{"id":2839,"date":"2009-07-30T00:00:00","date_gmt":"2009-07-29T23:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/?p=2839"},"modified":"2009-07-12T00:17:34","modified_gmt":"2009-07-11T23:17:34","slug":"a-mente-no-deserto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/a-mente-no-deserto\/","title":{"rendered":"O sil\u00eancio do deserto"},"content":{"rendered":"<p>Ap\u00f3s um ano de Angola, n\u00e3o posso dizer que estranhe as falhas de luz. Na verdade, depressa nos habituamos a conviver com elas, adaptando as nossas rotinas de forma a incluir actividades alternativas. \u00c9 a prova de que podemos viver perfeitamente sem muitos dos luxos que s\u00e3o tidos como essenciais no mundo moderno.<\/p>\n<p>Numa manh\u00e3 pregui\u00e7osa de Domingo, poucos carros circulam na baixa de Luanda. Sem electricidade, gerador, \u00e1gua ou internet, o mundo torna-se silencioso. As m\u00e1quinas de ar condicionado n\u00e3o trabalham. A bomba de \u00e1gua n\u00e3o arranca com um sobressalto. O zumbido dos frigor\u00edficos desaparece.<\/p>\n<p>Nestas alturas, todo o bul\u00edcio do costume, que nos entorpece os sentidos, tem de ser compensado de outra forma qualquer. Quando n\u00e3o h\u00e1 ru\u00eddo para o manter ocupado, o c\u00e9rebro inventa novas maneiras de n\u00e3o ser in\u00fatil. Pensamos mais. Reflectimos acerca de coisas pouco usuais e descobrimos que a tecnologia moderna tem o cond\u00e3o de nos estupidificar, de nos adormecer num mar de conforto e facilidade. Os est\u00edmulos permanentes fazem-nos dispersar por demasiadas coisas ao mesmo tempo, quase todas sup\u00e9rfluas. O luxo embrutece.<\/p>\n<p>N\u00e3o me surpreende que tr\u00eas religi\u00f5es importantes tenham nascido algures nas areias dos desertos \u00e1rabes. A paisagem mon\u00f3tona e uma quase aus\u00eancia de luxos deixava muito tempo para reflectir no mist\u00e9rio da vida, na ess\u00eancia da alma ou outras coisas menos mundanas.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" style=\"border-right-width: 0px; display: inline; border-top-width: 0px; border-bottom-width: 0px; border-left-width: 0px\" title=\"Vitral da igreja do Caxito\" border=\"0\" alt=\"Vitral da igreja do Caxito\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2009\/07\/caxito2.jpg\" width=\"355\" height=\"534\" \/>     <br \/>Mist\u00e9rio da f\u00e9<\/p>\n<p>Dou por mim a reflectir, n\u00e3o nos mist\u00e9rios da f\u00e9, mas na depend\u00eancia que temos de coisas desnecess\u00e1rias. Apercebo-me que sentia falta do sil\u00eancio. \u00c9 uma sensa\u00e7\u00e3o compar\u00e1vel \u00e0 que temos quando vamos para fora das grandes cidades contemplar o c\u00e9u. Os c\u00e9us estrelados que nos fascinam deixam-nos apreensivos porque n\u00e3o compreendemos como \u00e9 poss\u00edvel viver sem os contemplar todos os dias.<\/p>\n<p>Volto a pensar nos \u00e1rabes, que ocupavam parte do sil\u00eancio conversando, contando hist\u00f3rias e discutindo coisas que definiram novas teologias. Em vez de assistir, passivamente, ao programa de televis\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 muito mais interessante participar numa conversa ao ser\u00e3o? As hist\u00f3rias n\u00e3o s\u00e3o contadas apenas pelo contador. O p\u00fablico imagina como foi, vive-as, faz perguntas e contar\u00e1 a sua vers\u00e3o mais tarde. C\u00e1 por casa j\u00e1 houve uns ser\u00f5es de ins\u00f3nia com pol\u00edtica, anedotas e hist\u00f3rias contadas \u00e0s escuras no sof\u00e1 da sala.<\/p>\n<p>Manh\u00e3 pregui\u00e7osa que se tornou tarde pregui\u00e7osa, cheia de pensamentos novos e de um sil\u00eancio delicioso <strong><font size=\"4\">\u00ab<em>BROP-P\u00c1-P\u00c1-P\u00c1! BROP-BROP!<\/em>\u00bb<\/font><\/strong><\/p>\n<p>E pronto, o cabr\u00e3o da mota tinha de resolver ir afinar o motor para debaixo da janela! Acabou-se o sossego\u2026<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ap\u00f3s um ano de Angola, n\u00e3o posso dizer que estranhe as falhas de luz. Na verdade, depressa nos habituamos a conviver com elas, adaptando as nossas rotinas de forma a incluir actividades alternativas. \u00c9 a prova de que podemos viver perfeitamente sem muitos dos luxos que s\u00e3o tidos como essenciais no mundo moderno. 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