{"id":2510,"date":"2009-06-04T00:00:00","date_gmt":"2009-06-03T23:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/?p=2510"},"modified":"2009-07-16T23:23:06","modified_gmt":"2009-07-16T22:23:06","slug":"histria-a-la-carte","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/histria-a-la-carte\/","title":{"rendered":"Escrevendo a Hist\u00f3ria"},"content":{"rendered":"<p>Cada povo escreve a Hist\u00f3ria que mais lhe agrada. \u00c9 o seu direito. Os angolanos tentam escrever a sua, embora ainda se notem tra\u00e7os hesitantes nesta aventura de criar uma identidade nacional nova.<\/p>\n<p>Uma hesita\u00e7\u00e3o famosa \u00e9 a figura do Rei Katyavala, muito importante por raz\u00f5es que ningu\u00e9m sabe explicar bem porqu\u00ea, que viveu n\u00e3o se sabe quando nem onde. Dizem que \u00e9 fundamental estudar mais esta figura para que as pessoas saibam porque \u00e9 t\u00e3o famoso. Um molho de br\u00f3culos, portanto.<\/p>\n<p>Outro trope\u00e7\u00e3o encontra-se em Massangano, povoa\u00e7\u00e3o que cresceu numa das muitas curvas do Kwanza. Nos seus tempos \u00e1ureos, chegou at\u00e9 a ter um tribunal. Sede de concelho at\u00e9 que perdeu a sua import\u00e2ncia estrat\u00e9gica e foi abandonada em prol do Dondo.<\/p>\n<p>As ru\u00ednas do edif\u00edcio da C\u00e2mara Municipal, do Forte e do Tribunal tinham sido declarados monumentos nacionais ainda no tempo colonial, j\u00e1 que mais n\u00e3o fosse porque os portugueses tamb\u00e9m queriam escrever a Hist\u00f3ria de Angola.<\/p>\n<p>Recentemente, para completar a informa\u00e7\u00e3o de algumas l\u00e1pides, instalaram-se uns letreiros de chapa negra, com letras brancas pintadas \u00e0 m\u00e3o. Nalguns casos fica um pouco rid\u00edculo ter a l\u00e1pide e o letreiro tosco lado a lado, mas todos os monumentos est\u00e3o identificados.<\/p>\n<p>H\u00e1, no entanto, algumas incongru\u00eancias. A l\u00e1pide do forte diz que foi constru\u00eddo em 1604, mas o letreiro afirma que \u00e9 do s\u00e9c. XVI. Curiosamente, ambos est\u00e3o correctos. Houve uma fortifica\u00e7\u00e3o anterior, provavelmente constru\u00edda com muros de terra e estacas de madeira, que se julga datar de 1583.<\/p>\n<p>A Igreja de Nossa Senhora da Vit\u00f3ria, julgo eu, foi constru\u00edda para comemorar a vit\u00f3ria sobre os holandeses, em meados do s\u00e9c. XVII. Um dos aliados mais famosos dos portugueses de ent\u00e3o foi a Rainha Ginga. A igreja \u00e9 quase igual \u00e0 da Muxima, embora esteja muito mais degradada. Toda a gente vai e conhece a Muxima. Massangano est\u00e1 perdida no meio do nada. A igreja tamb\u00e9m tem direito a placa identificativa onde, uma vez mais, nos dizem que foi constru\u00edda no s\u00e9c. XVI. A confian\u00e7a na vit\u00f3ria era tanta, que se jogou por antecipa\u00e7\u00e3o. Comemorou-se a derrota dos holandeses antes mesmo destes terem chegado.<\/p>\n<p>No adro da igreja est\u00e1 um t\u00famulo solit\u00e1rio e an\u00f3nimo. Poderia ser confundido com um cruzeiro, mas a placa nova indica claramente tratar-se do t\u00famulo de Paulo Dias de Novais, que veio a Angola \u00e0 procura das minas de prata de Cambambe e acabou por fundar Luanda, tendo morrido aqui, em 1589.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" style=\"border-bottom: 0px; border-left: 0px; display: inline; border-top: 0px; border-right: 0px\" title=\"paulodiasnovaes\" border=\"0\" alt=\"paulodiasnovaes\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2009\/05\/paulodiasnovaes.jpg\" width=\"400\" height=\"600\" \/><\/p>\n<p>Tal como na Muxima, em 1960 ergueu-se uma cruz de bet\u00e3o comemorativa do quarto centen\u00e1rio do fundador de Luanda, homenageando Paulo Dias de Novais, neto de Bartolomeu Dias e nascido, provavelmente, em 1510. A da Muxima fica encostada \u00e0 muralha do forte, mas a de Massangano foi constru\u00edda num miradouro perto da igreja.<\/p>\n<p>Este miradouro fica no ponto mais alto da povoa\u00e7\u00e3o, num cabe\u00e7o sobranceiro ao Kwanza e \u00e0 foz do Lucala, de onde se pode avistar uma paisagem magn\u00edfica. \u00c9 um pequeno espa\u00e7o empedrado com cerca de cinquenta metros quadrados, rodeado por um muro baixo onde nos podemos sentar. Tem uma d\u00fazia de degraus largos a lig\u00e1-lo ao caminho para o centro da povoa\u00e7\u00e3o. Um miradouro t\u00edpico, no fundo. A \u00fanica coisa que o distingue \u00e9 o monumento ao centro.<\/p>\n<p>Mas \u00e9 uma constru\u00e7\u00e3o de pedra e, como tal, merecia um letreiro de chapa explicativo. Ficamos a saber que se trata de uma constru\u00e7\u00e3o do s\u00e9c. XVI, tal como as outras. Tem um aspecto bem mais recente, mas confiamos na placa.<\/p>\n<p>Na falta de justifica\u00e7\u00e3o para aquela constru\u00e7\u00e3o em t\u00e3o remota \u00e9poca, escolheu-se o mais simples: Pra\u00e7a de Escravos!<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" style=\"border-bottom: 0px; border-left: 0px; display: inline; border-top: 0px; border-right: 0px\" title=\"massangano-praca de escravos\" border=\"0\" alt=\"massangano-praca de escravos\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2009\/05\/massanganopracadeescravos.jpg\" width=\"600\" height=\"400\" \/>    <br \/>Miradouro da Pra\u00e7a de Escravos<\/p>\n<p>\u00c9 certo que se trocaram escravos em Massangano. At\u00e9 \u00e0 aboli\u00e7\u00e3o da escravatura, era um neg\u00f3cio como qualquer outro e nele participavam os brancos, que compravam e os negros, que forneciam outros negros menos afortunados. Duvido muito \u00e9 que fosse neste local que se fizesse o neg\u00f3cio. Afinal de contas, era pelo rio que se transportava tudo. Que sentido faria montar o mercado no local mais alto? N\u00e3o se negociaria melhor junto ao ancoradouro, ou em frente \u00e0 C\u00e2mara Municipal?<\/p>\n<p>Bom, esque\u00e7amos este pormenor e entremos no jogo. Quer tenha existido uma pra\u00e7a de escravos ou n\u00e3o, muitos foram aqui comprados. No s\u00e9c. XVII (o XVI, segundo as placas de Massangano), a principal aliada militar e comercial dos portugueses foi a Rainha Ginga. Se, no plano militar, combateu os holandeses, no plano comercial, vendeu escravos a ambos. Mas isso n\u00e3o se costuma dizer em voz alta, porque toda a gente sabe que escravid\u00e3o \u00e9 s\u00f3 de branco contra negro.<\/p>\n<p>\u00c9 preciso ignorar estes pecadilhos e louvar o facto de estarem a tentar preservar a Hist\u00f3ria. Ao contr\u00e1rio de Luanda, onde se deita tudo abaixo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Cada povo escreve a Hist\u00f3ria que mais lhe agrada. \u00c9 o seu direito. Os angolanos tentam escrever a sua, embora ainda se notem tra\u00e7os hesitantes nesta aventura de criar uma identidade nacional nova. 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