{"id":2633,"date":"2009-07-05T00:00:00","date_gmt":"2009-07-04T23:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/?p=2633"},"modified":"2009-09-18T21:58:06","modified_gmt":"2009-09-18T20:58:06","slug":"os-amantes-das-zungueiras","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/os-amantes-das-zungueiras\/","title":{"rendered":"Os amantes das zungueiras"},"content":{"rendered":"<p>Se tivesse de escolher dois fen\u00f3menos para distinguir Luanda de Lisboa, sem d\u00favida que os eleitos seriam os candongueiros e as zungueiras. As diferen\u00e7as nas pedras e nas paredes n\u00e3o se comparam \u00e0 diferen\u00e7a entre as viv\u00eancias destas duas capitais que, at\u00e9 certa altura, partilham uma Hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>Dos candongueiros muito se pode dizer. Quase sempre mal, esquecendo que a lei da selva que lhes governa a vida tamb\u00e9m lhes governa o volante. Mas animais da estrada h\u00e1-os um pouco por todo o lado e, acreditando no que se diz, os portugueses devem ser os candongueiros europeus.<\/p>\n<p>As zungueiras, por outro lado, s\u00e3o um fen\u00f3meno completamente novo para quem chega a Luanda pela primeira vez. Cedo reparamos que as mulheres s\u00e3o o motor econ\u00f3mico da cidade, transportando o neg\u00f3cio \u00e0 cabe\u00e7a e os filhos \u00e0s costas, enrolados nos panos coloridos que alegram a paisagem empoeirada.<\/p>\n<p>Por serem pe\u00e7as t\u00e3o importantes para a economia e, afinal de contas, exercerem uma actividade onde a fuga ao fisco \u00e9 obrigat\u00f3ria, a pol\u00edcia vai fazendo os seus controlos, cumprindo ordens ou matando a sede com uma <em>gasosa<\/em>.<\/p>\n<p>As <em>corridas<\/em> \u00e0s zungueiras s\u00e3o <a href=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/?p=2463\" target=\"_blank\">frequentes<\/a> e come\u00e7ou a ser vulgar assistir \u00e0 debandada de mulheres de alguidar \u00e0 cabe\u00e7a e rapazes carregados com \u00f3culos de Sol ou desodorizantes de autom\u00f3vel ao primeiro avistamento de uma camisa esverdeada da fiscaliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Por um lado, combate-se a economia paralela, mas n\u00e3o se criam alternativas para quem vende nem para quem compra. Se n\u00e3o <em>zungarem<\/em> qualquer coisa, \u00e9 imposs\u00edvel sobreviver na capital sem terra para cultivar.<\/p>\n<p>Como os angolanos se riem face \u00e0s adversidades legais ou outras, depressa descobrem como contornar estes obst\u00e1culos. As zungueiras, como boas angolanas que s\u00e3o, encontraram a arma secreta. Tornam-se amantes de um pol\u00edcia!<\/p>\n<p>Fica muito mal um pol\u00edcia dar uma corrida \u00e0 namorada do colega. Depois tem de dar uma boa explica\u00e7\u00e3o e, se o outro for superior, n\u00e3o se escapa da obrigat\u00f3ria compensa\u00e7\u00e3o para matar a sede.<\/p>\n<p>Come\u00e7ou a correr o boato de que agora tamb\u00e9m s\u00e3o os pol\u00edcias que querem andar com as zungueiras. Na verdade, descobriram um har\u00e9m infinito e sem grandes motivos para recusar convites.<\/p>\n<p>Com este s\u00fabito interesse da parte <em>fiscalizadora<\/em>, s\u00f3 posso concluir que as zungueiras feias est\u00e3o descansadas da vida, porque os pol\u00edcias s\u00f3 v\u00e3o dar <em>corridas<\/em> \u00e0s mais jeitosas\u2026<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Se tivesse de escolher dois fen\u00f3menos para distinguir Luanda de Lisboa, sem d\u00favida que os eleitos seriam os candongueiros e as zungueiras. As diferen\u00e7as nas pedras e nas paredes n\u00e3o se comparam \u00e0 diferen\u00e7a entre as viv\u00eancias destas duas capitais que, at\u00e9 certa altura, partilham uma Hist\u00f3ria. Dos candongueiros muito se pode dizer. 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