{"id":2410,"date":"2009-05-02T00:00:00","date_gmt":"2009-05-01T23:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/?p=2410"},"modified":"2009-07-19T13:23:53","modified_gmt":"2009-07-19T12:23:53","slug":"memrias-alheias","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/memrias-alheias\/","title":{"rendered":"Mem\u00f3rias alheias"},"content":{"rendered":"<p>O Aerograma nasceu para servir de reposit\u00f3rio \u00e0s minhas experi\u00eancias em Angola. Relata aqueles epis\u00f3dios que me ficar\u00e3o na mem\u00f3ria, que passar\u00e3o a fazer parte de mim. Impedir\u00e1, tamb\u00e9m, que os detalhes se esbatam, que as caras se esque\u00e7am, porque sei bem o qu\u00e3o esquecido sou. Mas aquilo que come\u00e7ou por ser uma coisa muito pessoal, depressa me fugiu das m\u00e3os. Agora, o Aerograma vai onde quer, por motivos que s\u00f3 ele sabe. S\u00f3 as minhas mem\u00f3rias j\u00e1 n\u00e3o lhe chegam. Desta vez levou-me em busca de mem\u00f3rias alheias.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" title=\"memorias-alheias-01\" style=\"border-right: 0px; border-top: 0px; display: inline; border-left: 0px; border-bottom: 0px\" height=\"400\" alt=\"memorias-alheias-01\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2009\/04\/memoriasalheias01.jpg\" width=\"600\" border=\"0\" \/>    <br \/>A caminho<\/p>\n<p>Esta viagem nasceu no meio dos coment\u00e1rios que v\u00e3o dando um certo colorido aos artigos. Os que mais me tocam s\u00e3o os de algu\u00e9m que teve as suas mem\u00f3rias despertas com a men\u00e7\u00e3o a um determinado lugar e pede fotografias deste ou daquele s\u00edtio, de casas de familiares ou amigos, de peda\u00e7os da inf\u00e2ncia\u2026 Por vezes sinto que \u00e9 um pedido imposs\u00edvel, porque o que desejam verdadeiramente \u00e9 viajar no tempo, de ter uma fotografia do que j\u00e1 se lhes come\u00e7a a esbater na mem\u00f3ria. Invocam, com toda a naturalidade, nomes de ruas, lojas de conhecidos e pontos de refer\u00eancia que n\u00e3o existem h\u00e1 trinta anos. Por vezes at\u00e9 sei exactamente qual o s\u00edtio que gostariam de recordar, mas percebo que n\u00e3o o poderei fazer sem lhes arruinar essas mem\u00f3rias de tempos, quase sempre, felizes. Muitos anos se passaram e a realidade contrasta muito com o passado.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" title=\"memorias-alheias-02\" style=\"border-right: 0px; border-top: 0px; display: inline; border-left: 0px; border-bottom: 0px\" height=\"400\" alt=\"memorias-alheias-02\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2009\/04\/memoriasalheias02.jpg\" width=\"600\" border=\"0\" \/>    <br \/>No caminho errado<\/p>\n<p>Nunca esperaria ir de prop\u00f3sito \u00e0 Barragem das Mabubas, n\u00e3o fosse um coment\u00e1rio deixado por um <a href=\"http:\/\/angola3441.blogspot.com\/\" target=\"_blank\">militar de Rivungo<\/a>. Mesmo que existissem, os roteiros tur\u00edsticos angolanos n\u00e3o a deveriam referir. Afinal de contas, h\u00e1 tantos outros s\u00edtios mais <em>tur\u00edsticos<\/em> para visitar. <\/p>\n<p>Num Domingo de Ver\u00e3o, com todo o <em>caluanda<\/em> que se preza na praia ou a beber <em>Cucas<\/em> \u00e0 sombra de uma mangueira, o tr\u00e2nsito n\u00e3o estava mau de todo. Para sair de Luanda e chegar ao posto de controlo de Kifangondo, demorei apenas uma hora. S\u00e3o cerca de 25 quil\u00f3metros, mas foi uma excelente m\u00e9dia, tendo em conta experi\u00eancias anteriores.<\/p>\n<p>Uma hora depois, estava a tentar decidir se a Barragem ficaria no caminho \u00e0 esquerda ou no caminho \u00e0 direita. Apostei no da direita e enganei-me. O engano n\u00e3o foi em v\u00e3o, porque a paisagem era soberba e ainda consegui fotografar um blindado esquecido \u00e0 beira da estrada. Regressei \u00e0 encruzilhada e, dez minutos depois, estava a pedir informa\u00e7\u00f5es a um pol\u00edcia na aldeia de Mabubas.<\/p>\n<p> <img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" title=\"memorias-alheias-009\" style=\"border-right: 0px; border-top: 0px; display: inline; border-left: 0px; border-bottom: 0px\" height=\"400\" alt=\"memorias-alheias-009\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2009\/04\/memoriasalheias009.jpg\" width=\"600\" border=\"0\" \/>  <br \/>Quase l\u00e1  <\/p>\n<p>Obviamente que n\u00e3o precisava de lhas pedir, mas j\u00e1 percebi que, se um pol\u00edcia fizer algo por mim, \u00e9 menos prov\u00e1vel que eu tenha de fazer algo por ele. No fundo, o pol\u00edcia sente que cumpre a sua miss\u00e3o dando-me informa\u00e7\u00f5es, em vez se me aborrecer por umas horas a ver se desencanta uma <em>gasosa<\/em> ou um <em>caf\u00e9<\/em>\u2026<\/p>\n<p> <img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" title=\"memorias-alheias-04\" style=\"border-right: 0px; border-top: 0px; display: inline; border-left: 0px; border-bottom: 0px\" height=\"400\" alt=\"memorias-alheias-04\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2009\/04\/memoriasalheias04.jpg\" width=\"600\" border=\"0\" \/>  <br \/>Barragem das Mabubas  <\/p>\n<p>Mas ainda bem que parei. Ele estava sentado \u00e0 sombra de uma mangueira a ouvir r\u00e1dio. E julgo que ali perto deveria haver uma ou outra lata de <em>Cuca<\/em> amassada. Apresentei-me, perguntei-lhe como estava e respondeu-me que \u00ab<em>mais ou menos\u2026<\/em>\u00bb. N\u00e3o, n\u00e3o estava doente, estava s\u00f3 mais ou menos. Convers\u00e1mos mais um pouco e fiquei a saber que a Barragem era no fim da rua e podia-se andar \u00e0 vontade. S\u00f3 n\u00e3o se podia era ir para o outro lado, porque ainda estava minado.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" title=\"memorias-alheias-09\" style=\"border-right: 0px; border-top: 0px; display: inline; border-left: 0px; border-bottom: 0px\" height=\"400\" alt=\"memorias-alheias-09\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2009\/04\/memoriasalheias09.jpg\" width=\"600\" border=\"0\" \/>    <br \/>Rio Dande<\/p>\n<p>Mesmo na \u00e9poca das chuvas, a albufeira estava quase vazia. Os tr\u00eas descarregadores estavam abertos e soltavam uma torrente furiosa de encontro \u00e0s rochas a jusante.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" title=\"memorias-alheias-06\" style=\"border-right: 0px; border-top: 0px; display: inline; border-left: 0px; border-bottom: 0px\" height=\"400\" alt=\"memorias-alheias-06\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2009\/04\/memoriasalheias06.jpg\" width=\"600\" border=\"0\" \/>    <br \/>Jogo de sombras<\/p>\n<p>A estrutura de bet\u00e3o est\u00e1 bastante bem conservada. Aqui e ali mostra marcas do tempo e do desleixo. Marcas da guerra tamb\u00e9m h\u00e1, mas s\u00e3o mais vis\u00edveis nas m\u00e1quinas que faziam mover as comportas. A troco de um objectivo militar obscuro, houve algu\u00e9m que entendeu ser interessante colocar uma granada em cada m\u00e1quina e inutilizar uma infra-estrutura fundamental. E, como tantas outras coisas em Angola, uma vez avariada, n\u00e3o h\u00e1 quem componha.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" title=\"memorias-alheias-05\" style=\"border-right: 0px; border-top: 0px; display: inline; border-left: 0px; border-bottom: 0px\" height=\"400\" alt=\"memorias-alheias-05\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2009\/04\/memoriasalheias05.jpg\" width=\"600\" border=\"0\" \/>    <br \/>Irracionalidade<\/p>\n<p>A central el\u00e9ctrica, um pouco mais a jusante dependia de duas tomadas de \u00e1gua, equipadas com filtros para impedir a passagem de ramos e lixo. Estes filtros eram limpos regularmente com duas m\u00e1quinas instaladas num edif\u00edcio pr\u00f3prio. Estas n\u00e3o foram destru\u00eddas com explosivos. Foram abandonadas e lentamente desmanteladas. Todo o cobre que estava \u00e0 vista desapareceu, assim como tudo o que n\u00e3o fosse demasiado pesado para se movido. Escusado ser\u00e1 dizer que os filtros est\u00e3o entupidos h\u00e1 d\u00e9cadas e que a central n\u00e3o produziria electricidade nem mesmo se os geradores ainda estivessem operacionais.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" title=\"memorias-alheias-07\" style=\"border-right: 0px; border-top: 0px; display: inline; border-left: 0px; border-bottom: 0px\" height=\"400\" alt=\"memorias-alheias-07\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2009\/04\/memoriasalheias07.jpg\" width=\"600\" border=\"0\" \/>    <br \/>Casa dos filtros<\/p>\n<p>Uma coisa que me espanta \u00e9 que um equipamento destes seja deixado ao abandono. A recupera\u00e7\u00e3o desta barragem n\u00e3o seria cara, mas enterram-se milh\u00f5es em projectos fara\u00f3nicos como o de encher a Ba\u00eda de Luanda para construir mais pr\u00e9dios.<\/p>\n<p> <img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" title=\"memorias-alheias-08\" style=\"border-right: 0px; border-top: 0px; display: inline; border-left: 0px; border-bottom: 0px\" height=\"400\" alt=\"memorias-alheias-08\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2009\/04\/memoriasalheias08.jpg\" width=\"600\" border=\"0\" \/>  <br \/>A fauna local  <\/p>\n<p>E cheguei ao fim da barragem. Daqui para a frente, disse-me o pol\u00edcia, est\u00e1 minado. Fiquei com curiosidade de ir ver a central el\u00e9ctrica, mas regresso com o mesmo n\u00famero de pernas\u2026<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" title=\"memorias-alheias-10\" style=\"border-right: 0px; border-top: 0px; display: inline; border-left: 0px; border-bottom: 0px\" height=\"400\" alt=\"memorias-alheias-10\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2009\/04\/memoriasalheias10.jpg\" width=\"600\" border=\"0\" \/>    <br \/>Daqui para a frente est\u00e1 minado<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Aerograma nasceu para servir de reposit\u00f3rio \u00e0s minhas experi\u00eancias em Angola. Relata aqueles epis\u00f3dios que me ficar\u00e3o na mem\u00f3ria, que passar\u00e3o a fazer parte de mim. Impedir\u00e1, tamb\u00e9m, que os detalhes se esbatam, que as caras se esque\u00e7am, porque sei bem o qu\u00e3o esquecido sou. 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