{"id":2806,"date":"2009-07-31T00:00:00","date_gmt":"2009-07-30T23:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/?p=2806"},"modified":"2009-07-31T00:00:00","modified_gmt":"2009-07-30T23:00:00","slug":"17-05-70","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/17-05-70\/","title":{"rendered":"17-05-70"},"content":{"rendered":"<p>M.D. nasceu em Vila Salazar, mais ou menos por volta da altura em que a guerra colonial come\u00e7ou. Cresceu, provavelmente, com os militares portugueses estacionados na vila e, em Maio de 1970, ainda mi\u00fado, tatuou a caveira e as t\u00edbias dos comandos no antebra\u00e7o direito.<\/p>\n<p>Com a independ\u00eancia, a terra onde nasceu e cresceu voltou a chamar-se N\u2019Dalatando, esquecendo o nome que homenageava o Presidente do Conselho do Puto. Com esta mudan\u00e7a veio tamb\u00e9m a guerra civil e a mobiliza\u00e7\u00e3o para as Fapla. Os quatro anos seguintes, ainda quase crian\u00e7a, passou-os no Sul, repartidos entre a paz de Mo\u00e7amedes e as batalhas perto da fronteira do Ruacan\u00e1 e Virei. N\u00e3o se envergonha de preferir os tempos passados no forte de Mo\u00e7amedes, longe dos tiros.<\/p>\n<p>Depois de desmobilizado, regressou ao Kwanza Norte sem saber muito bem o que fazer da vida. As f\u00e1bricas come\u00e7aram a fechar alguns anos antes e havia poucos empregos. Durante algum tempo trabalhou na f\u00e1brica de vinho do Dondo, a alguns quil\u00f3metros de casa, mas tamb\u00e9m essa acabou por fechar. Diz que vai voltar a funcionar, talvez com uvas do Namibe, a terra dos anos de tropa que recorda tamb\u00e9m pelas vinhas.<\/p>\n<p>Desempregado, regressou \u00e0 terra e tornou-se lavrador para sobreviver. N\u2019Dalatando, a cidade-jardim, durante o tempo em que esteve ocupada pela Unita, foi-se degradando aos poucos. A guerra n\u00e3o se prestava a esfor\u00e7os de conserva\u00e7\u00e3o. Depois da paz tem melhorado, acrescenta. Agora est\u00e1 velho e resignado, mas continua a ter de trabalhar a terra com outros velhos resignados.<\/p>\n<p>Veio a Luanda pela primeira vez em muitos anos com mais tr\u00eas vizinhos. Viajaram de ambul\u00e2ncia, direitos ao Hospital Maria Pia, sem grande esperan\u00e7a de regressar. Alguns meses depois, s\u00f3 dois ainda faziam parte do mundo dos vivos e ele o \u00fanico capaz de andar, uma vez que o outro sobrevivente viu as pernas amputadas acima do joelho.<\/p>\n<p>\u00c0 sa\u00edda do hospital, descendo a Avenida do Primeiro Congresso do MPLA em direc\u00e7\u00e3o \u00e0 Mutamba, onde apanharia o <em>machimbombo<\/em> para regressar a casa, foi assaltado por uns mi\u00fados. Levaram-lhe os 2\u2019000 Kz que tinha para comprar o bilhete. Maldiz a cidade, repetindo \u00ab<em>Isto \u00e9 que \u00e9 Luanda, onde os mi\u00fados roubam os velhos? Isto \u00e9 que \u00e9 Luanda?<\/em>\u00bb. L\u00e1 no Kwanza Norte \u00e9 igual, os velhos trabalham a terra mas os rapazes s\u00f3 querem roubar ou andar de mota.<\/p>\n<p>N\u00e3o fossem demasiados anos de l\u00e1grimas gastas em amarguras piores, a voz solu\u00e7ante com que criticava a capital teriam sido acompanhadas de dois fios salgados na cara enrugada. Por momentos, julguei ver o menino que tatuou a caveira no bra\u00e7o \u00e0 procura de amparo.<\/p>\n<p>Ser\u00e1 que este menino faz parte das <a href=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/?p=2410\" target=\"_blank\">mem\u00f3rias dos outros<\/a>?<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>M.D. nasceu em Vila Salazar, mais ou menos por volta da altura em que a guerra colonial come\u00e7ou. Cresceu, provavelmente, com os militares portugueses estacionados na vila e, em Maio de 1970, ainda mi\u00fado, tatuou a caveira e as t\u00edbias dos comandos no antebra\u00e7o direito. 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