{"id":2355,"date":"2009-06-21T00:00:00","date_gmt":"2009-06-20T23:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/?p=2355"},"modified":"2009-07-19T13:15:48","modified_gmt":"2009-07-19T12:15:48","slug":"quatrocentos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/quatrocentos\/","title":{"rendered":"Quatrocentos, mais ou menos"},"content":{"rendered":"<p>Ao longo de mais de um ano, o Aerograma tem crescido em direc\u00e7\u00f5es inesperadas. Come\u00e7ou timidamente, apenas para contar e aprofundar as experi\u00eancias que um novo continente diferente proporciona. Servia para manter os meus ao corrente de tudo aquilo que n\u00e3o conseguia dizer pelo telefone, quer fosse por me faltarem as palavras quer por ainda estar a tentar digerir tudo quanto tinha visto, ouvido e sentido.<\/p>\n<p>Pouco a pouco, o Aerograma sentiu a necessidade de se tornar di\u00e1rio. Eu n\u00e3o tive voto na mat\u00e9ria. Apenas contribuo com uns toques nas teclas para que as palavras ganhem forma. Impus-lhe algumas regras, no entanto. N\u00e3o toleraria repeti\u00e7\u00f5es injustificadas de temas ou de hist\u00f3rias. S\u00f3 permitiria textos originais. N\u00e3o me tornaria seu escravo.<\/p>\n<p>Mais de trezentos artigos depois, notei mudan\u00e7as em mim e no Aerograma. Apercebi-me das muitas muletas que usava nos textos e, paulatinamente, tenho-me obrigado a abandon\u00e1-las. Ainda faltam umas quantas, mas noto melhorias. O Aerograma tamb\u00e9m deixou de ser um relato di\u00e1rio do que me rodeava. Os artigos passaram a ser um pouco mais imprecisos no tempo, porque, na verdade, n\u00e3o me interessa muito saber em que dia vivi um determinado epis\u00f3dio. Interessa-me apenas saber que me marcou.<\/p>\n<p>A meio deste artigo apercebi-me de que, mais uma vez, o Aerograma se tinha apoderado dele. Parece um artigo a comemorar mais um centen\u00e1rio, mas queria mesmo ter falado de outra coisa.<\/p>\n<p>Voltemos ao tema.<\/p>\n<p>Uma das regras que estabeleci foi a de n\u00e3o me tornar escravo do Aerograma. Sirvo-lhe de int\u00e9rprete e dou-lhe forma porque quero e n\u00e3o o contr\u00e1rio. No entanto, as coisas nunca s\u00e3o assim t\u00e3o lineares. Habituei-me a ter sempre alguns artigos de reserva, programados para os dias seguintes, para n\u00e3o sofrer a press\u00e3o de ter de escrever um. Pode haver dias em que as coisas fluem melhor e consiga preparar meia-d\u00fazia deles e de deixar outros tantos alinhavados. Outros nunca passam de uma breve nota no caderninho que se acaba por perder porque j\u00e1 sou incapaz de perceber a minha elegante caligrafia esquizofr\u00e9nica.<\/p>\n<p>Mas esta rela\u00e7\u00e3o t\u00e3o pr\u00f3xima com algo que j\u00e1 tem vida pr\u00f3pria provocou mudan\u00e7as no meu ser. Habituei-me a escrever. Acostumei-me a esta rela\u00e7\u00e3o de intimidade long\u00ednqua com pessoas que n\u00e3o conhe\u00e7o, apenas porque tenho um int\u00e9rprete das minhas experi\u00eancias. Escrevi sobre muitas coisas diferentes. Escrevi mais do que alguma vez sonhei e sinto que ainda h\u00e1 muito por dizer.<\/p>\n<p>Percebi que tinha violado a minha regra quando fui de f\u00e9rias e deixei de poder escrever. Viagens, burocracias e cansa\u00e7o contribu\u00edram para este desleixo. Os artigos que tinha de reserva foram sendo publicados, ao ritmo de um por dia, como sempre, at\u00e9 que se esgotaram.<\/p>\n<p>A escrita \u00e9 uma rotina. E a longa pausa quebrou essa rotina. Dei por mim preocupado porque tinha mesmo de escrever ou ent\u00e3o o Aerograma era interrompido. N\u00e3o adviria nenhum grande mal ao mundo, mas abria um precedente. Deixaria de ser di\u00e1rio por inc\u00faria minha.<\/p>\n<p>Escrevi umas coisas assim-assim, pouco inspiradas, porque a quebra da rotina foi tamb\u00e9m acompanhada por um afastamento das experi\u00eancias que movem o Aerograma. Fui escravizado por algo que devia controlar.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" style=\"border-right: 0px; border-top: 0px; display: inline; border-left: 0px; border-bottom: 0px\" title=\"alforria\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2009\/04\/alforria.jpg\" border=\"0\" alt=\"alforria\" width=\"600\" height=\"400\" \/><br \/>\nAlgures na \u00c1ustria<\/p>\n<p>Foram precisos alguns dias at\u00e9 que conseguisse afinar de novo os sentidos para procurar os detalhes no meio do ru\u00eddo. Ao fim de uma semana, voltei a rir-me das crian\u00e7as a correr na lama atr\u00e1s de um c\u00e3o. Tornei a fazer notas incompreens\u00edveis no caderninho, sabendo de antem\u00e3o que poder\u00e3o nunca ser usadas.<\/p>\n<p>Senti-me liberto. Percebi que a escrita sobrevive de uma certa rotina e disciplina. As regras n\u00e3o precisam ser r\u00edgidas, mas t\u00eam de existir. Voltei a escrever quando me apetece. Um, dois ou mais artigos de cada vez. Hei-de voltar a ter uma reserva confort\u00e1vel, mas n\u00e3o me vou preocupar muito com isso. Fui alforriado e n\u00e3o me apetece voltar a ser escravo.<\/p>\n<p>E s\u00f3 para lhe mostrar quem manda, vou publicar este texto apenas daqui a uns dois meses, por altura do quadrigent\u00e9simo artigo!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ao longo de mais de um ano, o Aerograma tem crescido em direc\u00e7\u00f5es inesperadas. Come\u00e7ou timidamente, apenas para contar e aprofundar as experi\u00eancias que um novo continente diferente proporciona. 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