{"id":3039,"date":"2009-08-06T00:00:00","date_gmt":"2009-08-05T23:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/?p=3039"},"modified":"2009-08-06T00:00:00","modified_gmt":"2009-08-05T23:00:00","slug":"o-sotaque-dos-gestos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/o-sotaque-dos-gestos\/","title":{"rendered":"O sotaque dos gestos"},"content":{"rendered":"<p>Para al\u00e9m das diferen\u00e7as \u00f3bvias entre os v\u00e1rios povos, quer sejam ao n\u00edvel da cor da pele, formato do nariz, cabe\u00e7a ou olhos e at\u00e9 mesmo a l\u00edngua com que comunicam entre si, h\u00e1 pormenores mais subtis que se v\u00e3o descobrindo serem mais importantes para definir a identidade de um povo que os outros, mais evidentes.<\/p>\n<p>Aprender uma l\u00edngua nova n\u00e3o \u00e9 das coisas mais dif\u00edceis do mundo. Desde que se queira exercitar o c\u00e9rebro, aprende-se o suficiente para comunicar, ainda que de forma um pouco hesitante, com outros povos. Com um pouco mais de trabalho, poderemos chegar mesmo a ser fluentes e, c\u00famulo do orgulho v\u00e3o, esconder o sotaque que nos denuncia a origem.<\/p>\n<p>Mas h\u00e1 coisas que s\u00f3 se aprendem quando vividas desde sempre. O banho cultural em que somos imersos \u00e0 nascen\u00e7a molda-nos os gestos e a mente muito antes de nos moldar a l\u00edngua. N\u00e3o h\u00e1 coisa mais rid\u00edcula que um ocidental convertido ao Budismo. Em teoria, poder\u00e1 saber tudo acerca do misticismo que rodeia a religi\u00e3o, mas, na verdade, falta-lhe toda a bagagem cultural que apenas se consegue nascendo e crescendo no seio do Budismo.<\/p>\n<p>As <em>gaffes<\/em> cometidas pelos estrangeiros s\u00e3o tanto mais embara\u00e7osas quanto o grau de conhecimento t\u00eam da cultura que os acolhe. Que se recuse um convite quando se devia aceitar ou que se troque o g\u00e9nero \u00e0s palavras \u00e9 de esperar de um rec\u00e9m-chegado, mas quando o estrangeiro residente usa o gesto errado, gera-se um mal-estar esquisito, porque ele j\u00e1 devia saber o suficiente para n\u00e3o o fazer. Os trocadilhos, os gestos das m\u00e3os, o movimento da cabe\u00e7a e as regras sociais s\u00e3o a segunda l\u00edngua que tamb\u00e9m tem de ser aprendida para que se consiga compreender os outros.<\/p>\n<p>Em Angola, apesar de se falar a mesma l\u00edngua que em Portugal, a linguagem corporal \u00e9 completamente diferente daquela com que cresci. Alguns gestos que tomamos por universais na Europa, aqui s\u00e3o quase de outro planeta. Para pedir boleia, por exemplo, ainda n\u00e3o vi ningu\u00e9m esticar o polegar. O gesto angolano consiste em levantar o bra\u00e7o \u00e0 altura da cara e, com o indicador esticado, desenhar pequenos c\u00edrculos apontando para o ch\u00e3o, como quem mexe uma pequena panela no ar.<\/p>\n<p>De norte a sul do pa\u00eds, mesmo entre os que apenas falam um das muitas l\u00ednguas nacionais, h\u00e1 uma s\u00e9rie de gestos que fazem parte do c\u00f3digo de emo\u00e7\u00f5es universal dos angolanos. Mesmo sem falar, conseguem perceber o estado de esp\u00edrito do outro.<\/p>\n<p>A prova de que a linguagem corporal \u00e9 mais forte que a l\u00edngua \u00e9 que perdura mais. As segundas gera\u00e7\u00f5es em cada pa\u00eds come\u00e7am por perder a l\u00edngua dos pais, mas a linguagem do corpo ainda se conserva na terceira gera\u00e7\u00e3o, sob a forma de pequenos gestos ou interjei\u00e7\u00f5es. \u00c9 curioso tentar adivinhar as origens de algu\u00e9m pelos seus gestos. \u00c9 quase como tentar identificar um sotaque, mas agora na l\u00edngua que o corpo fala.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Para al\u00e9m das diferen\u00e7as \u00f3bvias entre os v\u00e1rios povos, quer sejam ao n\u00edvel da cor da pele, formato do nariz, cabe\u00e7a ou olhos e at\u00e9 mesmo a l\u00edngua com que comunicam entre si, h\u00e1 pormenores mais subtis que se v\u00e3o descobrindo serem mais importantes para definir a identidade de um povo que os outros, mais [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[48,393,392,92],"class_list":["post-3039","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-angola","tag-cultura","tag-gestos","tag-lingua","tag-sotaques"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3039","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3039"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3039\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3039"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3039"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3039"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}