{"id":2517,"date":"2009-05-30T00:00:00","date_gmt":"2009-05-29T23:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/?p=2517"},"modified":"2009-09-19T14:58:25","modified_gmt":"2009-09-19T13:58:25","slug":"maria-teresa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/maria-teresa\/","title":{"rendered":"Maria Teresa"},"content":{"rendered":"<p>A caminho do Dondo, um pouco antes do controlo que marca a entrada no Kwanza Norte, h\u00e1 uma pequena povoa\u00e7\u00e3o que tem quase tantos restaurantes como habitantes.<\/p>\n<p>No tempo em que as terras eram chamadas pelo nome de um dos seus habitantes, esta chamou-se Maria Teresa. Foi este o nome que ficou quando os colonos portugueses resolveram oficializar os nomes das terras nos mapas. Podia ter sido pior. Podia ter ficado com nome de <a href=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/?p=2019\" target=\"_blank\">quil\u00f3metro<\/a>.<\/p>\n<p>Estas povoa\u00e7\u00f5es com aspecto de esplanadas t\u00edpicas, com grelhadores \u00e0 porta, tectos de capim ou chapa e cadeiras de pl\u00e1stico encontram-se ao longo das vias principais. As maiores, tenho reparado, repetem-se a cada centena de quil\u00f3metros, como se fosse esse o ritmo a que os est\u00f4magos se queixam. Durante anos deve ter havido uma subtil adapta\u00e7\u00e3o entre a oferta e a procura, que acabou por marcar o decl\u00ednio de umas e ascens\u00e3o de outras terras.<\/p>\n<p>Isso n\u00e3o quer dizer que se tenha de passar fome no entretanto. Ao longo da estrada, as lavradoras e alguns rapazes mais novos montam pequenos fogareiros onde v\u00e3o assando milho. Depois ficam de p\u00e9 na berma da estrada, acenando com duas ou tr\u00eas ma\u00e7arocas na m\u00e3o.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" style=\"border-right-width: 0px; display: inline; border-top-width: 0px; border-bottom-width: 0px; border-left-width: 0px\" title=\"IMG_3949\" border=\"0\" alt=\"IMG_3949\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2009\/05\/img-3949.jpg\" width=\"600\" height=\"400\" \/>    <br \/>50 Kz de ma\u00e7aroca assada<\/p>\n<p>Em vez de ma\u00e7arocas, h\u00e1 quem venda fruta, m\u00facuas, peixe, galinhas ou uma s\u00e9rie de pequenos animais que teve o azar de se cruzar com um ca\u00e7ador. A fruta \u00e9 exposta numa pequena banca improvisada e os animais, invariavelmente, est\u00e3o na ponta de um bra\u00e7o esticado.<\/p>\n<p>A viagem at\u00e9 \u00e0 Maria Teresa \u00e9 feita sempre na estrada que liga Luanda ao Huambo, que est\u00e1 em boas condi\u00e7\u00f5es. Um pouco depois, e at\u00e9 ao Dondo, os chineses lutam para renovar a estrada, at\u00e9 agora sem grande sucesso. O que precisamos, a todo o momento, \u00e9 de uma d\u00fazia de olhos extra. As regras habituais de tr\u00e2nsito n\u00e3o se aplicam na maioria das estradas angolanas. H\u00e1 alturas em que damos por n\u00f3s, com toda a naturalidade, a circular pela esquerda para, umas centenas de metros \u00e0 frente, nos cruzarmos com os que v\u00eam em sentido contr\u00e1rio, tentando imitar o bailado dos pol\u00edcias com as motas nas paradas militares. A viagem nunca \u00e9 mon\u00f3tona.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" style=\"border-right-width: 0px; display: inline; border-top-width: 0px; border-bottom-width: 0px; border-left-width: 0px\" title=\"IMG_4198\" border=\"0\" alt=\"IMG_4198\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2009\/05\/img-4198.jpg\" width=\"600\" height=\"400\" \/>    <br \/>Vamos bem ou vamos mal?<\/p>\n<p>A chegada n\u00e3o \u00e9 nada de especial. Na berma norte da estrada h\u00e1 um terreiro com umas po\u00e7as de \u00e1gua escura e lixo. A poeira fina que cobre as partes secas faz adivinhar um lama\u00e7al de categoria nos dias a seguir \u00e0s chuvas. Do outro lado do terreiro, panelas assentes nas brasas feitas logo pela manh\u00e3 v\u00e3o fervendo e contando hist\u00f3rias umas \u00e0s outras com as tampas a saltitar em morse.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" style=\"border-right-width: 0px; display: inline; border-top-width: 0px; border-bottom-width: 0px; border-left-width: 0px\" title=\"IMG_3977\" border=\"0\" alt=\"IMG_3977\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2009\/05\/img-3977.jpg\" width=\"600\" height=\"400\" \/>    <br \/>A cozinha<\/p>\n<p>As panelas servem de mostru\u00e1rio. Uma delas cont\u00e9m, como sempre, uma massa branca e quase ins\u00edpida a que chamam de funge. As restantes t\u00eam carnes de bichos v\u00e1rios feitos aos peda\u00e7os e cozinhados. No dia em que l\u00e1 fomos, tinham javali e veado.<\/p>\n<p>N\u00e3o recomendo que se chegue na hora a que preparam a refei\u00e7\u00e3o, sob pena de se perder o apetite. As pe\u00e7as de carne s\u00e3o desmontadas num pl\u00e1stico sujo assente no ch\u00e3o. As moscas, que vieram com a carne, continuam a rondar a cozinheira, a faca e o pl\u00e1stico. Depois de cortada em peda\u00e7os pequeninos, a carne \u00e9 temperada com massa de tomate e alguns pelos do bicho. Vai para a panela estufar durante umas horas. Esperamos todos que este tratamento seja esteriliza\u00e7\u00e3o suficiente.<\/p>\n<p>Ao lado das mesas h\u00e1 sempre um alguidar com loi\u00e7a e talheres que s\u00e3o lavados, por assim dizer, com o trapo sujo que est\u00e1 ao lado. Um pouco mais \u00e0 frente, um barril de pl\u00e1stico cheio de \u00e1gua acastanhada supre as necessidades da cozinha, que seja para cozer o funge ou para lavar os pratos. O que n\u00e3o mata engorda, n\u00e3o \u00e9 verdade?<\/p>\n<p>Desta vez comemos o veado porque os parasitas do porco est\u00e3o mais adaptados aos humanos e todo o cuidado \u00e9 pouco. Estava uma del\u00edcia. Encontrei uma \u00fanica <em>borbulha<\/em> no funge que, \u00e0 excep\u00e7\u00e3o desta mazela estava perfeito, at\u00e9 em sabor.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" style=\"border-right-width: 0px; display: inline; border-top-width: 0px; border-bottom-width: 0px; border-left-width: 0px\" title=\"IMG_3955\" border=\"0\" alt=\"IMG_3955\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2009\/05\/img-3955.jpg\" width=\"600\" height=\"400\" \/>    <br \/>O pit\u00e9u<\/p>\n<p>Ao contr\u00e1rio do que se passa em Luanda, aqui fazem quest\u00e3o de se esquecer de que somos brancos e tratam-nos como pessoas. Nestas alturas lembramo-nos porque \u00e9 t\u00e3o f\u00e1cil gostar desta terra. Conversamos e brincamos com a dona do <em>restaurante<\/em> e com os outros clientes. No final vem a conta: 1200 Kz pelas duas refei\u00e7\u00f5es e pelas bebidas, que isto n\u00e3o \u00e9 a capital.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A caminho do Dondo, um pouco antes do controlo que marca a entrada no Kwanza Norte, h\u00e1 uma pequena povoa\u00e7\u00e3o que tem quase tantos restaurantes como habitantes. No tempo em que as terras eram chamadas pelo nome de um dos seus habitantes, esta chamou-se Maria Teresa. 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