{"id":2314,"date":"2009-04-05T00:00:00","date_gmt":"2009-04-04T23:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/?p=2314"},"modified":"2009-07-19T13:25:43","modified_gmt":"2009-07-19T12:25:43","slug":"os-outros-sotaques","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/os-outros-sotaques\/","title":{"rendered":"Os outros sotaques"},"content":{"rendered":"<p>Depois de uns meses em Angola, passei a estar mais atento aos pequenos detalhes que distinguem os v\u00e1rios povos. Gosto de apreciar os sotaques de cada regi\u00e3o e os pormenores que denunciam a origem das pessoas. Ando de olhos mais abertos, procurando fixar na mem\u00f3ria toda a novidade que me rodeia. <\/p>\n<p>No regresso a Portugal, sou incapaz de desligar este mecanismo e continuo a olhar para tudo com os mesmos olhos s\u00f4fregos. Mirando todas as coisas como se fosse a \u00faltima vez que as verei. Arrependo-me mil vezes de n\u00e3o ter levado a m\u00e1quina fotogr\u00e1fica, essa fiel companheira, para captar aquele detalhe ou enquadramento. A ang\u00fastia passa depressa porque sei que o momento n\u00e3o foi perdido. Apreciei-o mais do que se o tivesse fotografado.<\/p>\n<p>Esta aten\u00e7\u00e3o mant\u00e9m-se mesmo na observa\u00e7\u00e3o das pessoas. Agora parece-me estranho escutar africanos sem o sotaque angolano. Lembro-me depois que s\u00e3o a terceira gera\u00e7\u00e3o. Os seus av\u00f3s emigraram para Portugal h\u00e1 tr\u00eas d\u00e9cadas e agora falam com o sotaque universal emprestado pela televis\u00e3o. S\u00e3o mais portugueses que eu, que moro em \u00c1frica. O mesmo acontece com os emigrantes chineses que agora t\u00eam filhos na escola. N\u00e3o h\u00e1 <em>ll<\/em> trocados com <em>rr<\/em> e tempos verbais esquisitos.<\/p>\n<p>O h\u00e1bito adquirido de tentar filtrar a primeira camada de informa\u00e7\u00e3o levou-me a esmiu\u00e7ar um pouco mais a an\u00e1lise aos sotaques. Se esquecermos a cor da pele ou o formato dos olhos, todos falam de maneira igual. Mas esta \u00e9 apenas a primeira camada. A que distrai. \u00c9 como chegar a uma terra long\u00ednqua e todos os rostos parecerem iguais. \u00c9 preciso observar outras coisas. Passei a observar os gestos.<\/p>\n<p>Descobri que os gestos tamb\u00e9m t\u00eam sotaque. As garotas angolanas com que me cruzei na rua falavam n\u00e3o s\u00f3 com a voz. As suas m\u00e3os repetiam gestos aprendidos com as suas m\u00e3es, iguais aos que vi em Luanda, mas diferentes dos que aprendi com a minha. A linguagem corporal usada tinha o sotaque angolano. Sorri para dentro. Descobri uma coisa nova.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Depois de uns meses em Angola, passei a estar mais atento aos pequenos detalhes que distinguem os v\u00e1rios povos. Gosto de apreciar os sotaques de cada regi\u00e3o e os pormenores que denunciam a origem das pessoas. Ando de olhos mais abertos, procurando fixar na mem\u00f3ria toda a novidade que me rodeia. No regresso a Portugal, [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"footnotes":""},"categories":[1,25],"tags":[36,3],"class_list":["post-2314","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-angola","category-portugal","tag-divagacoes","tag-gentes"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2314","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2314"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2314\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2994,"href":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2314\/revisions\/2994"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2314"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2314"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2314"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}