{"id":298,"date":"2008-07-23T00:00:47","date_gmt":"2008-07-22T23:00:47","guid":{"rendered":"http:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/?p=298"},"modified":"2009-12-01T13:26:56","modified_gmt":"2009-12-01T12:26:56","slug":"noite","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/noite\/","title":{"rendered":"Noite"},"content":{"rendered":"<p>As noites \u00e0s vezes s\u00e3o complicadas. A vontade que temos de dormir n\u00e3o est\u00e1 em sintonia com alguns esp\u00edritos mais foli\u00f5es que resolvem gritar serenatas \u00e0 minha janela, ou partir garrafas de cerveja no p\u00e1tio em frente a altas horas da madrugada. Temos tido a sensa\u00e7\u00e3o de que as noites s\u00e3o muito curtas. Acordamos com o tal ar de zombie e com a cara cheia de vincos.<\/p>\n<p>Depois de estudarmos o problema, descobrimos que a quest\u00e3o n\u00e3o assenta propriamente na dura\u00e7\u00e3o da noite. O amanhecer \u00e9 que chega estupidamente cedo, a uma hora que n\u00e3o lembra a ningu\u00e9m.<\/p>\n<p>Tem sido de tal forma, que j\u00e1 houve um dia em que sonhei que dormia\u2026<\/p>\n<p>Adiante.<\/p>\n<p>Esta noite at\u00e9 estava a come\u00e7ar bem. Deitei-me quando ainda n\u00e3o tinha come\u00e7ado o dia seguinte e esperavam-me umas sete horas de luta com a almofada. Tudo corria lindamente. Uma hora depois os seguran\u00e7as do pr\u00e9dio resolvem abrir, \u00e0 bordoada e pontap\u00e9, uma porta met\u00e1lica perra\u2026 Estava dif\u00edcil mex\u00ea-la, pelo que posso concluir que tamb\u00e9m ela dormia profundamente.<\/p>\n<p>E isto leva-me a falar da noite luandense, que foi uma experi\u00eancia nova, descoberta quase por acaso.<\/p>\n<p>No S\u00e1bado da \u00faltima Lua Cheia resolvi ir ver um p\u00f4r-do-Sol l\u00e1 para os lados do Mussulo. J\u00e1 estou h\u00e1 tanto tempo em Angola e ainda n\u00e3o tinha tido a oportunidade de apreciar um dos famosos entardeceres africanos.<\/p>\n<p>Como \u00e9 a \u00e9poca dos cacimbos, n\u00e3o h\u00e1 um verdadeiro p\u00f4r-do-Sol. H\u00e1 uma bola amarela que vai descendo e ficando cada vez mais laranja. Quando est\u00e1 quase a chegar ao horizonte, desaparece na neblina.<\/p>\n<p>\u00c9 um verdadeiro anti-cl\u00edmax\u2026<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2008\/07\/072108-2050-noite1.jpg\" alt=\"\" \/><br \/>\n30 segundos de intervalo. Depois desapareceu sem tocar no horizonte<\/p>\n<p>Depois foi o regresso a casa, a horas menos indicadas para andar na rua (segundo me disseram). Se na ida n\u00e3o demorei mais de 45 minutos a chegar ao Mussulo, o caminho de volta tomou-me mais de duas horas. Entre candongueiros avariados, obras intermin\u00e1veis e condu\u00e7\u00e3o agressiva, os engarrafamentos sucediam-se.<\/p>\n<p>Por causa de um qualquer acidente na Estrada da Corimba, que passa junto ao mar, tive de vir pelo meio do Bairro Rocha Pinto. J\u00e1 de dia n\u00e3o \u00e9 recomend\u00e1vel e de noite ganha um aspecto tenebroso. N\u00e3o fa\u00e7o ideia se \u00e9 mais perigoso ou n\u00e3o, mas o certo \u00e9 que o escuro esconde os perigos e real\u00e7a os receios. Nem tudo foi mau, porque pude assistir \u00e0 abertura dos mercados nocturnos.<\/p>\n<p>\u00c0 noite os mercados tamb\u00e9m funcionam. S\u00e3o abastecidos pelas vendedoras que n\u00e3o despacharam a mercadoria diurna e ainda n\u00e3o t\u00eam lucro suficiente para regressar, por aqueles que vendem \u00e0 porta de casa e pelos que cozinham para vendedores, clientes e candongueiros. A confus\u00e3o \u00e9 semelhante \u00e0 diurna, mas com um aspecto fantasmag\u00f3rico. Para vencer a escurid\u00e3o densa de Luanda, todas as bancas t\u00eam uma garrafa de cerveja ou lata velha com parafina a arder. Ver as bermas a bruxulear durante quil\u00f3metros \u00e9 algo de indescrit\u00edvel. Atr\u00e1s de cada chama surge uma cara distorcida pela luz laranja do fogo e o negro profundo da noite. Dois olhos esbugalhados surgem sobre um nariz brilhante e um sorriso aberto que grita o preg\u00e3o. Do breu surge uma m\u00e3o sem rosto, que se estende sobre as brasas de um grelhador feito com uma jante de autom\u00f3vel, vira o <em>cabrit\u00e9<\/em> e volta a desaparecer.<\/p>\n<p>Uma maior concentra\u00e7\u00e3o de pequenas chamas ondulantes indica zonas de tr\u00e2nsito mais lento ou cruzamentos importantes. Para quem vem ao volante significa mais uns minutos a passo de caracol. Os candongueiros continuam a entrar e a sair da estrada sem aviso ou cuidado e a \u00e2nsia de andar mais tr\u00eas metros que seja f\u00e1-los cortar a passagem a tudo e todos.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2008\/07\/072108-2050-noite2.jpg\" alt=\"\" \/><br \/>\nUm embondeiro ao p\u00f4r-do-Sol \u00e9 um excelente conversador<\/p>\n<p>Contrastando com o centro de Luanda, onde a noite \u00e9 sossegada, os arrabaldes vibram com tanta az\u00e1fama. Quase se diria que os mercados nocturnos s\u00e3o t\u00e3o vivos como os diurnos. N\u00e3o s\u00e3o t\u00e3o coloridos porque o lixo desaparece nas sombras. H\u00e1 vultos cansados que v\u00e3o aparecendo e desaparecendo na escurid\u00e3o, iluminados pela dan\u00e7a desencontrada dos far\u00f3is e das lamparinas. S\u00e3o os vendedores que ganham o dia no meio das filas de tr\u00e2nsito, que se juntam aos carregadores no regresso a casa, para descansar e retomarem na madrugada seguinte.<\/p>\n<p>Antes de me deitar ainda fui \u00e0 janela ver quem me chamava. E l\u00e1 estava ela!<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2008\/07\/072108-2050-noite3.jpg\" alt=\"\" \/><br \/>\nLinda, como sempre!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>As noites \u00e0s vezes s\u00e3o complicadas. A vontade que temos de dormir n\u00e3o est\u00e1 em sintonia com alguns esp\u00edritos mais foli\u00f5es que resolvem gritar serenatas \u00e0 minha janela, ou partir garrafas de cerveja no p\u00e1tio em frente a altas horas da madrugada. Temos tido a sensa\u00e7\u00e3o de que as noites s\u00e3o muito curtas. 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