{"id":2635,"date":"2009-07-06T00:00:00","date_gmt":"2009-07-05T23:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/?p=2635"},"modified":"2009-06-17T22:38:46","modified_gmt":"2009-06-17T21:38:46","slug":"perdido-achado-leiloado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/perdido-achado-leiloado\/","title":{"rendered":"Perdido. Achado. Leiloado."},"content":{"rendered":"<p>Num pa\u00eds que tudo importa, seria de esperar que portos, alf\u00e2ndegas e servi\u00e7os aduaneiros fossem uma m\u00e1quina bem oleada, capaz de movimentar as mercadorias numa almofada de experi\u00eancia e efici\u00eancia. Todos sabemos que a realidade \u00e9 outra.<\/p>\n<p>O supl\u00edcio do importador come\u00e7a duas semanas depois de saber que o seu contentor deixou o porto de origem. \u00c9 por esta altura que chega a Luanda. O navio junta-se \u00e0s outras oito dezenas que aguardam a vez para descarregar.<\/p>\n<p>Entre tr\u00eas a quatro meses a ver a \u00e2ncora segurar o navio enquanto este vai de l\u00e1 para c\u00e1 ao sabor da mar\u00e9, \u00e9 o quadro habitual. Alguns comandantes, conhecedores destas esperas aborrecidas a ver Luanda, optam por uma t\u00e9cnica muito angolana para evitar desperd\u00edcio de recursos. Chegam ao porto, tiram a senha de vez e rumam a outro s\u00edtio qualquer fazer o que tiverem de fazer. A cada m\u00e3o-cheia de semanas voltam s\u00f3 para saber se a fila andou ou se h\u00e1 sistema, como fazem no banco da esquina. Com um pouco de sorte, fazem dois ou tr\u00eas servi\u00e7os e aportam a Luanda para uma espera curta.<\/p>\n<p>Depois de descarregados os contentores, acabam-se os problemas do navio, que parte para outras paragens, invariavelmente vazio. A espera do importador ainda est\u00e1 longe de terminada. Agora tem de vencer a burocracia da alf\u00e2ndega.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" style=\"border-bottom: 0px; border-left: 0px; display: inline; border-top: 0px; border-right: 0px\" title=\"Porto de Luanda visto do Eixo Vi\u00e1rio\" border=\"0\" alt=\"Porto de Luanda visto do Eixo Vi\u00e1rio\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2009\/06\/Porto_de_Luanda.jpg\" width=\"600\" height=\"400\" \/>    <br \/>Porto de Luanda<\/p>\n<p>Por vezes acontece que as coisas demoram tanto tempo que o pr\u00f3prio dono da mercadoria se esquece dela ou vai \u00e0 fal\u00eancia antes de poder sequer rentabilizar o seu investimento. Como o porto de Luanda tem a sua capacidade de armazenagem de contentores largamente excedida desde h\u00e1 anos, criou-se um armaz\u00e9m tempor\u00e1rio fora da cidade a que se d\u00e1 o nome de Porto Seco de Viana. Mas at\u00e9 mesmo esta solu\u00e7\u00e3o de recurso est\u00e1 a atingir os seus limites.<\/p>\n<p>Por lei, as mercadorias n\u00e3o podem ficar mais de sessenta dias no porto ap\u00f3s o desalfandegamento. A partir da\u00ed s\u00e3o consideradas abandonadas. Antecipando que nem sempre esta opera\u00e7\u00e3o corre com a celeridade devida, a administra\u00e7\u00e3o portu\u00e1ria prolonga este prazo at\u00e9 ter necessidade absoluta do espa\u00e7o.<\/p>\n<p>De vez em quando, no jornal das boas not\u00edcias, \u00e9 publicado um edital com a lista dos contentores que est\u00e3o h\u00e1 demasiado tempo no porto. Semanas depois, publicam um novo edital com as mercadorias abandonadas a leiloar. E encontra-se com cada coisa\u2026<\/p>\n<p> Descobre-se que algu\u00e9m importou dois vidros laterais para a <em>i\u00e1ce<\/em>, ou o recheio da casa no estrangeiro, inclu\u00edndo roupa e cosm\u00e9ticos, ou at\u00e9 mesmo que tenha importado dois pneus e um farolim e se tenha esquecido de os desalfandegar.<\/p>\n<p>Os casos mesmo estranhos n\u00e3o se passam com as pessoas que se esquecem ou n\u00e3o podem desalfandegar meia d\u00fazia de cangalhos e os acabam por perder para o Estado. Estranho, mesmo estranho, \u00e9 saber que h\u00e1 dois contentores carregados de latas de Cuca e de Coca-Cola vazias abandonados pelas f\u00e1bricas de engarrafamento, ou descobrir que uma empresa encomendou, pagou e enviou material de topografia para Angola e resolveu nem o ir levantar ao porto. Mais esquisito ainda, \u00e9 ver na lista que a TAAG importou um contentor de guardanapos e copos de papel e o abandonou no porto.<\/p>\n<p>Assim, quem quiser licitar um lote de vinte baldes de massa consistente ou tr\u00eas jantes cromadas de tamanhos v\u00e1rios, queira consultar os editais onde se indicam as datas e locais dos leil\u00f5es.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Num pa\u00eds que tudo importa, seria de esperar que portos, alf\u00e2ndegas e servi\u00e7os aduaneiros fossem uma m\u00e1quina bem oleada, capaz de movimentar as mercadorias numa almofada de experi\u00eancia e efici\u00eancia. Todos sabemos que a realidade \u00e9 outra. 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