{"id":2554,"date":"2009-05-31T00:00:00","date_gmt":"2009-05-30T23:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/?p=2554"},"modified":"2009-07-21T22:34:03","modified_gmt":"2009-07-21T21:34:03","slug":"qual-recesso","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/qual-recesso\/","title":{"rendered":"Qual recess\u00e3o?"},"content":{"rendered":"<p>No ano em que as economias de muitos pa\u00edses se ressentiam do pre\u00e7o petr\u00f3leo que n\u00e3o parava de bater recordes, Angola ria-se da desgra\u00e7a alheia. A crise nunca c\u00e1 chegaria, porque quem tem petr\u00f3leo tem tudo.<\/p>\n<p>O mundo atravessa uma crise financeira causada pelo dinheiro fict\u00edcio que surgia em neg\u00f3cios demasiado rebuscados para serem cred\u00edveis, mas em que todos acreditavam para n\u00e3o parecerem demasiado c\u00e9pticos. Algu\u00e9m gritou que o rei ia nu e o castelo de cartas ruiu.<\/p>\n<p>Angola continuava a rir-se e a apregoar que n\u00e3o sofreria com esta crise. Afinal de contas, a sua economia depende de algo palp\u00e1vel, o petr\u00f3leo. De imediato se suspeitou que esta fosse uma hist\u00f3ria mal contada e cedo se descobriu que, afinal, a crise afecta todos. At\u00e9 os angolanos!<\/p>\n<p>As reservas do banco central diminuiram subitamente, de maneira inexplic\u00e1vel, balbucia quem, dias antes, apregoava a solidez econ\u00f3mica de Angola. O crescimento econ\u00f3mico angolano, segundo as regras inventadas pelos que causaram a crise, fazia inveja a muita gente. Agora, depois da crise, servem de exemplo para os perigos das economias africanas.<\/p>\n<p>O que n\u00e3o se diz \u00e9 que esta defini\u00e7\u00e3o de recess\u00e3o n\u00e3o se aplica a Angola. H\u00e1 coisas que temos de admitir e uma delas \u00e9 que Angola \u00e9 especial. Avaliar o desempenho econ\u00f3mico de um pa\u00eds segundo os padr\u00f5es do mundo capitalista funciona muito bem quando se trata de um pa\u00eds desse mundo. N\u00e3o \u00e9 sequer cred\u00edvel tentar aplicar as mesmas normas aqui. \u00c9 tentar medir o per\u00edmetro de uma esfera com um tijolo.<\/p>\n<p>Angola n\u00e3o tem tecido industrial. Na verdade, n\u00e3o produz quase nada. O pilar da economia \u00e9 o petr\u00f3leo. Logo a seguir v\u00eam os diamantes e o resto, as migalhas, n\u00e3o s\u00e3o alvo da aten\u00e7\u00e3o de ningu\u00e9m. A agricultura \u00e9, quase exclusivamente, de subsist\u00eancia. Tudo se importa, at\u00e9 mesmo o que deveria ser produzido <a href=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/?p=2303\" target=\"_blank\">localmente<\/a>.<\/p>\n<p>Ora, se n\u00e3o se produz nada que acrescente valor \u00e0 mat\u00e9ria-prima, como se poder\u00e1 falar de recess\u00e3o? O pa\u00eds cresce ou retrai-se economicamente ao sabor das varia\u00e7\u00f5es cambiais ou do pre\u00e7o do petr\u00f3leo.<\/p>\n<p>A economia angolana comporta-se como uma rolha no mar. Se a onda a faz subir, cresce, se a faz descer, retrai-se, mas o facto \u00e9 que estar\u00e1 sempre a tona. Outros pa\u00edses comportam-se mais como uma pedra, que s\u00f3 com muito esfor\u00e7o da parte de quem nada (os que produzem) \u00e9 que se mant\u00e9m perto da superf\u00edcie.<\/p>\n<p>A <em>Recess\u00e3o Angolana<\/em> servir\u00e1 apenas para justificar o apertar do cinto dos que n\u00e3o podem, para que os outros mantenham o n\u00edvel de vida a que o petr\u00f3leo caro os habituou.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No ano em que as economias de muitos pa\u00edses se ressentiam do pre\u00e7o petr\u00f3leo que n\u00e3o parava de bater recordes, Angola ria-se da desgra\u00e7a alheia. A crise nunca c\u00e1 chegaria, porque quem tem petr\u00f3leo tem tudo. 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