{"id":2561,"date":"2009-06-12T00:00:00","date_gmt":"2009-06-11T23:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/?p=2561"},"modified":"2009-06-23T22:22:15","modified_gmt":"2009-06-23T21:22:15","slug":"kafkiano","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/kafkiano\/","title":{"rendered":"Kafkiano"},"content":{"rendered":"<p>Josef K. veio para Angola. Passou pelas habituais desventuras consulares com que o pa\u00eds brinda quem o visita. A primeira carta de chamada, que vinha endere\u00e7ada aos Servi\u00e7os Consulares da Embaixada de Angola, foi recusada. Tinha de ser dirigida ao Consulado de Angola.<\/p>\n<p>Durante um ano trabalhou numa seguradora famosa, num escrit\u00f3rio com vista para a Ba\u00eda de Luanda. Ali\u00e1s, foi devido \u00e0 sua experi\u00eancia com processos complicados que foi enviado para Angola.<\/p>\n<p>Tinha chegado a altura de renovar o visto. Informou-se do que era necess\u00e1rio e dirigiu-se \u00e0 DEFA. Apareceu l\u00e1 bem cedo, bem antes de abrirem as portas. Aos poucos, a confus\u00e3o foi-se instalando. Empurr\u00f5es e vozes altas a reclamar da lentid\u00e3o. Um pouco antes da hora do almo\u00e7o, conseguiu entrar. Pelo meio ainda deu uma <em>gasosa<\/em> ao seguran\u00e7a, que aceitou dizendo que \u00ab<em>s\u00f3 a aceitava para que n\u00e3o julgasse que tinha se negligenciado alguma forma de acelerar o Processo<\/em>\u00bb. Esperou que os funcion\u00e1rios que \u00ab<em>ainda n\u00e3o tinham regressado do almo\u00e7o<\/em>\u00bb ou os que \u00ab<em>estavam quase-quase a chegar<\/em>\u00bb regressassem. Depois esperou mais um pouco, dando-lhes tempo de p\u00f4r a conversa em dia.<\/p>\n<p>Atenderam-no a meio da tarde. Ao primeiro relance, recusaram-lhe o processo. Lamentavam muito, mas era necess\u00e1rio apresentar uma c\u00f3pia autenticada de uma qualquer certid\u00e3o obscura. Sem ela, n\u00e3o poderiam dar andamento ao processo. Josef K. bem tentou argumentar que semelhante certid\u00e3o s\u00f3 se poderia obter em Praga e que em lado nenhum estava escrito que aquele documento era necess\u00e1rio. Foi in\u00fatil. A dificuldade estava criada, mas seguramente lhe poderiam vender uma faciilidade\u2026<\/p>\n<p>Recusando-se a ceder a esta t\u00e1ctica, no dia seguinte procurou maneira de obter a certid\u00e3o. Telefonemas para casa, conversas com amigos e desabafos com conhecidos fizeram-lhe chegar uma c\u00f3pia do documento pretendido \u00e0s m\u00e3os. Agora s\u00f3 precisava de a autenticar.<\/p>\n<p>Depois de muitas tentativas frustradas, resolveu atacar o problema de outra maneira. Com um carimbo e umas assinaturas pomposas transformou a sua c\u00f3pia da certid\u00e3o num documento de ar oficial, que nunca passaria por verdadeiro.<\/p>\n<p>Regressou \u00e0 DEFA. Perdeu mais um dia, mas apresentou o documento. Foi recusado. O original n\u00e3o serve, tem de entregar uma c\u00f3pia autenticada pelo Minist\u00e9rio das Rela\u00e7\u00f5es Exteriores.<\/p>\n<p>No dia seguinte, foi ao MIREX, para autenticar o documento semi-verdadeiro. Esperou a manh\u00e3 inteira. Foi atendido e explicou o que queria. N\u00e3o era ali que tinha de se dirigir. O MIREX s\u00f3 autentica depois dos servi\u00e7os consulares do pa\u00eds de origem lhe autenticarem uma c\u00f3pia do documento\u2026<\/p>\n<p>Josef K. estrebuchou. Reclamou porque nunca lhe diziam onde devia come\u00e7ar o processo. S\u00f3 o informavam do passo imediatamente anterior. Aborrecido, foi \u00e0 procura do consulado.<\/p>\n<p>Chegou perto da hora de fecho, perguntou ao seguran\u00e7a onde poderia autenticar o documento. O seguran\u00e7a disse-lhe logo que tinha de voltar na semana seguinte, porque \u2013 apontou para o letreiro na parede &#8211; \u00abAutentica\u00e7\u00f5es s\u00f3 \u00e0s Segundas-feiras\u00bb. Josef K. esmoreceu, mas entrou na mesma, com esperan\u00e7a de se cruzar com algu\u00e9m a quem explicar a situa\u00e7\u00e3o. Encontrou uma porta encostada e n\u00e3o se fez rogado. Entrou mesmo, como se fosse da casa. A funcion\u00e1ria no gabinete disse-lhe que j\u00e1 n\u00e3o atendiam, mas ele acabou por lhe explicar que s\u00f3 queria mesmo autenticar aquela c\u00f3pia para levar ao MIREX por causa da complicada burocracia angolana. Com estas palavras ganhou uma aliada e a funcion\u00e1ria disse-lhe que abria uma excep\u00e7\u00e3o. At\u00e9 abriu outra excep\u00e7\u00e3o e fez a fotoc\u00f3pia no consulado. O pagamento dos dez d\u00f3lares de taxa \u00e9 que tinha de ser feito no banco da esquina e a\u00ed n\u00e3o podia ceder. Os pagamentos t\u00eam de ser sempre feitos por transfer\u00eancia banc\u00e1ria.<\/p>\n<p>Josef K. correu at\u00e9 ao banco da esquina e sorriu quando viu que estava vazio. Confiante, avan\u00e7ou at\u00e9 ao caixa, que o olhou nos olhos e lhe disse, com toda a calma:<\/p>\n<p>\u00ab<em>N\u00e3o h\u00e1 sistema\u2026<\/em>\u00bb     <br \/>\u00abMas s\u00f3 quero fazer um dep\u00f3sito para o consulado.\u00bb     <br \/>\u00ab<em>N\u00e3o h\u00e1 sistema, n\u00e3o posso fazer nada.<\/em>\u00bb    <br \/>\u00abQuanto tempo demora at\u00e9 voltar?\u00bb    <br \/>\u00ab<em>Depende. Talvez meia-hora, talvez mais\u2026<\/em>\u00bb    <br \/>\u00abMas \u00e9 s\u00f3 um dep\u00f3sito. S\u00f3 preciso de um tal\u00e3o em como depositei e esse pode fazer \u00e0 m\u00e3o.\u00bb     <br \/>\u00ab<em>Depois eles n\u00e3o aceitam\u2026<\/em>\u00bb     <br \/>\u00abAceitam sim. S\u00e3o s\u00f3 dez d\u00f3lares. J\u00e1 alguma vez ouviu algu\u00e9m dar um golpe de dez d\u00f3lares?\u00bb     <br \/>\u00ab<em>N\u00e3o sei. Com o sistema, eles confiam mais\u2026<\/em>\u00bb     <br \/>\u00abSe tiver um carimbo do banco t\u00eam de aceitar. Se n\u00e3o aceitarem eu venho buscar o outro, pode ser?\u00bb     <br \/>\u00ab<em>Eu fa\u00e7o, mas eles v\u00e3o recusar\u2026<\/em>\u00bb<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o recusaram. E Josef K. conseguiu autenticar uma c\u00f3pia da sua certid\u00e3o semi-original. J\u00e1 podia ir ao MIREX. Mas isso teria de ficar para o dia seguinte.<\/p>\n<p>Logo pela manh\u00e3, esperou umas horas at\u00e9 ser atendido. Disseram-lhe que podia autenticar a certid\u00e3o, mas tinha de fazer um requerimento em papel de vinte e cinco linhas. Estava explicado o mist\u00e9rio de toda a gente ter uma folha azul na m\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00abOnde posso comprar aquele papel?\u00bb    <br \/>\u00ab<em>L\u00e1 fora, nos mi\u00fados.<\/em>\u00bb<\/p>\n<p>No exterior, tentou regatear uma folha de papel azul e a estampilha fiscal sem sucesso. O pre\u00e7o est\u00e1 tabelado: 150 Kz.<\/p>\n<p>Copiou a minuta para a folha e apresentou o requerimento, depois de mais algumas horas de espera, claro. Assistiu \u00e0 funcion\u00e1ria conferir a c\u00f3pia, carimbar, assinar e marcar com o selo branco o documento que tinha sido autenticado na v\u00e9spera pelo consulado. Logo a seguir, colocou a c\u00f3pia e o requerimento num cesto ao lado. Josef K. perguntou se j\u00e1 estava. \u00ab<em>Sim, est\u00e1 pronto.<\/em>\u00bb Ent\u00e3o porque n\u00e3o lho entregava? \u00ab<em>Tem de esperar 24h. Est\u00e1 na lei. Amanh\u00e3 pode vir levantar.<\/em>\u00bb<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" style=\"border-bottom: 0px; border-left: 0px; display: inline; border-top: 0px; border-right: 0px\" title=\"Bulldozer com \u00e1rvore no meio\" border=\"0\" alt=\"Bulldozer com \u00e1rvore no meio\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2009\/05\/burocracia.jpg\" width=\"600\" height=\"400\" \/>    <br \/>V\u00edtima do Processo<\/p>\n<p> Inconformado, mas resignado, esperou at\u00e9 ao dia seguinte. Levantou a certid\u00e3o duplamente autenticada e dirigiu-se \u00e0 DEFA. A confus\u00e3o do costume no exterior f\u00ea-lo pensar que tinha sido boa ideia guardar a senha de atendimento de h\u00e1 uns dias. Acenou-a \u00e0 frente do seguran\u00e7a que faz as vezes de porteiro e disse-lhe que a menina s\u00f3 o tinha mandado ir fazer uma fotoc\u00f3pia. Foi mandado entrar. Entregou os documentos todos, n\u00e3o deixou de sorrir por ver a sua certid\u00e3o ser aceite. N\u00e3o comprou a facilidade, mas as dificuldades foram muitas.<\/p>\n<p>Josef K. regressou a Praga no m\u00eas seguinte, onde o esperava um Processo que lhe diziam ser muito complicado. Riu-se \u00e0 gargalhada. \u00abVenha ele!\u00bb<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Josef K. veio para Angola. Passou pelas habituais desventuras consulares com que o pa\u00eds brinda quem o visita. A primeira carta de chamada, que vinha endere\u00e7ada aos Servi\u00e7os Consulares da Embaixada de Angola, foi recusada. 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