{"id":2622,"date":"2009-06-19T00:00:00","date_gmt":"2009-06-18T23:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/?p=2622"},"modified":"2009-07-18T13:24:15","modified_gmt":"2009-07-18T12:24:15","slug":"teoria-angolana-de-resoluo-de-problemas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/teoria-angolana-de-resoluo-de-problemas\/","title":{"rendered":"Teoria angolana de resolu\u00e7\u00e3o de problemas"},"content":{"rendered":"<p>Angola \u00e9 uma terra cheia de problemas, n\u00e3o h\u00e1 como neg\u00e1-lo. Tem os mesmos problemas que as outras e depois tem uns s\u00f3 dela. Para os resolver, \u00e9 necess\u00e1rio manter a calma e concentrarmo-nos nos mais importantes.<\/p>\n<p>Os angolanos s\u00e3o um povo pr\u00e1tico e, ao longo dos tempos, desenvolveram e aperfei\u00e7oaram uma teoria de resolu\u00e7\u00e3o de problemas simples e eficaz, que levam \u00e0 pr\u00e1tica a cada oportunidade que surge. Assenta em princ\u00edpios simples e n\u00e3o implica dispendiosas ac\u00e7\u00f5es de forma\u00e7\u00e3o para que seja transmitida. Cada um aprende fazendo ou vendo fazer.<\/p>\n<p>Em vez de exp\u00f4r a teoria, vou explicar como se aplica com alguns exemplos, para que se tenha uma ideia de como os angolanos aprendem a us\u00e1-la. Mais tarde farei a exposi\u00e7\u00e3o te\u00f3rica.<\/p>\n<blockquote><p><strong>Exemplo 1<br \/>\nProblema:<\/strong><br \/>\nO vizinho de cima tem um cano roto na casa-de-banho e chove-nos na sala.<\/p>\n<p><strong>Resolu\u00e7\u00e3o:<br \/>\n<\/strong>Batemos-lhe \u00e0 porta e reclamamos da \u00e1gua.<br \/>\nEle responde \u00ab<em>O problema n\u00e3o \u00e9 meu. \u00c9 teu. \u00c9 na tua sala que chove.<\/em>\u00bb<\/p>\n<p><span style=\"text-decoration: underline;\"><strong>Problema resolvido!<\/strong><\/span><\/p><\/blockquote>\n<p>Os menos preparados poder\u00e3o zangar-se com o vizinho, chamar-lhe nomes e ser at\u00e9 desagrad\u00e1vel, insinuando que a m\u00e3e do senhor era algo que n\u00e3o honrada. Na verdade, isto n\u00e3o passa de um choque cultural, um daqueles mal-entendidos que acontecem quando n\u00e3o se est\u00e1 perfeitamente integrado numa sociedade diferente. Se aplicarmos a teoria angolana para a resolu\u00e7\u00e3o de problemas a este caso concreto, a solu\u00e7\u00e3o \u00e9 muito mais simples do que se julga.<\/p>\n<blockquote><p><strong>Exemplo 2<br \/>\nProblema:<\/strong><br \/>\nO vizinho de cima tem um cano roto na casa-de-banho e chove-nos na sala. Ele diz que o problema \u00e9 nosso.<\/p>\n<p><strong>Resolu\u00e7\u00e3o:<br \/>\n<\/strong>Partimos o tecto da sala e reparamos o cano roto.<br \/>\nNo dia seguinte, ele bate-nos \u00e0 porta e reclama que n\u00e3o tem ch\u00e3o na casa-de-banho. Respondemos \u00ab<em>O problema n\u00e3o \u00e9 meu. \u00c9 teu. J\u00e1 n\u00e3o me chove na sala.<\/em>\u00bb<\/p>\n<p><span style=\"text-decoration: underline;\"><strong>Problema resolvido!<\/strong><\/span><\/p><\/blockquote>\n<p>Analisando com cuidado, percebemos que todo este processo assenta no princ\u00edpio da conserva\u00e7\u00e3o da energia. A teoria angolana implica que a responsabilidade pela resolu\u00e7\u00e3o do problema seja canalizada para outr\u00e9m, n\u00e3o resolvendo de imediato a quest\u00e3o, mas evitando desperd\u00edcio de energia. Eventualmente, a responsabilidade chegar\u00e1 a algu\u00e9m que ter\u00e1 de investir mais energia na transmiss\u00e3o da responsabilidade do que na resolu\u00e7\u00e3o efectiva do problema. Pode demorar um pouco mais, mas acaba por se resolver.<\/p>\n<blockquote><p><strong>Exemplo 3<br \/>\nProblema:<\/strong><br \/>\nOs iogurtes comprados no supermercado estavam estragados. Reclamamos. Aplicam a teoria angolana e dizem-nos que o problema \u00e9 nosso.<\/p>\n<p><strong>Ponto de vista do supermercado:<br \/>\n<\/strong>Energia necess\u00e1ria para aceitar a reclama\u00e7\u00e3o, receber os iogurtes estragados e trocar por outros, devolver ao fornecedor, preencher pap\u00e9is: <strong><em>muita<\/em><\/strong>.<br \/>\nEnergia necess\u00e1ria para recusar a reclama\u00e7\u00e3o: <em><strong>desprez\u00e1vel<\/strong><\/em>.<\/p>\n<p><strong>Ponto de vista do cliente:<\/strong><br \/>\nEnergia necess\u00e1ria para ir ao supermercado, esperar que algu\u00e9m atenda a reclama\u00e7\u00e3o, provar que os iogurtes estavam estragados, esperar pelos novos, regressar a casa e descobrir que tamb\u00e9m est\u00e3o estragados: <em><strong>muita<\/strong><\/em>.<br \/>\nEnergia necess\u00e1ria para deitar fora os iogurtes e comprar outros na loja da esquina: <em><strong>desprez\u00e1vel<\/strong><\/em>.<\/p>\n<p>Torna-se \u00f3bvio que a solu\u00e7\u00e3o que conserva mais energia \u00e9 a que segue a teoria angolana de resolu\u00e7\u00e3o de problemas.<\/p><\/blockquote>\n<p>Depois de interiorizarmos esta filosofia de vida, come\u00e7amos a perceber como Luanda funciona. Os geradores, os dep\u00f3sitos de \u00e1gua, os todo-o-terreno passam a fazer todo o sentido e, na verdade, permitem poupar muita energia que poderia estar a ser desperdi\u00e7ada em reclama\u00e7\u00f5es in\u00fateis.<\/p>\n<blockquote><p>A rua tem buracos? O problema \u00e9 teu, compra um jipe!<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 electricidade 22 horas por dia? Compra um gerador, que n\u00e3o temos nada a ver com isso.<\/p>\n<p>Faltou a \u00e1gua? A culpa \u00e9 da guerra. Se tivesses dep\u00f3sito, safavas-te\u2026<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m te consegue ligar? Anda com dois telefones.<\/p><\/blockquote>\n<p>Os angolanos gostam da sua teoria de resolu\u00e7\u00e3o de problemas. Poupa-lhes muitos dissabores, pelo menos a curto prazo. Mas o que aconteceria se fosse aplicada pelo resto do mundo em rela\u00e7\u00e3o a Angola?<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" style=\"border-right-width: 0px; display: inline; border-top-width: 0px; border-bottom-width: 0px; border-left-width: 0px\" title=\"Carro com roda enfiada em caixa de esgoto sem tampa, numa rua enlameada\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2009\/06\/problemas.jpg\" border=\"0\" alt=\"Carro com roda enfiada em caixa de esgoto sem tampa, numa rua enlameada\" width=\"600\" height=\"400\" \/><br \/>\nO esgoto n\u00e3o tem tampa? O problema \u00e9 de quem l\u00e1 cai!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Angola \u00e9 uma terra cheia de problemas, n\u00e3o h\u00e1 como neg\u00e1-lo. Tem os mesmos problemas que as outras e depois tem uns s\u00f3 dela. Para os resolver, \u00e9 necess\u00e1rio manter a calma e concentrarmo-nos nos mais importantes. 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