{"id":2312,"date":"2009-04-04T00:00:00","date_gmt":"2009-04-03T23:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/?p=2312"},"modified":"2009-07-16T22:52:23","modified_gmt":"2009-07-16T21:52:23","slug":"divagaes-ao-final-da-tarde","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/divagaes-ao-final-da-tarde\/","title":{"rendered":"Divaga\u00e7\u00f5es ao final da tarde"},"content":{"rendered":"<p>O final do dia chegou com uma luz especial. Nuvens pastel, variando entre o rosa e o laranja, faziam a luz inundar o mundo, afogando as sombras e emprestando \u00e0 cidade uma ilumina\u00e7\u00e3o digna de um filme.<\/p>\n<p>Esta atmosfera m\u00e1gica prenuncia uma mudan\u00e7a no tempo. Chuva ou trovoada, talvez. O calor abafado ao longo da tarde refor\u00e7a o sentimento. N\u00e3o sou o \u00fanico a ach\u00e1-lo. No centro da sala, quatro moscas voaram todo o dia em traject\u00f3rias estranhas, como que querendo escrever no ar uma epopeia de insectos. S\u00e3o as mesmas que me prendiam a aten\u00e7\u00e3o em pequeno. Os seus arranques e mudan\u00e7as de direc\u00e7\u00e3o aparentemente aleat\u00f3rios e intermin\u00e1veis s\u00e3o fascinantes, do ponto de vista do entretenimento infantil e da curiosidade cient\u00edfica, claro.<\/p>\n<p>Em Angola, habituei-me a ver as coisas como estrangeiro, a observar sem intervir. Hoje dei por mim a fazer o mesmo na terra onde cresci. A perda de mem\u00f3ria colectiva a que assisto em Luanda, com a demoli\u00e7\u00e3o dos edif\u00edcios que d\u00e3o identidade \u00e0 cidade fez-me perceber que tamb\u00e9m na minha terra isso acontece. Circulei nas ruas que conhe\u00e7o t\u00e3o bem, arregalando os olhos e escutando conversas que sei serem familiares. Memorizei o aspecto das casas que enchem as minhas mem\u00f3rias, na esperan\u00e7a de que n\u00e3o tenha de as recordar apenas e que as possa ver na pr\u00f3xima visita.<\/p>\n<p>Algumas novidades aqui e ali. Lojas fechadas. Muitas casas \u00e0 venda. \u00c1rvores podadas. Um pr\u00e9dio incaracter\u00edstico mereceu uma placa aludindo \u00e0 morada de um pintor famoso. Queluz est\u00e1 a ganhar mem\u00f3ria!<\/p>\n<p>Um pouco mais \u00e0 frente, uma av\u00f3 passeava com a neta. A neta dizia que n\u00e3o ia chover a av\u00f3 insistia que sim. Afinal de contas, o calor que estava n\u00e3o enganava ningu\u00e9m. Sorri para dentro e olhei para o c\u00e9u. As nuvens estavam mais rosadas. Olhei para o ch\u00e3o. As sombras continuavam desaparecidas.<\/p>\n<p>No jardim, sobre cada arbusto, nuvens de pequenos mosquitos tentavam dar sentido \u00e0 sua breve vida numa orgia alada, desenhando espirais que se contorciam e faziam os corredores fechar a boca e esbracejar quando por l\u00e1 passavam.<\/p>\n<p>Olhei para o c\u00e9u uma \u00faltima vez, antes de o dia se transformar em noite, e tive a certeza de que n\u00e3o podia deixar escapar o momento. Estuguei o passo para chegar mais depressa a casa. Tinha um artigo para escrever.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O final do dia chegou com uma luz especial. Nuvens pastel, variando entre o rosa e o laranja, faziam a luz inundar o mundo, afogando as sombras e emprestando \u00e0 cidade uma ilumina\u00e7\u00e3o digna de um filme. Esta atmosfera m\u00e1gica prenuncia uma mudan\u00e7a no tempo. Chuva ou trovoada, talvez. O calor abafado ao longo da [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"footnotes":""},"categories":[25,60],"tags":[45,41,36,61,39,1463],"class_list":["post-2312","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-portugal","category-queluz","tag-ceu","tag-chuva","tag-divagacoes","tag-moscas","tag-mosquitos","tag-portugal"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2312","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2312"}],"version-history":[{"count":5,"href":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2312\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2891,"href":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2312\/revisions\/2891"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2312"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2312"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2312"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}