{"id":2362,"date":"2009-04-22T00:00:00","date_gmt":"2009-04-21T23:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/?p=2362"},"modified":"2009-09-19T14:58:55","modified_gmt":"2009-09-19T13:58:55","slug":"tabuleiro-de-carto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/tabuleiro-de-carto\/","title":{"rendered":"Tabuleiro de cart\u00e3o, dados de carv\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p>A vida dos milhares de seguran\u00e7as que se espregui\u00e7am nas cadeiras de pl\u00e1stico mancas de Luanda \u00e9, sobretudo, mon\u00f3tona. Turnos de vinte e quatro horas obrigam a que o servi\u00e7o seja distribu\u00eddo por entre as mais ou menos longas sestas e sonecas a que o calor e o t\u00e9dio obrigam. Nem mesmo a refei\u00e7\u00e3o di\u00e1ria traz grande consolo. \u00c9 o eterno frango com arroz ou arroz com frango, dependendo dos dias.<\/p>\n<p>Alguns, mais afortunados, t\u00eam direito a trabalhar com um colega. Sempre d\u00e1 para ir conversando e t\u00eam algu\u00e9m que lhes vele pelo sono nas alturas mais calmas. Os seguran\u00e7as do nosso edif\u00edcio s\u00e3o uns sortudos. Vivem entalados entre um banco e um sal\u00e3o de jogos. \u00c9 natural que todos se juntem \u00e0 nossa porta para conversar ou que aproveitem o v\u00e3o das escadas, fresquinho, para dormir a sesta. Chega mesmo a haver alturas em que h\u00e1 mais seguran\u00e7as que habitantes no pr\u00e9dio. \u00c0 noite, juntam-se todos numa roda de cadeiras e pedras, apoiados nas armas autom\u00e1ticas. S\u00f3 falta a fogueira no meio para parecerem <em>mais-velhos<\/em> a contar hist\u00f3rias encostados aos cajados.<\/p>\n<p>Os mais habilidosos arranjam outras formas para se distrair. Uma caixa de cart\u00e3o, uma esferogr\u00e1fica e umas quantas caricas de garrafa de cerveja servem para umas partidas de damas. O tabuleiro pode ficar apoiado numa grade de gasosa ou nos joelhos dos jogadores, o que cria uma cena muito \u00edntima, com as testas de cada um quase a tocarem-se enquanto movem as pe\u00e7as.<\/p>\n<p>Noutras partes de Luanda, encontramos um monte de rapazes de volta de um peda\u00e7o de cart\u00e3o grande, onde tra\u00e7aram as casas de um jogo de Ludo com peda\u00e7os de carv\u00e3o. Quatro deles jogam, usando uns dados muito negros que s\u00f3 depois de uns instantes associamos a muitos riscos escuros numa t\u00e1bua pr\u00f3xima. Na falta de dados a s\u00e9rio, rasparam dois pedacinhos de carv\u00e3o at\u00e9 se parecerem com dois pequenos cubos. Com uns furinhos adicionais, cumprem a fun\u00e7\u00e3o. Por uns momentos, tamb\u00e9m me apeteceu ficar debaixo daquela mangueira, sentado no ch\u00e3o e a sujar os dedos de carv\u00e3o.<\/p>\n<p>Sempre que vejo um destes jogos, n\u00e3o resisto a ir perguntar quem est\u00e1 a ganhar. Habitualmente, a resposta vem em coro e com olhos brilhantes \u00ab<em>Ganho eu!<\/em>\u00bb. Ficamos sem saber se responderam mesmo \u00e0 pergunta ou se est\u00e3o a fazer previs\u00f5es de futuro.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A vida dos milhares de seguran\u00e7as que se espregui\u00e7am nas cadeiras de pl\u00e1stico mancas de Luanda \u00e9, sobretudo, mon\u00f3tona. Turnos de vinte e quatro horas obrigam a que o servi\u00e7o seja distribu\u00eddo por entre as mais ou menos longas sestas e sonecas a que o calor e o t\u00e9dio obrigam. 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