{"id":2419,"date":"2009-05-03T00:00:00","date_gmt":"2009-05-02T23:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/?p=2419"},"modified":"2009-07-25T12:52:43","modified_gmt":"2009-07-25T11:52:43","slug":"hora-da-sesta","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/hora-da-sesta\/","title":{"rendered":"Hora da sesta"},"content":{"rendered":"<p>Morar com vista para uma das art\u00e9rias mais movimentadas de Luanda n\u00e3o \u00e9 sorte que inveje a ningu\u00e9m. \u00c9 muito bonito ver os carros parados debaixo da janela, com os rapazes a zungar desodorizantes e pilhas e as mulheres a gritar \u00ab<em>Quem quer Carapau \u00ea?<\/em>\u00bb.<\/p>\n<p> S\u00f3 que, passada a hora de ponta, quem quer atravessar a cidade para ir para a farra, l\u00e1 na Ilha ou noutros s\u00edtios onde fazem farras, tem de passar aqui. E nunca passam devagar. At\u00e9 mesmo os pesados, proibidos de circular nesta parte da cidade, fazem de conta que o escuro da noite esconde o sinal \u00e0 entrada da rua e d\u00e3o uma corridinha at\u00e9 \u00e0 marginal, com as caixas de carga a bater a cada solavanco. A recolha do lixo tamb\u00e9m \u00e9 feita depois da meia-noite, o que ajuda a manter a falta de sono em dia.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" title=\"dondo12\" style=\"border-right: 0px; border-top: 0px; display: inline; border-left: 0px; border-bottom: 0px\" height=\"400\" alt=\"dondo12\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2009\/04\/dondo12.jpg\" width=\"600\" border=\"0\" \/>    <br \/>Este primeiro andar \u00e9 um Calv\u00e1rio!<\/p>\n<p>L\u00e1 mais para a noitinha, especialmente ao fim-de-semana, gente animada p\u00e1ra os carros na rua e abre as portas para que todos possam ouvir a m\u00fasica que insistem em partilhar com os moradores. Se n\u00e3o s\u00e3o estes, s\u00e3o as corridas \u00e0 volta do quarteir\u00e3o com a mota de escape livre. Felizmente que os alarmes que disparavam com barulhos altos j\u00e1 avariaram todos. Ou ent\u00e3o deixei de os ouvir.<\/p>\n<p>De manh\u00e3, com toda a gente afogueada para chegar ao trabalho, o coro de buzinas quase faz lembrar as cigarras. Tamb\u00e9m \u00e9 dif\u00edcil dormir debaixo de uma \u00e1rvore que tenha cigarras\u2026<\/p>\n<p>Como as noites n\u00e3o s\u00e3o muito repousantes, habituei-me a uma pequena sesta ao final do dia. Come\u00e7ou por ser uma necessidade, mas agora \u00e9 parte da rotina. Aproveito o \u00fanico per\u00edodo verdadeiramente descansado, das cinco, quando chego a casa, \u00e0s oito, quando come\u00e7am a chegar os primeiros carros com m\u00fasica alta.<\/p>\n<p>N\u00e3o sei porqu\u00ea, mas o cansa\u00e7o dos condutores torna-os um pouco mais tolerantes com os demais e as buzinas soam menos.<\/p>\n<p>Em Fran\u00e7a, o per\u00edodo das cinco \u00e0s sete \u00e9 conhecido como a hora dos amantes. Para mim, em Angola, \u00e9 apenas a hora da sesta.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Morar com vista para uma das art\u00e9rias mais movimentadas de Luanda n\u00e3o \u00e9 sorte que inveje a ningu\u00e9m. \u00c9 muito bonito ver os carros parados debaixo da janela, com os rapazes a zungar desodorizantes e pilhas e as mulheres a gritar \u00abQuem quer Carapau \u00ea?\u00bb. 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