{"id":3132,"date":"2009-08-24T00:00:00","date_gmt":"2009-08-23T23:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/?p=3132"},"modified":"2009-08-17T20:00:21","modified_gmt":"2009-08-17T19:00:21","slug":"as-regras-oficiosas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/as-regras-oficiosas\/","title":{"rendered":"As regras oficiosas"},"content":{"rendered":"<p>Conduzir em Angola \u00e9 uma actividade de risco. Quase uma aventura, dir\u00e3o alguns. A grande maioria dos condutores n\u00e3o tem a m\u00ednima ideia do que anda a fazer, mas est\u00e1 convencido de que sim. Sabem como levar o carro de um lado para o outro, e pouco mais. Alguns conhecem apenas duas regras de tr\u00e2nsito, a <em>Eu primeiro<\/em> e a <em>Salve-se quem puder<\/em>. Nenhuma delas faz parte do c\u00f3digo de estrada pelo qual todos se deviam reger.<\/p>\n<p>Se dentro de Luanda as coisas j\u00e1 s\u00e3o ca\u00f3ticas porque a primeira regra dita que todos fiquem parados em filas intermin\u00e1veis, fora da cidade d\u00e1 azo a situa\u00e7\u00f5es muito mais perigosas.&#160; <\/p>\n<p>Depressa conclu\u00edmos que o trav\u00e3o \u00e9 apenas usado quando se pretende sair do carro. Durante o resto do tempo, apenas o acelerador \u00e9 usado, e muito.<\/p>\n<p>Se h\u00e1 um buraco grande na estrada e s\u00f3 passa um carro de cada vez, a solu\u00e7\u00e3o habitual consiste em acelerar ainda mais e ultrapassar o buraco antes do carro que segue em sentido contr\u00e1rio. Se o outro vier na sua m\u00e3o, que se desvie, afinal de contas, se chega depois, pela <a href=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/?p=2622\" target=\"_blank\">teoria angolana de resolu\u00e7\u00e3o de problemas<\/a>, o problema passa a ser dele. Infelizmente, assim que avistam o buraco, ambos aceleram o mais que podem, n\u00e3o v\u00e1 a estrada desaparecer depois do outro passar. N\u00e3o ser\u00e1 necess\u00e1rio referir que \u00e0s vezes n\u00e3o se desviam\u2026<\/p>\n<p>Na cidade, nos s\u00edtios onde s\u00f3 passa um carro e com pouca folga, h\u00e1 os condutores que insistem em passar em simult\u00e2neo, um pouco \u00e0 semelhan\u00e7a do caso acima. Espelhos partidos, chapa almogada ou choque frontal s\u00e3o os desfechos mais frequentes. Nenhum dos condutores equaciona sequer esperar que o outro passe antes de entrar no aperto.<\/p>\n<p>Chegamos \u00e0 conclus\u00e3o que o condutor m\u00e9dio angolanos se julga <a href=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/?p=2383\" target=\"_blank\">invulner\u00e1vel<\/a>, tais s\u00e3o as acrobacias a que se sujeita para cumprir a primeira regra do seu c\u00f3digo oficioso.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" style=\"border-right-width: 0px; display: inline; border-top-width: 0px; border-bottom-width: 0px; border-left-width: 0px\" title=\"O Senhor \u00e9 a nossa Luz e Salva\u00e7\u00e3o\" border=\"0\" alt=\"O Senhor \u00e9 a nossa Luz e Salva\u00e7\u00e3o\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2009\/08\/condutores1.jpg\" width=\"600\" height=\"400\" \/>    <br \/>Resumo do c\u00f3digo de estrada<\/p>\n<p>A segunda regra dita que as ultrapassagens sejam feitas em todo e qualquer lugar ou situa\u00e7\u00e3o, como curvas, lombas, tra\u00e7os cont\u00ednuos, com tr\u00e2nsito de frente, pela direita, pelo meio de outras ultrapassagens, com chuva, nevoeiro ou poeira e, mais raramente, em rectas com visibilidade e sem tr\u00e2nsito de frente.<\/p>\n<p>Se a fila estiver compacta, todos os expedientes valem para ganhar um ou dois lugares. Carrinhas azuis e brancas a circular nos taludes, quase a tombar ou com uma roda na berma e outra no passeio, s\u00e3o os exemplos mais normais do <em>Salve-se quem puder<\/em>, mas, se um atalho pelas areias da praia, permitir poupar uns minutos de tr\u00e2nsito, ent\u00e3o ser\u00e1 usado.<\/p>\n<p>Como ter um carro \u00e0 frente viola claramente a primeira regra, h\u00e1 que o passar, nem que seja recorrendo \u00e0 segunda. \u00c9 frequente ver os Starlet vermelhos a cair de velhos ultrapassar tr\u00eas cami\u00f5es de cada vez, ocupando toda a faixa contr\u00e1ria e ver os cami\u00f5es que circulam em sentido contr\u00e1rio a desviarem-se para a berma. Quanto mais se desviam, mas o carrito ocupa a faixa contr\u00e1ria, como que mostrando quem manda.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" style=\"border-right-width: 0px; display: inline; border-top-width: 0px; border-bottom-width: 0px; border-left-width: 0px\" title=\"Camioneta enfiada dentro de casa\" border=\"0\" alt=\"Camioneta enfiada dentro de casa\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2009\/08\/condutores2.jpg\" width=\"600\" height=\"400\" \/>    <br \/>A casa n\u00e3o se desviou, malandra<\/p>\n<p>Conduzir de noite \u00e9 outro desafio porque, se durante o dia, todos usam e abusam dos sinais de luzes para pedir passagem \u00e0 esquerda, o que \u00e9 uma coisa que me fazia muita confus\u00e3o at\u00e9 perceber que os piscas s\u00e3o usados para tudo menos para indicar as mudan\u00e7as de direc\u00e7\u00e3o, \u00e0 noite parece que \u00e9 tradi\u00e7\u00e3o andar de luzes apagadas. E de acelerador a fundo. E fora de m\u00e3o. No fundo, \u00e9 a segunda regra em todo o seu esplendor, tal como quando vemos gente a circular em sentido contr\u00e1rio nas ruas de sentido \u00fanico e ainda reclamam com os que circulam no sentido certo e \u00ab<em>que lhes est\u00e3o a complicar!<\/em>\u00bb.<\/p>\n<p>Em Luanda os acidentes com v\u00edtimas mortais s\u00e3o menos frequentes do que se temeria, um pouco porque o tr\u00e2nsito circula t\u00e3o devagar que os acidentes mais graves se resumem a chapas amassadas e farolins estalados. Mas \u00e9 f\u00e1cil reparar que, ao m\u00ednimo trecho de estrada livre, cada um acelera o mais que pode, para depois travar a fundo antes de bater no fim da fila seguinte, a cerca de cem metros de onde come\u00e7ou a corrida\u2026 \u00c0s vezes o jornal noticia que dois candongueiros chocaram de frente l\u00e1 para os lados do Cacuaco e a regra do <em>Eu primeiro<\/em> associada \u00e0 do <em>Salve-se quem puder<\/em> resultou em vinte mortos e dois feridos ligeiros \u2013 os condutores.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Conduzir em Angola \u00e9 uma actividade de risco. Quase uma aventura, dir\u00e3o alguns. A grande maioria dos condutores n\u00e3o tem a m\u00ednima ideia do que anda a fazer, mas est\u00e1 convencido de que sim. Sabem como levar o carro de um lado para o outro, e pouco mais. 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