{"id":2437,"date":"2009-05-09T00:00:00","date_gmt":"2009-05-08T23:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/?p=2437"},"modified":"2009-07-18T13:25:00","modified_gmt":"2009-07-18T12:25:00","slug":"mordaa-do-futuro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/mordaa-do-futuro\/","title":{"rendered":"Morda\u00e7a do Futuro"},"content":{"rendered":"<p>A Hist\u00f3ria das cidades n\u00e3o est\u00e1 nos monumentos erigidos pelos v\u00e1rios regimes nem nas torres de vidro das empresas ou nos neg\u00f3cios que mudam de nome todas as semanas. Est\u00e1 nas paredes das casas que absorveram um pouco das pessoas que l\u00e1 viveram. Est\u00e1 nas lojas que, muito depois de terem desaparecido, ainda d\u00e3o nomes \u00e0s ruas. Est\u00e1 nos largos e pra\u00e7as que surgiram naturalmente, sem projecto definido.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" title=\"paredes_4\" style=\"border-top-width: 0px; display: inline; border-left-width: 0px; border-bottom-width: 0px; border-right-width: 0px\" height=\"400\" alt=\"paredes_4\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2009\/04\/paredes-4.jpg\" width=\"600\" border=\"0\" \/>     <br \/>Peda\u00e7o de Hist\u00f3ria<\/p>\n<p>Luanda n\u00e3o \u00e9 diferente das demais cidades do mundo. A sua Hist\u00f3ria vive escondida nas grossas paredes de alvenaria de pedra que agora se derrubam, dando lugar a uma qualquer constru\u00e7\u00e3o desproporcionada e desenquadrada. Num pequeno passeio conseguimos ter uns relances de \u00e9pocas distintas, quer seja no desenho de uma janela, no que resta de um letreiro ou num degrau muito gasto.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" title=\"paredes_3\" style=\"border-top-width: 0px; display: inline; border-left-width: 0px; border-bottom-width: 0px; border-right-width: 0px\" height=\"400\" alt=\"paredes_3\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2009\/04\/paredes-3.jpg\" width=\"600\" border=\"0\" \/>     <br \/>Mem\u00f3ria da cidade<\/p>\n<p>Ao fim de algum tempo, come\u00e7amos a desconfiar que poderemos ser as \u00faltimas testemunhas destas marcas da Hist\u00f3ria de Luanda, que v\u00e3o desaparecendo a um ritmo surpreendente, atropeladas por m\u00e1quinas de rastos e afogadas em bet\u00e3o. Desconfiamos tamb\u00e9m que somos os \u00fanicos a preocupar-se com isso. Se a maioria dos angolanos nem pensa duas vezes no que acontece \u00e0 sua Mem\u00f3ria colectiva, porque haver\u00e1 de ser um estrangeiro, sem nenhuma liga\u00e7\u00e3o especial a esta terra, a sentir-se angustiado?<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" title=\"paredes_2\" style=\"border-top-width: 0px; display: inline; border-left-width: 0px; border-bottom-width: 0px; border-right-width: 0px\" height=\"400\" alt=\"paredes_2\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2009\/04\/paredes-2.jpg\" width=\"600\" border=\"0\" \/>     <br \/>Marca do passado<\/p>\n<p>Algumas semanas sem passar em determinada rua e quase acreditamos que nos engan\u00e1mos. Temos de escolher novos pontos de refer\u00eancia, que os antigos s\u00e3o agora lotes vazios.<\/p>\n<p> <img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" title=\"paredes_1\" style=\"border-top-width: 0px; display: inline; border-left-width: 0px; border-bottom-width: 0px; border-right-width: 0px\" height=\"400\" alt=\"paredes_1\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2009\/04\/paredes-1.jpg\" width=\"600\" border=\"0\" \/>   <br \/>Aqui nascer\u00e1 uma torre     <\/p>\n<p>N\u00e3o se trata de saudosismo do tempo colonial, at\u00e9 porque nasci depois da independ\u00eancia angolana e Fran\u00e7a absorveu quase todos os emigrantes da fam\u00edlia. Trata-se mais de incredulidade ao ver s\u00e9culos da Hist\u00f3ria de um pa\u00eds serem arrasados porque algu\u00e9m viu lucro f\u00e1cil. Ver o que acontece ao centro de Luanda faz-me compreender o que aconteceu a Queluz, onde cresci.<\/p>\n<p>Queluz era uma pacata povoa\u00e7\u00e3o, com algumas centenas de <em>villas<\/em> espalhadas de forma harmoniosa em frente ao Pal\u00e1cio. A dada altura, entendeu-se que se devia fazer de Queluz uma terra moderna, com edif\u00edcios altos. O lucro f\u00e1cil fez arrasar as pequenas vivendas e construir caixotes todos iguais at\u00e9 ao limite do terreno. Parou-se quando Queluz desapareceu. Tornou-se uma terra feia, com ruas demasiado estreitas e desagrad\u00e1veis. Hoje em dia resta meia-d\u00fazia de casas da Queluz antiga, quase todas em ru\u00edna. O resto da cidade \u00e9 incaracter\u00edstico, sem Mem\u00f3ria, sem identidade. Luanda segue-lhe as pisadas.<\/p>\n<p>Quase julgamos que progresso \u00e9 sin\u00f3nimo de esquecimento. Resignamo-mos ao ver paredes cheias de segredos desfazer-se em p\u00f3. Procuramos n\u00e3o pensar nas hist\u00f3rias que contariam, se falassem. Parece que o Futuro procura amorda\u00e7ar, a todo o custo e \u00e0 for\u00e7a de escavadora e martelo pneum\u00e1tico, as hist\u00f3rias do Passado. Vergonha, talvez?<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A Hist\u00f3ria das cidades n\u00e3o est\u00e1 nos monumentos erigidos pelos v\u00e1rios regimes nem nas torres de vidro das empresas ou nos neg\u00f3cios que mudam de nome todas as semanas. Est\u00e1 nas paredes das casas que absorveram um pouco das pessoas que l\u00e1 viveram. 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