{"id":2632,"date":"2009-07-04T00:00:00","date_gmt":"2009-07-03T23:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/?p=2632"},"modified":"2009-07-04T10:26:23","modified_gmt":"2009-07-04T09:26:23","slug":"o-despertar-da-cidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/o-despertar-da-cidade\/","title":{"rendered":"O despertar da cidade"},"content":{"rendered":"<p>Quando os rel\u00f3gios marcam perto das seis da manh\u00e3, o escuro do c\u00e9u \u00e9 vencido pelo Sol que se esconder\u00e1 atr\u00e1s do manto de cacimbo durante o resto do dia. Aos poucos, a luz amarela dos candeeiros come\u00e7a a ser substitu\u00edda pela luz met\u00e1lica da alvorada e a cidade desperta lentamente.<\/p>\n<p>Os carros ainda n\u00e3o se juntaram ao seu carrossel di\u00e1rio e a cidade parece demasiado silenciosa sem o coro de buzinas habitual. O p\u00f3 que levantam tamb\u00e9m est\u00e1 adormecido na rua e n\u00e3o incomoda narinas nem olhos. Os cobradores dos candongueiros ainda n\u00e3o gritam os destinos, talvez por n\u00e3o terem as peixeiras como contraponto. Pendurados na porta da <em>i\u00e1ce<\/em> por um s\u00f3 bra\u00e7o, quase que sussurram \u00ab<em>S\u00e3-P\u00e1lo<\/em>\u00bb ao ouvido de quem passa.<\/p>\n<p>\u00c0 porta dos bancos, os poucos seguran\u00e7as que est\u00e3o acordados sentam-se com as m\u00e3os nos bolsos e olhos vermelhos nas cadeiras desconjuntadas do costume. Os outros enroscam-se nas fardas duras ou em casacos coloridos, dormindo silenciosamente mais umas horas.<\/p>\n<p>Nas esquinas, os mi\u00fados que ganham a vida a engraxar sapatos, ou melhor, desperdi\u00e7am a vida a engraxar sapatos, j\u00e1 est\u00e3o a p\u00e9, para apanhar os primeiros clientes do dia. T\u00eam a cara fechada, um pouco mais resignada que o costume. Talvez seja ainda sono ou, se calhar, a falta de az\u00e1fama deixa-lhes mais tempo para pensar na vida. O primeiro cliente chega, com o passo lento. Mas o mi\u00fado, a estas horas, tamb\u00e9m trabalha devagar e acaba por lhe tirar a escova das m\u00e3os e terminar o servi\u00e7o. Paga na mesma e n\u00e3o trocam uma palavra.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" style=\"border-bottom: 0px; border-left: 0px; display: inline; border-top: 0px; border-right: 0px\" title=\"Rapaz dorme no capacho da loja\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2009\/06\/capacho.jpg\" border=\"0\" alt=\"Rapaz dorme no capacho da loja\" width=\"600\" height=\"400\" \/><br \/>\nCama dura<\/p>\n<p>A troco de o manter limpo, um rapaz dorme no capacho de uma loja. Sempre \u00e9 menos duro que o cimento do passeio. Acordar\u00e1 assim que a loja abrir e passar\u00e1 o resto do dia a arrumar e lavar carros.<\/p>\n<p>L\u00e1 ao fundo, a torre reluzente da Sonangol assiste, imp\u00e1vida, \u00e0 primeira demoli\u00e7\u00e3o do dia.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quando os rel\u00f3gios marcam perto das seis da manh\u00e3, o escuro do c\u00e9u \u00e9 vencido pelo Sol que se esconder\u00e1 atr\u00e1s do manto de cacimbo durante o resto do dia. Aos poucos, a luz amarela dos candeeiros come\u00e7a a ser substitu\u00edda pela luz met\u00e1lica da alvorada e a cidade desperta lentamente. Os carros ainda n\u00e3o [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"footnotes":""},"categories":[14],"tags":[233,15,234,235,236,12,26],"class_list":["post-2632","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-luanda","tag-alvorada","tag-candongueiros","tag-cidade-adormecida","tag-engraxadores","tag-pedintes","tag-segurancas","tag-transito"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2632","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2632"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2632\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2792,"href":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2632\/revisions\/2792"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2632"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2632"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2632"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}