%80%9d","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/%e2%80%9csera-que-uma-chega%e2%80%9d\/","title":{"rendered":"\u201cSer\u00e1 que uma chega?\u201d"},"content":{"rendered":"<p>Foi com estas palavras do R. que se iniciou mais uma aventura gastron\u00f3mica deste primeiro andar das Ingombotas.<\/p>\n<p>&#8220;N\u00e3o ser\u00e1 melhor levar duas?&#8221; Acrescentou, enquanto segurava numa embalagem com meio quilo de carne congelada. &#8220;\u00c9 bife de vaca!&#8221;<\/p>\n<p>&#8220;N\u00e3o, deixa estar. Seiscentos gramas chegam bem para tr\u00eas pessoas. N\u00e3o te esque\u00e7as do acompanhamento.&#8221;<\/p>\n<p>Desde esta fat\u00eddica Quinta-feira no Jumbo, que a carne acabou por ficar no congelador \u00e0 espera de destino.<\/p>\n<p>Esta noite fui ver o que havia no frigor\u00edfico para cozinhar. Para al\u00e9m dos croquetes, riss\u00f3is e past\u00e9is de bacalhau congelados dos dias de menos imagina\u00e7\u00e3o, havia ainda filetes de pescada e o tal peda\u00e7o de &#8220;Bife de Vaca&#8221; congelado. A pescada foi posta de parte. Tinha sido o nosso almo\u00e7o e jantar da v\u00e9spera. Teria de se fazer ou uns bifes, ou um arrozinho de carne.<\/p>\n<p>Limpei o gelo do pacote e li o r\u00f3tulo. &#8220;Ba\u00e7o de Vaca&#8221;. Mas que raio? Quem \u00e9 que se lembra de comprar ba\u00e7o? N\u00e3o tinha vindo bife? O R. escolheu bife\u2026 pelo menos disse que era bife.<\/p>\n<p>O peda\u00e7o de carne em quest\u00e3o custava apenas 76 Kz, mas a esquizofrenia dos pre\u00e7os angolanos faz-nos acreditar em tudo e perder a no\u00e7\u00e3o da realidade. N\u00e3o h\u00e1 s\u00edtio nenhum no mundo onde se venda bife de vaca t\u00e3o barato. Ali\u00e1s, julgo at\u00e9 que a carne para animais era mais cara.<\/p>\n<p>E agora, como se cozinha isto? Descongela-se e logo se ver\u00e1. Um refogado \u00e9 capaz de ajudar a disfar\u00e7ar um eventual travo caracter\u00edstico.<\/p>\n<p>Entretanto informei as restantes v\u00edtimas do que se passava e do que os esperava. Agarraram-se aos telefones e falaram com as m\u00e3es. Eram un\u00e2nimes, aquilo era intrag\u00e1vel, incomest\u00edvel e imprest\u00e1vel. As expectativas eram baixas, portanto.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2008\/07\/070608-2223-serqueumac1.jpg\" alt=\"\" \/><br \/>\nA popula\u00e7\u00e3o preparou-se para o pior<\/p>\n<p>A textura da carne e a quantidade de sangue fizeram-me acreditar que talvez se conseguisse uma cabidela med\u00edocre ou uma surra-burra sofr\u00edvel. O refogado l\u00e1 se encaminhava, mas a carne\u2026 tinha um aspecto cada vez menos convidativo, \u00e0 medida que a ia cortando, limpando e atirando para o tacho.<\/p>\n<p>Fui proibido de juntar arroz \u00e0 mistela que ganhava aroma. Teria de se cozer esparguete, s\u00f3 para o caso de o ba\u00e7o se revelar mesmo incomest\u00edvel. Vinho branco espanhol, uma cenoura pequenina e tomate pelado acabaram por ser sacrificados ao deus do Ba\u00e7o, na esperan\u00e7a de um milagre.<\/p>\n<p>J\u00e1 na mesa, serviram-se os pratos. O R. provou e cuspiu a carne. A P. provou e disse que n\u00e3o conseguia engolir aquilo. Eu provei e at\u00e9 nem achei mau. Bem pr\u00f3ximo da surra-burra sofr\u00edvel antecipada. Sabia e tinha a textura de f\u00edgado. O tempero at\u00e9 estava aceit\u00e1vel. Recebi a queixa do costume: Pouco sal.<\/p>\n<p>Acabei por repetir enquanto os dois companheiros de prato se entregavam aos prazeres do esparguete no molho.<\/p>\n<p>Remat\u00e1mos a refei\u00e7\u00e3o com p\u00eassego em calda. Nem tudo tinha de ser mau\u2026<\/p>\n<p>Da primeira vez que cozinhei c\u00e1 em casa preparei o pur\u00e9 de mandioca com frango, hoje fa\u00e7o ba\u00e7o no tacho. Qualquer dia, com medo, pro\u00edbem-me de entrar na cozinha.<\/p>\n<p>Enquanto escrevia mais este epis\u00f3dio das nossas aventuras angolanas, o homem-do-pijama-de-uma-risca-s\u00f3 lavava a loi\u00e7a e n\u00e3o me deu tempo de fotografar o resultado. Por isso sou obrigado a improvisar com uma coisa que nunca imaginei existir: um todo-terreno funer\u00e1rio.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2008\/07\/070608-2223-serqueumac2.jpg\" alt=\"\" \/><br \/>\nUma carreta funer\u00e1ria para as ruas de Luanda<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Foi com estas palavras do R. que se iniciou mais uma aventura gastron\u00f3mica deste primeiro andar das Ingombotas. &#8220;N\u00e3o ser\u00e1 melhor levar duas?&#8221; Acrescentou, enquanto segurava numa embalagem com meio quilo de carne congelada. &#8220;\u00c9 bife de vaca!&#8221; &#8220;N\u00e3o, deixa estar. Seiscentos gramas chegam bem para tr\u00eas pessoas. 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