{"id":2416,"date":"2009-05-04T00:00:00","date_gmt":"2009-05-03T23:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/?p=2416"},"modified":"2009-07-19T13:37:02","modified_gmt":"2009-07-19T12:37:02","slug":"hoje-no-se-trabalha","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/hoje-no-se-trabalha\/","title":{"rendered":"Hoje n\u00e3o se trabalha"},"content":{"rendered":"<p>Os estrangeiros que v\u00eam trabalhar para Angola, geralmente para desempenhar fun\u00e7\u00f5es para as quais ainda n\u00e3o h\u00e1 angolanos suficientes, mas n\u00e3o s\u00f3, que j\u00e1 vi chineses a varrer ruas de Luanda, deparam-se com uma realidade muito para l\u00e1 do que alguma vez tenham imaginado.<\/p>\n<p>Todos eles sabiam que o ritmo do trabalho \u00e9 diferente. V\u00eam preparados para esperar uma semana por uma tarefa que demoraria um dia, se tudo corresse mal. Acabam por ficar essa semana, e mais duas, \u00e0 espera de um qualquer detalhe fundamental que s\u00f3 poder\u00e1 ser resolvido por algu\u00e9m que faltou ou que n\u00e3o se consegue encontrar. Depois disso, h\u00e1 mais tr\u00eas ou quatro coisas que fazem a engrenagem emperrar. O choque \u00e9 grande, mas s\u00f3 acontece uma m\u00e3o-cheia de vezes. Num instante se habituam a estabelecer metas mais flex\u00edveis e n\u00e3o pensar muito nos prazos. H\u00e1-de ser feito. Talvez.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" title=\"Huambo_26\" style=\"border-right: 0px; border-top: 0px; display: inline; border-left: 0px; border-bottom: 0px\" height=\"358\" alt=\"Huambo_26\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2009\/04\/huambo-26.jpg\" width=\"600\" border=\"0\" \/>    <br \/>A caminho do trabalho<\/p>\n<p> Por todo o lado se ouvem hist\u00f3rias de trabalhadores que s\u00f3 v\u00e3o em dias alternados ao servi\u00e7o e parecem n\u00e3o se preocupar muito com o assunto. Encaram aquilo como um emprego, que o trabalho faz mal.<\/p>\n<p>Esta situa\u00e7\u00e3o poder\u00e1 parecer algo de anormal, quando se sabe que os ordenados s\u00e3o muito baixos e o custo de vida, mesmo para os angolanos, \u00e9 alto. O que n\u00e3o est\u00e1 imediatamente \u00e0 vista \u00e9 que, nalguns casos, compensa muito mais n\u00e3o trabalhar do que ter a chatice de ir ao servi\u00e7o fazer coisas aborrecidas.<\/p>\n<p>Obviamente que h\u00e1 excep\u00e7\u00f5es. Nem todos os angolanos s\u00e3o assim, felizmente. Mas os cumpridores e zelosos do seu trabalho passam despercebidos no meio dos outros todos, que at\u00e9 devem ser menos.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" title=\"Huambo_20090203-100443-S12-76292_E015-74923_05\" style=\"border-right: 0px; border-top: 0px; display: inline; border-left: 0px; border-bottom: 0px\" height=\"400\" alt=\"Huambo_20090203-100443-S12-76292_E015-74923_05\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2009\/04\/huambo-20090203100443s1276292-e01574923-05.jpg\" width=\"600\" border=\"0\" \/>    <br \/>Na varanda<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 alojamento nem para uma \u00ednfima parte dos expatriados que c\u00e1 vivem. As empresas mant\u00e9m quartos de hotel arrendados ao ano e montam casas para os seus empregados. A maioria n\u00e3o se socorre dos condom\u00ednios milion\u00e1rios da Talatona, mas sim de andares e vivendas no caro\u00e7o da cidade. Estas casas n\u00e3o est\u00e3o desocupadas, at\u00e9 porque semelhante conceito n\u00e3o existem em Luanda. O pr\u00e9dio pode n\u00e3o ter paredes nem tecto, mas \u00e9 certo que l\u00e1 habita algu\u00e9m.<\/p>\n<p> A solu\u00e7\u00e3o que se encontra \u00e9 arrendar as casas a quem l\u00e1 vive que, com o dinheiro da renda, vai morar para a periferia ou, como acontece nalguns casos, constr\u00f3i um anexo no quintal e passa a viver l\u00e1.<\/p>\n<p>A lei da oferta e da procura dita pre\u00e7os exorbitantes para as rendas, ao n\u00edvel de metr\u00f3poles como Nova Iorque, Paris ou Londres, mas sem o resto das condi\u00e7\u00f5es ou charme. As rendas s\u00e3o pagas anualmente, uma vez que todos os angolanos desconfiam de caloteiros. Largas dezenas de milhar de d\u00f3lares trocam de m\u00e3os e trabalhar passa a ser uma actividade sup\u00e9rflua. Que hei-de eu pensar quando o senhorio, que agora vive num anexo improvisado com uns toldos, l\u00e1 nas traseiras, recebe de renda mais do que os ordenados anuais de todos os seguran\u00e7as que temos \u00e0 porta? Haver\u00e1 algum incentivo para ir ao servi\u00e7o?<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" title=\"Huambo_20090205-180947-S12-76404_E015-74655_73\" style=\"border-right: 0px; border-top: 0px; display: inline; border-left: 0px; border-bottom: 0px\" height=\"400\" alt=\"Huambo_20090205-180947-S12-76404_E015-74655_73\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2009\/04\/huambo-20090205180947s1276404-e01574655-73.jpg\" width=\"600\" border=\"0\" \/>    <br \/>Mal pagos<\/p>\n<p> Se a casa n\u00e3o estiver em condi\u00e7\u00f5es, o problema \u00e9 do inquilino. Se quer \u00e1gua na casa-de-banho e o cano est\u00e1 roto, que trate de o arranjar. Quando vagar a casa, a bemfeitoria j\u00e1 est\u00e1 feita e o senhorio pode at\u00e9 cobrar uma renda mais elevada.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" title=\"blog_Mar09_09\" style=\"border-right: 0px; border-top: 0px; display: inline; border-left: 0px; border-bottom: 0px\" height=\"600\" alt=\"blog_Mar09_09\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2009\/04\/blog-mar09-09.jpg\" width=\"400\" border=\"0\" \/>    <br \/>Quer ir de elevador, arranje-o!<\/p>\n<p>Um grande monte de notas nas m\u00e3os de quem n\u00e3o est\u00e1 habituado e ver muito dinheiro pode deslumbrar. Se antes de arrendar a casa era preciso contar os tost\u00f5es porque a vida n\u00e3o era f\u00e1cil, depois de mudar para uma casa de chapa na periferia, a vida volta ao que era, mas agora sem dinheiro para a comida e, especialmente, a gasolina do Land Cruiser novo. No ano seguinte vir\u00e1 mais dinheiro\u2026<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" title=\"IMG_3024\" style=\"border-right: 0px; border-top: 0px; display: inline; border-left: 0px; border-bottom: 0px\" height=\"400\" alt=\"IMG_3024\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2009\/04\/img-3024.jpg\" width=\"600\" border=\"0\" \/>    <br \/>O Land Cruiser est\u00e1 na garagem<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Os estrangeiros que v\u00eam trabalhar para Angola, geralmente para desempenhar fun\u00e7\u00f5es para as quais ainda n\u00e3o h\u00e1 angolanos suficientes, mas n\u00e3o s\u00f3, que j\u00e1 vi chineses a varrer ruas de Luanda, deparam-se com uma realidade muito para l\u00e1 do que alguma vez tenham imaginado. Todos eles sabiam que o ritmo do trabalho \u00e9 diferente. 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