{"id":2477,"date":"2009-05-19T00:00:00","date_gmt":"2009-05-18T23:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/?p=2477"},"modified":"2009-07-25T12:52:28","modified_gmt":"2009-07-25T11:52:28","slug":"dia-no","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/dia-no\/","title":{"rendered":"Dia-n\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p>H\u00e1 dias que n\u00e3o deviam existir. Come\u00e7am mal e n\u00e3o se endireitam nem por nada. Ficamos com a sensa\u00e7\u00e3o de que desperdi\u00e7\u00e1mos uma d\u00e1diva.<\/p>\n<p>Tudo come\u00e7a com a festa no terra\u00e7o de um dos pr\u00e9dios da vizinhan\u00e7a. Aqui, as festas s\u00f3 est\u00e3o completas quando h\u00e1 muitas colunas grandes e amplificadores monstruosos a vomitar batuques a volumes desumanos. Acreditamos convictamente que algu\u00e9m anda a experimentar t\u00e9cnicas de demoli\u00e7\u00e3o por press\u00e3o sonora.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" style=\"border-bottom: 0px; border-left: 0px; display: inline; border-top: 0px; border-right: 0px\" title=\"festa\" border=\"0\" alt=\"festa\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2009\/05\/festa.jpg\" width=\"600\" height=\"400\" \/>    <br \/>Animou festas de outros tempos<\/p>\n<p>As vidra\u00e7as tremem, os copos dan\u00e7am na mesa e os espelhos reflectem n\u00e3o s\u00f3 a luz, mas tamb\u00e9m o som que vem l\u00e1 de longe. Pum, pum, pum.<\/p>\n<p>As horas passam e a m\u00fasica vai variando de ritmo, mas as pancadas continuam. Adivinhamos o zumbido nos ouvidos dos que est\u00e3o na festa, mas percebemos que esta \u00e9 uma m\u00fasica t\u00e1ctil, que deve ser sentida no esqueleto e nas carnes. As orelhas servem para segurar os \u00f3culos de sol que, mesmo de noite, s\u00e3o fundamentais.<\/p>\n<p>Do outro lado da casa, onde est\u00e1 o quarto, o som n\u00e3o chega directamente. H\u00e1, pelo menos, tr\u00eas planos onde \u00e9 reflectido em direc\u00e7\u00e3o \u00e0 cama. As pancadas secas sentidas na cozinha s\u00e3o agora empurr\u00f5es arrastados e distorcidos que massam os ouvidos e o corpo.<\/p>\n<p>O fim da noite aproxima-se, mas a m\u00fasica continua. Quatro da manh\u00e3 e ainda n\u00e3o h\u00e1 sinais de que a festa esteja parar acabar. As pequenas pausas entre as m\u00fasicas fazem a press\u00e3o nos ouvidos desaparecer, como se algu\u00e9m nos tirasse um dedo da orelha. Mas logo a seguir regressa. L\u00e1 para as cinco da manh\u00e3 acaba. Sil\u00eancio, finalmente.<\/p>\n<p>Adormecemos para, cinco minutos depois, passar a primeira mota barulhenta. Muito gostam estes gajos de andar a dar aceleradelas in\u00fateis!<\/p>\n<p>Os planos feitos de v\u00e9spera de acordar cedo s\u00e3o cancelados com voz entaramelada. Em vez das sete, partimos \u00e0s dez. Ainda falta abastecer o carro, mas faz\u00eamo-lo pelo caminho.<\/p>\n<p>A estrada para Viana continua em obras. Os condutores insistem em formar cinco filas onde s\u00f3 passa uma. V\u00e3o-se espremendo a toques de embraiagem, tentando n\u00e3o cair nos buracos mais fundos que decoram a estrada. Buzinadelas e acelera\u00e7\u00f5es furiosas com o carro desengatado.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" style=\"border-bottom: 0px; border-left: 0px; display: inline; border-top: 0px; border-right: 0px\" title=\"IMG_3524\" border=\"0\" alt=\"IMG_3524\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2009\/05\/img-3524.jpg\" width=\"600\" height=\"400\" \/>    <br \/>Contorna buraco, mergulha na lama<\/p>\n<p>Duas horas depois, chega-se a Viana, a doze quil\u00f3metros. Filas demasiado grandes nas bombas at\u00e9 l\u00e1. A \u00faltima hip\u00f3tese, a caminho de Catete, j\u00e1 n\u00e3o tem gasolina. A luz da reserva acendeu e n\u00e3o vale a pena arriscar ir at\u00e9 Catete e descobrir que tamb\u00e9m est\u00e3o a seco. O dia est\u00e1 perdido. Regressamos \u00e0 capital. Perdemos tr\u00eas quartos de hora para abastecer numa bomba menos concorrida perto do Palanca.<\/p>\n<p>Entramos em casa derrotados. A viagem de lavar a alma e esquecer Luanda por umas horas, revelou-se um banho no que h\u00e1 de pior da cidade: tr\u00e2nsito, tr\u00e2nsito, tr\u00e2nsito!<\/p>\n<p>A seguir choveu\u2026<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" style=\"border-bottom: 0px; border-left: 0px; display: inline; border-top: 0px; border-right: 0px\" title=\"IMG_3916\" border=\"0\" alt=\"IMG_3916\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2009\/05\/img-3916.jpg\" width=\"600\" height=\"400\" \/>    <br \/>Luanda debaixo de chuva<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 dias que n\u00e3o deviam existir. Come\u00e7am mal e n\u00e3o se endireitam nem por nada. Ficamos com a sensa\u00e7\u00e3o de que desperdi\u00e7\u00e1mos uma d\u00e1diva. Tudo come\u00e7a com a festa no terra\u00e7o de um dos pr\u00e9dios da vizinhan\u00e7a. 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