{"id":2648,"date":"2009-07-08T00:00:00","date_gmt":"2009-07-07T23:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/?p=2648"},"modified":"2009-06-19T21:20:30","modified_gmt":"2009-06-19T20:20:30","slug":"tiro-no-p","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/tiro-no-p\/","title":{"rendered":"Tiro no p\u00e9"},"content":{"rendered":"<p>Um velho ditado, que muita gente se esquece \u00e9 o de que um bom nome leva anos a criar, mas pode-se destruir num instante. As aventuras financeiras angolanas s\u00e3o um excelente exemplo disso mesmo.<\/p>\n<p>Desde que o petr\u00f3leo voltou a pre\u00e7os normais que a crise afectou Angola de uma forma n\u00e3o antecipada pelos seus governantes. Ou ent\u00e3o, os seus discursos orgulhosamente optimistas conseguiram-no esconder muito bem.<\/p>\n<p>Na mudan\u00e7a de esta\u00e7\u00e3o, depois de tr\u00eas meses sem o petr\u00f3leo a valer rios de dinheiro, o Banco de Angola publicou uma s\u00e9rie de notas instrut\u00f3rias em que detalhava as regras para a exporta\u00e7\u00e3o de divisas e aumentava os limites m\u00ednimos de solvabilidade dos bancos privados. Houve uma dan\u00e7a cambial durante duas semanas, com contornos pouco claros, que fez \u00abdesaparecer\u00bb reservas equivalentes a uns 2% do PIB brasileiro.<\/p>\n<p>A principal repercuss\u00e3o destas novas regras, foi a recupera\u00e7\u00e3o de leis do tempo do Partido \u00danico, limitando muito as quantias que se podem enviar para o estrangeiro. Todas as opera\u00e7\u00f5es acima de determinado montante t\u00eam de ser aprovadas pelo banco central e os bancos n\u00e3o t\u00eam liquidez suficiente para as realizar atempadamente, uma vez que t\u00eam, eles mesmos, limites globais para as opera\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Algumas destas regras estavam j\u00e1 previstas na lei, mas a abund\u00e2ncia que o petr\u00f3leo caro trouxe e a in\u00e9rcia da burocracia envolvida provocaram uma aprova\u00e7\u00e3o t\u00e1cita de quase todas as transfer\u00eancias. N\u00e3o era preciso restringir remessas de divisas porque se fazia dinheiro mais depressa do que ele conseguia sair. A situa\u00e7\u00e3o inverteu-se e, em meados de Abril, reestabeleceram-se os controlos.<\/p>\n<p>Todo o estrangeiro que trabalha em Angola e quer enviar dinheiro para o pa\u00eds de origem atravessa agora um mar de dificuldades, porque tem de entregar justifica\u00e7\u00f5es (que nunca s\u00e3o as mesmas), tem de esperar semanas pela execu\u00e7\u00e3o da opera\u00e7\u00e3o e, provavelmente, tem de ir ao banco saber o que se passa, perdendo um ou mais dias de trabalho.<\/p>\n<p>Angola, nos \u00faltimos anos, tem tentado disfar\u00e7ar a falta de seriedade com que leva estes assuntos financeiros, com o objectivo de limpar o nome e de deixar de ser considerado um dos pa\u00edses maus pagadores. N\u00e3o tem tido grande sucesso, uma vez que nem os seus vizinhos lhe vendem um parafuso que seja sem pagamento adiantado.<\/p>\n<p>As restri\u00e7\u00f5es \u00e0s remessas para o exterior ou o controlo cambial, como lhe chamam, mostram que o seu sistema financeiro \u00e9 gerido de forma quase amadora, n\u00e3o acautelando situa\u00e7\u00f5es como a antecipada quebra do pre\u00e7o da sua principal fonte de receitas. Mas, de qualquer das formas, n\u00e3o se pode dizer que n\u00e3o estejam a tentar. E isso j\u00e1 poderia contribuir para melhorar um pouco a imagem, mesmo que seja \u00e0 custa da reten\u00e7\u00e3o de sal\u00e1rios dos trabalhadores estrangeiros ou limitando a importa\u00e7\u00e3o de bens necess\u00e1rios (que s\u00e3o todos) porque n\u00e3o se pode pagar ao fornecedor (e ele n\u00e3o envia nada sem ver a cor do dinheiro).<\/p>\n<p>Como dizia, o bom nome leva muito tempo a criar-se, mas dar cabo dele \u00e9 um instantinho. Neste caso, temos o banco que imp\u00f5e as restri\u00e7\u00f5es a desmentir que as haja, mas logo a seguir acrescenta que, afinal, talvez seja mais dif\u00edcil.<\/p>\n<p>O Porto de Luanda ainda n\u00e3o est\u00e1 vazio, porque tem muitos navios em lista de espera, mas se a situa\u00e7\u00e3o continuar, daqui a umas semanas ningu\u00e9m reconhecer\u00e1 aquela ba\u00eda vazia.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Um velho ditado, que muita gente se esquece \u00e9 o de que um bom nome leva anos a criar, mas pode-se destruir num instante. As aventuras financeiras angolanas s\u00e3o um excelente exemplo disso mesmo. Desde que o petr\u00f3leo voltou a pre\u00e7os normais que a crise afectou Angola de uma forma n\u00e3o antecipada pelos seus governantes. 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