{"id":2795,"date":"2009-07-25T00:00:00","date_gmt":"2009-07-24T23:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/?p=2795"},"modified":"2009-07-04T21:32:57","modified_gmt":"2009-07-04T20:32:57","slug":"falta-menos-um-dia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/falta-menos-um-dia\/","title":{"rendered":"Falta menos um dia"},"content":{"rendered":"<p>Ser emigrante \u00e9 mau. N\u00e3o h\u00e1 volta a dar.<\/p>\n<p>Por uma raz\u00e3o ou por outra, o que procuramos n\u00e3o existe na terra onde crescemos e onde temos as nossas refer\u00eancias. Com todos os defeitos que tem, n\u00e3o deixa de ser o s\u00edtio onde nos sentimos melhor. Um dia descobrimos que o sonho dos nossos pais de uma vida melhor para os filhos, sem a emigra\u00e7\u00e3o que marcou a gera\u00e7\u00e3o dos av\u00f3s, est\u00e1 cada vez mais longe.<\/p>\n<p>Em muitos aspectos, tenho uma vida infinitamente melhor que a dos meus pais, sem tantos sacrif\u00edcios e priva\u00e7\u00f5es. Mas nem tudo s\u00e3o rosas. Talvez por termos expectativas mais elevadas ou porque a sociedade assim o obriga, \u00e9 cada vez mais dif\u00edcil come\u00e7ar a vida. H\u00e1 duas gera\u00e7\u00f5es, seria inconceb\u00edvel viver em casa dos pais com trinta anos. Actualmente, \u00e9 habitual.<\/p>\n<p>Seguindo o exemplo de tantos outros, emigrei. Em Angola usa-se o eufemismo de expatriado. Vim fazer coisas que h\u00e1 muito est\u00e3o feitas em Portugal e n\u00e3o escondo que vim ganhar mais do que ganharia l\u00e1. Para n\u00edveis de Angola, talvez ganhe uma obscenidade, mas antes que me acusem de explorador, aviso desde j\u00e1 que n\u00e3o h\u00e1 muitos na minha \u00e1rea. A lei do mercado funciona e, quando a oferta \u00e9 pequena, o pre\u00e7o sobe. Parte das minhas fun\u00e7\u00f5es \u00e9 formar um quadro angolano para me substituir no final do contrato. Creio que \u00e9 uma contrapartida mais que justa.<\/p>\n<p>O pior da vida de emigrante \u00e9 a dist\u00e2ncia \u00e0 fam\u00edlia. Todos os que amamos ficam para tr\u00e1s e os dias custam a passar. O alento de que se prepara um futuro melhor gra\u00e7as ao sacrif\u00edcio nem sempre \u00e9 capaz de afastar as <a href=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/?p=702\" target=\"_blank\">d\u00favidas<\/a> ou o des\u00e2nimo. As pequenas coisas que tom\u00e1vamos como garantidas est\u00e3o a meio mundo de dist\u00e2ncia e at\u00e9 mesmo os gestos que automatiz\u00e1mos durante toda a vida est\u00e3o desajustados. Um ano depois de chegar a Angola e ainda acordo a estranhar a cama\u2026<\/p>\n<p>E o tempo, apesar de andar a velocidades estranhas neste hemisf\u00e9rio, com as Sextas a surgir logo a seguir \u00e0s Ter\u00e7as, parece que nunca mais passa. Os poucos meses que faltam para o regresso come\u00e7am a ser medidos em semanas e depois dias, fazendo n\u00fameros que decrescem cada vez mais devagar. Nas pausas do trabalho, n\u00e3o temos como evit\u00e1-lo, pensamos em tudo quanto n\u00e3o estamos a viver, nas m\u00e3os \u00e0 volta da cintura, no passo certo a pensar no tango, dos olhares silenciosos que trocamos e agora reduzidos a uma imagem desfocada no ecr\u00e3. Vamo-nos iludindo, dizendo que falta menos um dia para o regresso. \u00c0s vezes achamos que foi apenas mais um dia longe\u2026<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ser emigrante \u00e9 mau. N\u00e3o h\u00e1 volta a dar. 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