{"id":3134,"date":"2009-08-17T00:00:00","date_gmt":"2009-08-16T23:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/?p=3134"},"modified":"2009-08-18T20:02:03","modified_gmt":"2009-08-18T19:02:03","slug":"os-judeus-de-angola","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/os-judeus-de-angola\/","title":{"rendered":"Os &ldquo;judeus&rdquo; de Angola"},"content":{"rendered":"<p>Durante s\u00e9culos, os judeus na Europa foram perseguidos, enfiados em guetos e explorados. A qualquer momento, apenas por serem judeus, poderiam ser expulsos e ver a sua vida de pernas para o ar. No entanto, ao inv\u00e9s de desaparecerem, fizeram das fraquezas for\u00e7as e prosperaram.<\/p>\n<p>Por serem judeus, descendentes de outros judeus que, reza a hist\u00f3ria, entregaram outro judeu aos romanos, tornaram-se os bodes expiat\u00f3rios perfeitos. Todos os males do mundo tinham origem neles. No entanto, foram elementos fundamentais de todas as sociedades europeias. Uma das limita\u00e7\u00f5es que lhes era imposta era a da propriedade. Os judeus n\u00e3o podiam ter terras ou casas. E mesmo nas sociedades onde esta proibi\u00e7\u00e3o n\u00e3o era expl\u00edcita, a qualquer momento poderiam ver as suas coisas confiscadas.<\/p>\n<p>Uma vez que n\u00e3o podiam ganhar a vida como agricultores, ferreiros ou pescadores, dedicaram-se a of\u00edcios que coubessem dentro de uma caixa ou, melhor ainda, dentro da pr\u00f3pria cabe\u00e7a. Tornaram-se artes\u00e3os cobi\u00e7ados em todo o mundo. a qualquer momento, mesmo que perdessem toda a riqueza material, poderiam come\u00e7ar de novo, porque a arte que tinham levado uma vida inteira a aprender, e transmitiriam aos filhos, seguia sempre com eles.<\/p>\n<p>Mec\u00e2nicos de instrumentos precis\u00e3o, cart\u00f3grafos, entalhadores ou lapidadores de diamantes eram profiss\u00f5es que requeriam uma vida inteira de aprendizagem, fora do alcance de quem se tentava aventurar pela primeira vez na mat\u00e9ria. A sua riqueza residia no dom\u00ednio de conceitos para al\u00e9m dos que se preocupavam apenas com a propriedade. Ainda hoje h\u00e1 resqu\u00edcios desta tradi\u00e7\u00e3o de of\u00edcios que passam de gera\u00e7\u00e3o em gera\u00e7\u00e3o nas fam\u00edlias judias, quando se fala de tarefas muito especializadas.<\/p>\n<p>O que tem este pedacinho de Hist\u00f3ria a ver com Angola? Bem mais do que parece, asseguro-o.<\/p>\n<p>H\u00e1 anos que se ouvem apelos para que se aumente o investimento estrangeiro em \u00c1frica. Angola faz o mesmo, pedindo que estrangeiros montem f\u00e1bricas, giram explora\u00e7\u00f5es agr\u00edcolas, criem empresas. Mas os estrangeiros n\u00e3o v\u00eam. Est\u00e3o receosos. E t\u00eam boas raz\u00f5es para isso. As mercadorias que todos os dias chegam ao Porto de Luanda foram todas pagas antes de embarcarem, fruto de grandes calotes no passado.<\/p>\n<p>A experi\u00eancia mostrou-lhes que o investimento em pa\u00edses africanos significa, quase sempre, enterrar enormes quantidades de dinheiro num projecto e, quando finalmente come\u00e7a a haver retorno, este \u00e9 nacionalizado, confiscado ou apenas roubado. No fundo, \u00e9 a situa\u00e7\u00e3o dos judeus durante a Idade M\u00e9dia.<\/p>\n<p>Em Angola, apesar de n\u00e3o ser requisito legal, \u00e9 obrigat\u00f3rio que haja s\u00f3cios angolanos no investimento estrangeiro. Sem eles, as portas fecham-se e o que paga em <em>gasosas<\/em> n\u00e3o compensa a parte dos lucros que se tem de pagar ao s\u00f3cio que s\u00f3 entrou com o nome.<\/p>\n<p>Os estrangeiros temem, por experi\u00eancias anteriores, que a qualquer convuls\u00e3o social ou pol\u00edtica, haja uma vaga de nacionaliza\u00e7\u00f5es que os fa\u00e7a perder tudo. Neste momento, em Angola, est\u00e3o a ficar receosos com a idade avan\u00e7ada do Jos\u00e9 Eduardo. As convuls\u00f5es da sucess\u00e3o podem significar nacionaliza\u00e7\u00f5es ou pior.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" style=\"border-bottom: 0px; border-left: 0px; display: inline; border-top: 0px; border-right: 0px\" title=\"F\u00e1brica Angolana de El\u00e1sticos e Passamanarias, Lda.\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2009\/08\/judeus.jpg\" border=\"0\" alt=\"F\u00e1brica Angolana de El\u00e1sticos e Passamanarias, Lda.\" width=\"600\" height=\"400\" \/><br \/>\nInvestimento abandonado<\/p>\n<p>Tal como os judeus na Europa, os estrangeiros em Angola s\u00e3o acusados de todos os males, de estarem a retirar trabalhos aos angolanos, de roubarem as riquezas do pa\u00eds, de explorarem o povo. A qualquer momento s\u00e3o amea\u00e7ados com ordens de expuls\u00e3o arbitr\u00e1rias ou confisco de propriedade. \u00c0s vezes, o s\u00f3cio angolano que investiu apenas o nome passa a ser o \u00fanico s\u00f3cio, sem adquirir as quotas correspondentes\u2026<\/p>\n<p>Os estrangeiros passaram a investir principalmente com aquilo que n\u00e3o se lhes pode tirar dos bolsos \u2013 conhecimentos. Engenheiros, t\u00e9cnicos especializados, gestores, professores, m\u00e9dicos v\u00eam a Angola vender os seus conhecimentos e habilidades, seguros de que, se as coisas correrem mal, poder\u00e3o voltar para casa sem perder o investimento e a mercadoria.<\/p>\n<p>Felizmente que, com o fim da guerra, esta imagem est\u00e1 a ser menos frequente. Os t\u00e9cnicos angolanos come\u00e7am, finalmente a surgir. Pela lei da oferta e da procura, os estrangeiros ser\u00e3o cada vez menos necess\u00e1rios, primeiro para as tarefas b\u00e1sicas e depois para as outras.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Durante s\u00e9culos, os judeus na Europa foram perseguidos, enfiados em guetos e explorados. A qualquer momento, apenas por serem judeus, poderiam ser expulsos e ver a sua vida de pernas para o ar. No entanto, ao inv\u00e9s de desaparecerem, fizeram das fraquezas for\u00e7as e prosperaram. 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