{"id":2767,"date":"2009-07-19T00:00:00","date_gmt":"2009-07-18T23:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/?p=2767"},"modified":"2009-07-24T12:33:06","modified_gmt":"2009-07-24T11:33:06","slug":"inevitvel-mas-educado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/inevitvel-mas-educado\/","title":{"rendered":"Inevit\u00e1vel, mas educado"},"content":{"rendered":"<p>Num daqueles exasperantes engarrafamentos da Mutamba, que quase parecem um carrossel avariado em torno do Minist\u00e9rio das Finan\u00e7as, aconteceu o que j\u00e1 sabia ser inevit\u00e1vel. O local foi um pouco mais insuspeito do que alguma vez sonhei, mas, no dia em que baixamos a guarda, acontece.<\/p>\n<p>De bon\u00e9 e \u00f3culos escuros, aproximou-se da janela. Fez sinal para baixar o vidro com uma semi-v\u00e9nia. Sem me aperceber disso, engatei a primeira. Baixei o vidro tr\u00eas dedos.<\/p>\n<p>Tinha o sotaque \u201cl\u00e1 da tuga\u201d com que os restantes angolanos estigam e, muito polidamente, pediu desculpa por incomodar. Come\u00e7ou por explicar que era militar e tinha consigo o cart\u00e3o de identifica\u00e7\u00e3o de pessoal para o provar, bem como a arma de servi\u00e7o. Posto isto, n\u00e3o me queria fazer mal, mas estava enrascado.<\/p>\n<p>Na Mutamba, como um pol\u00edcia a cada esquina, mesmo que tivesse a arma consigo, seria um pouco imprudente exibi-la. Por estas bandas, a pol\u00edcia ainda tem o h\u00e1bito de fazer as perguntas depois.<\/p>\n<p>Medi a dist\u00e2ncia ao carro da frente. Em caso de necessidade, soltava a embraiagem e um angolano muito irado sa\u00edria para ver os estragos no p\u00e1ra-choques, fazendo o assaltante sentir-se a mais.<\/p>\n<p>Como eu demorei muito a responder-lhe, achou por bem justificar a sua necessidade de dinheiro. Tinha a mulher doente. E a filha tamb\u00e9m. Mil Kwanzas chegavam. Pensei c\u00e1 para mim \u00ab<em>um ladr\u00e3o a s\u00e9rio n\u00e3o d\u00e1 justifica\u00e7\u00f5es, exige e acabou-se<\/em>\u00bb. N\u00e3o fosse eu ser est\u00fapido, explicou melhor:<\/p>\n<p>\u00ab<em>N\u00e3o te quero fazer mal, mas isto \u00e9 um assalto. O que vais fazer?<\/em>\u00bb.<\/p>\n<p>\u00abBom, se me assaltas, tenho de chamar a pol\u00edcia.\u00bb<\/p>\n<p>\u00ab<em>Mas enquanto a pol\u00edcia n\u00e3o chega, pode acontecer muita coisa\u2026<\/em>\u00bb<\/p>\n<p>O tom educado manteve-se, bem como a esp\u00e9cie de semi-v\u00e9nia a cada exig\u00eancia.<\/p>\n<p>\u00abPois \u00e9. Temos de ver como isto corre&#8230;\u00bb<\/p>\n<p>Um sil\u00eancio desconfort\u00e1vel instalou-se naquela conversa de fresta de janela. O assalto r\u00e1pido estava a demorar demasiado tempo.<\/p>\n<p>Tenho por h\u00e1bito guardar as notas pequenas dos trocos no cinzeiro do carro. D\u00e3o jeito para as compras na rua e n\u00e3o preciso de andar a tirar a carteira do bolso. Tirei um molho grande dessas notas e disse-lhe que lhas podia dar. Ao ver tanta nota azul e vermelha, reclamou que era pouco. \u00ab<em>Procura na carteira, eu sei que me vais ajudar!<\/em>\u00bb. Tirar a carteira era a \u00faltima coisa que faria.<\/p>\n<p>Pus-lhe as notas na ponta dos dedos e repeti \u00abSe quiseres, levas isto, que \u00e9 o melhor que tenho\u00bb. Recusou \u00ab<em>N\u00e3o, isso \u00e9 pouco. V\u00ea na carteira. Dois ou tr\u00eas paus chegam!<\/em>\u00bb. Voltei a guardar as notas. Fechei o cinzeiro e repeti \u00abEste \u00e9 o dinheiro que tenho. Se n\u00e3o o queres, n\u00e3o h\u00e1 problema. Assim n\u00e3o posso ser teu amigo.\u00bb Como a minha m\u00e3o passava pela fresta, pu-la do lado de fora a apertei a dele, em jeito de despedida. Os carros mais \u00e0 frente avan\u00e7aram uns metros.<\/p>\n<p>\u00ab<em>Pronto, pode ser.<\/em>\u00bb<\/p>\n<p>Voltei a tirar o molho de notas. Dei-lhas e avancei. Ele afastou-se, cabisbaixo, a contar cinquenta Kwanzas em notas de cinco. No bolso esquerdo levava algo pesado, talvez uma pedra. As coisas n\u00e3o tinham corrido exactamente como esperava.<\/p>\n<p>Sempre disse que ser assaltado em Luanda era uma quest\u00e3o de <em>quando<\/em> e n\u00e3o de <em>se<\/em>, mas este foi t\u00e3o surreal que nem sei se o conte como assalto. O inevit\u00e1vel acontece, mas este foi muito educado.<\/p>\n<p>Cheguei a casa e s\u00f3 tinha vontade de rir. Em Luanda regateia-se com os assaltantes!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Num daqueles exasperantes engarrafamentos da Mutamba, que quase parecem um carrossel avariado em torno do Minist\u00e9rio das Finan\u00e7as, aconteceu o que j\u00e1 sabia ser inevit\u00e1vel. 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