{"id":2463,"date":"2009-05-16T00:00:00","date_gmt":"2009-05-15T23:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/?p=2463"},"modified":"2009-09-18T21:59:46","modified_gmt":"2009-09-18T20:59:46","slug":"a-guerra-das-zungueiras","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/a-guerra-das-zungueiras\/","title":{"rendered":"A guerra das zungueiras"},"content":{"rendered":"<p>N\u00e3o percebo bem as pol\u00edticas micro-econ\u00f3micas de Angola. Por um lado, o Estado queixa-se que as trocas informais t\u00eam um peso demasiado grande na economia do pa\u00eds. N\u00e3o fossem o petr\u00f3leo e os diamantes, a mossa seria bem maior.<\/p>\n<p>Na verdade, apesar de tanta preocupa\u00e7\u00e3o oficial, ningu\u00e9m liga ao que as <em>zungueiras<\/em> vendem ou deixam de vender. \u00c9 certo que se publicam regulamentos estipulando isto e aquilo, mas s\u00f3 s\u00e3o aplicados de vez em quando, quase sempre justificados pelas necessidade de alguns fiscais colmatarem os seus rendimentos pessoais.<\/p>\n<p>Curioso, curioso \u00e9 que, por um lado, tenta-se combater os lavadores de carros selvagens, mas, ao abrigo dos programas de fomento do auto-emprego, s\u00e3o distribu\u00eddos carrinhos para lavar carros. Continua a ser proibido lavar o carro na rua. Continua a ser economia informal, mas o carrinho indica que \u00e9 um profissional do ramo. A pol\u00edcia fecha os olhos. A s\u00e9rio que n\u00e3o percebo.<\/p>\n<p>Os rapazes que vendem gasosas e garrafas de \u00e1gua de dentro de um saco de pl\u00e1stico fundo, cheio de gelo, est\u00e3o sempre de olho nos pol\u00edcias, n\u00e3o v\u00e3o eles come\u00e7ar a confiscar a mercadoria. Ao seu lado, outros rapazes empurram um carrinho em forma de lata de refrigerante, cheio de gasosas e \u00e1guas. Vendem o mesmo produto, ao mesmo pre\u00e7o e nas mesmas condi\u00e7\u00f5es. A pol\u00edcia incomoda-os menos. A s\u00e9rio que n\u00e3o percebo.<\/p>\n<p>As <em>zungueiras<\/em> percorrem Luanda com a loja \u00e0 cabe\u00e7a, juntando-se nas encruzilhadas mais importantes, os verdadeiros centros comerciais da cidade. Enquanto vendem, espreitam por cima do ombro, n\u00e3o venha l\u00e1 um <em>comb\u00f3io<\/em>, com pol\u00edcias de bast\u00e3o em punho, multando e confiscando. Ao m\u00ednimo sinal de confus\u00e3o, os alguidares sobem \u00e0 cabe\u00e7a e a loja ganha, literalmente, pernas.<\/p>\n<p>L\u00e1 para os lados do S\u00e3o Paulo, verdadeiro centro econ\u00f3mico da cidade, no meio do p\u00f3 e dos montes de terra das obras, o Ver\u00e3o trouxe tamb\u00e9m lama, muita lama. Lama fina, escorregadia e peganhenta, que suja tudo e n\u00e3o h\u00e1 maneira de sair da roupa e da pele. Nas poucas zonas secas ou menos h\u00famidas, as zungueiras amontoam-se, deixando pouco espa\u00e7o para as mercadorias e para os clientes passarem. Quando v\u00eam os fiscais, n\u00e3o h\u00e1 maneira de sair depressa. As <em>zungueiras<\/em> viram-se encurraladas e a pol\u00edcia aproveitou esta desvantagem, tornando mais frequentes as opera\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Desconfio fortemente que algumas mulheres andaram a ler a Arte da Guerra. Fizeram das suas fraquezas for\u00e7as e usaram o terreno para vencer o advers\u00e1rio. Ao primeiro sinal de p\u00e2nico causado pelo <em>comb\u00f3io<\/em>, enfiam os p\u00e9s em sacos de pl\u00e1stico que amarram \u00e0s pernas, colocam o alguidar \u00e0 cabe\u00e7a e entram, confiantes, no lama\u00e7al. Avan\u00e7am alguns metros em equil\u00edbrio prec\u00e1rio, afundando um pouco a cada passo, at\u00e9 terem lama pelos joelhos.<\/p>\n<p>Ficam a salvo dos pol\u00edcias, que n\u00e3o querem sujar a farda. Atiram lama e pedras aos que tentam alcan\u00e7ar uma mulher mais pr\u00f3xima da zona seca. Gera-se um impasse ruidoso, com gritos e insultos de parte a parte. Os pol\u00edcias amea\u00e7am bater, elas acusam-nos de hipocrisia porque as suas esposas tamb\u00e9m <em>zungam<\/em>.<\/p>\n<p>A situa\u00e7\u00e3o andou muito tensa durante umas semanas. Um pol\u00edcia, frustrado com a guerra da lama, desferiu uma bastonada na nuca de uma mulher e matou-a. Ficou estendida na lama, com o filho \u00e0s costas e o alguidar tombado. Parece que os \u00e2nimos acalmaram um pouco, porque deixou de se ouvir falar de rusgas para aqueles lados.<\/p>\n<p>Que estranho pa\u00eds \u00e9 este, onde se paga com a vida pelo crime de fuga ao fisco ou ofensa \u00e0 autoridade\u2026<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>N\u00e3o percebo bem as pol\u00edticas micro-econ\u00f3micas de Angola. Por um lado, o Estado queixa-se que as trocas informais t\u00eam um peso demasiado grande na economia do pa\u00eds. N\u00e3o fossem o petr\u00f3leo e os diamantes, a mossa seria bem maior. 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