{"id":2660,"date":"2009-07-07T00:00:00","date_gmt":"2009-07-06T23:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/?p=2660"},"modified":"2009-07-21T20:57:06","modified_gmt":"2009-07-21T19:57:06","slug":"a-obra-perptua","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/a-obra-perptua\/","title":{"rendered":"A obra perp\u00e9tua"},"content":{"rendered":"<p>\u00c0 medida que vamos conhecendo os recantos e vielas da cidade, descobrimos que tudo existe numa esp\u00e9cie de mutabilidade est\u00e1tica, onde o que parece terminado ainda est\u00e1 por fazer e o provis\u00f3rio \u00e9 definitivo.<\/p>\n<p>A um dado momento, qualquer s\u00edtio est\u00e1 em obras. N\u00e3o quer dizer que as obras n\u00e3o avancem, porque at\u00e9 vamos vendo evolu\u00e7\u00e3o, mas, assim que s\u00e3o dadas como terminadas, algu\u00e9m se lembra que ainda n\u00e3o est\u00e1 perfeito e nova empreitada \u00e9 adjudicada.<\/p>\n<p>Por vezes, o \u00fanico defeito da obra parece ser o empreiteiro a quem foi adjudicada, porque, apesar de ficar com bom aspecto, \u00e9 tudo demolido e em uma empresa diferente refazer. Garantida, julgo que esteja uma choruda <em>gasosa<\/em> a cada interven\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Na Avenida Revolu\u00e7\u00e3o de Outubro, que liga o aeroporto ao centro da cidade e comemora uma data hist\u00f3rica que nada deve dizer aos angolanos, um pouco antes do t\u00fanel que desagua na vista sobre o Catambor, h\u00e1 um separador entre os dois sentidos. Antes das elei\u00e7\u00f5es come\u00e7ava por ser um pequeno lancil cinzento que se tornava um duplo tra\u00e7o cont\u00ednuo a caminho do viaduto.<\/p>\n<p>Nesta mesma zona h\u00e1 um mercado informal de cada lado da avenida. Zungueiras e quitandeiras andam em az\u00e1fama constante, mudando de pouso, indo buscar mercadorias, negociando. Por ser uma zona comercial, \u00e9 destino certo de centenas de candongueiros que param em segunda, terceira ou quarta fila para carregarem novos passageiros.<\/p>\n<p>Para evitar esta confus\u00e3o, com constantes atropelamentos e candongueiros em m\u00e3o contr\u00e1ria, algu\u00e9m, muito acertadamente, resolveu construir um separador central decente. As m\u00e1quinas vieram, os homens tamb\u00e9m. Durante umas semanas o tr\u00e2nsito foi um pouco mais ca\u00f3tico que o costume, mas o separador l\u00e1 nasceu, de blocos <em>jersey<\/em> e grades met\u00e1licas pintados de branco e vermelho. Surgiu tamb\u00e9m um sem\u00e1foro que, aos poucos, come\u00e7ou a ser respeitado por automobilistas e pe\u00f5es.<\/p>\n<p>O separador tinha a altura exacta para que as zungueiras o conseguissem saltar com a carga \u00e0 cabe\u00e7a, passando uma perna de cada vez por cima dele, mas dava mais trabalho do que ir at\u00e9 \u00e0 passadeira e o n\u00famero de pe\u00f5es a cirandar pelo meio do tr\u00e2nsito diminuiu ao longo dos meses.<\/p>\n<p>A avenida bem precisava de um separador igual at\u00e9 \u00e0 Maianga, mas a obra recome\u00e7ou exactamente neste tro\u00e7o. A decis\u00e3o, desta vez, foi de colocar um lancil amarelo can\u00e1rio onde estavam os blocos vermelhos. Mais umas semanas de obras, com engarrafamentos piores que o costume, foram suficientes para a troca. Agora, sem esfor\u00e7o nenhum, temos outra vez pe\u00f5es e motorizadas a atravessar por tudo quanto \u00e9 s\u00edtio. Os meses de educa\u00e7\u00e3o for\u00e7ada foram por \u00e1gua abaixo. Melhor ainda \u00e9 que os locais para as passagens de pe\u00f5es n\u00e3o batem certo com os sem\u00e1foros instalados na primeira obra. J\u00e1 estou a imaginar qual vai ser a pr\u00f3xima empreitada.<\/p>\n<p>Um pouco mais \u00e0 frente, junto do <a href=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/?p=1540\" target=\"_blank\">Jacar\u00e9<\/a>, uma empresa ganhou a empreitada de reabilitar passeios do Prenda, mas parece que n\u00e3o interpretaram bem o caderno de encargos. Traduziram reabilitar por partir os que j\u00e1 existem e est\u00e3o em bom estado e fazer uns exactamente iguais, no mesmo s\u00edtio. As ruas que n\u00e3o t\u00eam passeios n\u00e3o precisam de reabilita\u00e7\u00e3o, est\u00e1 claro.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" style=\"border-right-width: 0px; display: inline; border-top-width: 0px; border-bottom-width: 0px; border-left-width: 0px\" title=\"Blocos de bet\u00e3o dos passeios demolidos\" border=\"0\" alt=\"Blocos de bet\u00e3o dos passeios demolidos\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2009\/06\/Obra_perpetua_1.jpg\" width=\"600\" height=\"400\" \/>    <br \/>O que resta dos passeios antigos<\/p>\n<p>N\u00e3o deve ser s\u00f3 a mim que choca este desperd\u00edcio de m\u00e3o-de-obra, m\u00e1quinas, materiais, tempo e dinheiro (o tal que est\u00e1 escasso nos cofres do Estado). O homem sonha, a obra nasce, a <em>gasosa<\/em> aparece.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00c0 medida que vamos conhecendo os recantos e vielas da cidade, descobrimos que tudo existe numa esp\u00e9cie de mutabilidade est\u00e1tica, onde o que parece terminado ainda est\u00e1 por fazer e o provis\u00f3rio \u00e9 definitivo. A um dado momento, qualquer s\u00edtio est\u00e1 em obras. 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