{"id":2478,"date":"2009-06-01T00:00:00","date_gmt":"2009-05-31T23:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/?p=2478"},"modified":"2009-07-16T22:51:29","modified_gmt":"2009-07-16T21:51:29","slug":"o-abrao-das-zungueiras","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/o-abrao-das-zungueiras\/","title":{"rendered":"O abra\u00e7o das zungueiras"},"content":{"rendered":"<p>Nos dias que se seguem \u00e0s chuvadas ou nas ruas onde os esgotos correm a c\u00e9u aberto, as pessoas enfrentam um labirinto de lama escura sempre que saem de casa.<\/p>\n<p>Fora das art\u00e9rias principais, onde n\u00e3o h\u00e1 passeios e asfalto \u00e9 um sonho distante, abrem-se covas fundas, ocupando toda a largura da rua, cheias de \u00e1gua e lama, com muito lixo \u00e0 mistura. Os condutores afundam devagarinho as suas jantes cromadas na lama, temendo encontrar um buraco mais profundo ou um qualquer obst\u00e1culo escondido. V\u00e3o subindo e descendo, num carrossel lento at\u00e9 \u00e0 esquina seguinte. Cada um presta aten\u00e7\u00e3o ao carro da frente ou socorre-se da mem\u00f3ria dos dias secos para adivinhar onde deve apontar. Na rua seguinte ser\u00e1 igual.<\/p>\n<p>Por vezes, a mem\u00f3ria falha ou o risco foi mal calculado. O carro atola ou cai num buraco demasiado fundo. Costuma acontecer aos candongueiros\u2026<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" style=\"border-bottom: 0px; border-left: 0px; display: inline; border-top: 0px; border-right: 0px\" title=\"lama\" border=\"0\" alt=\"lama\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2009\/05\/lama.jpg\" width=\"600\" height=\"400\" \/>    <br \/>Arriscou demasiado<\/p>\n<p>Os pe\u00f5es circulam junto aos muros, onde a rua \u00e9 um pouco mais alta. Fazem sinais aos carros para circular mais devagar e n\u00e3o atirar \u00e1gua para todo o lado. De chinelos de enfiar no dedo ou sapatinhos rasos, saltitam de um lado para o outro, por vezes de pedra em pedra. Nos locais mais apertados, os muros servem de corrim\u00e3o e os postes para descansar.<\/p>\n<p>Uma coisa impressionante \u00e9 que, no meio de tanta lama, poucas s\u00e3o as pessoas que t\u00eam a roupa suja. Mesmo quem anda com as bainhas a ro\u00e7ar o tac\u00e3o do sapato, consegue t\u00ea-las imaculadas. Tenho de aprender a t\u00e9cnica.<\/p>\n<p>Estes passeios improvisados, que contornam as po\u00e7as fundas, costumam ser estreitos. Quase sempre passa s\u00f3 uma pessoa e os cruzamentos s\u00e3o feitos \u00e0 vez, nos locais mais largos. Os mais complicados s\u00e3o os das zungueiras, que andam com a carga \u00e0 cabe\u00e7a, espreitando onde pisam sem inclinar o pesco\u00e7o. Pousar o alguidar est\u00e1 fora de quest\u00e3o e n\u00e3o h\u00e1 espa\u00e7o para passarem duas. A solu\u00e7\u00e3o, como seria de esperar de gente t\u00e3o desenrascada, \u00e9 engenhosa. Avan\u00e7am at\u00e9 estarem frente-a-frente e depois, num semi-abra\u00e7o, equilibram-se mutuamente enquanto inclinam o corpo para tr\u00e1s e trocam de posi\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Assisto a esta cena e quase adivinho, pelo sorriso de ambas, que o abra\u00e7o tamb\u00e9m foi agradecimento\u2026<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nos dias que se seguem \u00e0s chuvadas ou nas ruas onde os esgotos correm a c\u00e9u aberto, as pessoas enfrentam um labirinto de lama escura sempre que saem de casa. 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