{"id":3143,"date":"2009-08-22T00:00:00","date_gmt":"2009-08-21T23:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/?p=3143"},"modified":"2009-08-08T20:27:13","modified_gmt":"2009-08-08T19:27:13","slug":"olha-l-largas-plo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/olha-l-largas-plo\/","title":{"rendered":"Olha l&aacute;, largas p&ecirc;lo?"},"content":{"rendered":"<p>Quando entrei em Angola, tinha comigo um passaporte. N\u00e3o era especialmente bonito nem nada, nem sequer era meu, porque o Estado Portugu\u00eas s\u00f3 mo emprestou por uma d\u00e9cada. Mas no fundo, at\u00e9 gostava dele, nem que fosse porque tinha l\u00e1 a minha fotografia e os carimbos que marcaram o cruzar de muitas fronteiras\u2026 Veio substituir o outro, que tinha um n\u00famero com cinco algarismos iguais, quase como se fosse uma curiosidade.<\/p>\n<p>Por causa de Angola, tive de me separar dele tr\u00eas vezes, situa\u00e7\u00e3o inusitada e que \u00e9 capaz de violar o acordo que assinei dizendo que nunca o deixaria fora da minha vista, sob pena de ter o Estado a dizer que me estava a portar mal.<\/p>\n<p>A primeira separa\u00e7\u00e3o foi para a obten\u00e7\u00e3o do primeiro visto. Durante duas semanas andou no processo da <em>agiliza\u00e7\u00e3o<\/em> l\u00e1 no Consulado da Rep\u00fablica de Angola em Lisboa \u2013 aten\u00e7\u00e3o ao nome, se estiver mal endere\u00e7ado, o processo \u00e9 recusado! Devolveram-mo com o visto a ocupar uma p\u00e1gina inteira.\u00a0Na primeira carimbadela angolana, ainda no aeroporto, fui presenteado com o habitual ar desconfiado do funcion\u00e1rio que n\u00e3o confia nos pr\u00f3prios servi\u00e7os consulares do pa\u00eds.<\/p>\n<p>Umas semanas depois, para receber o visto com super-poderes, que me conferia o direito a respirar o ar angolano por um ano inteirinho, voltei a deixar o livrinho castanho com a ilustra\u00e7\u00e3o dos Lus\u00edadas fugir-me da vista. Longos dias passou ele nas masmorras da DEFA, suponho que a p\u00e3o e \u00e1gua e alguma porrada. Regressou magrinho e combalido, com umas esfoladelas na capa. L\u00e1 dentro, mais uma p\u00e1gina ocupada com o autocolante do visto, agora com uma fotografia e tudo.<\/p>\n<p>Mais umas carimbadelas de entrada e sa\u00edda, quase sempre t\u00e3o sumidas que fazem um bom exerc\u00edcio de decifra\u00e7\u00e3o de datas e postos fronteiri\u00e7os, marcaram um ano de uso. Passou at\u00e9 pela mudan\u00e7a do sistema inform\u00e1tico no aeroporto trouxe menos aten\u00e7\u00e3o ao controlo do passaporte e muito mais complica\u00e7\u00e3o na hora de carregar nas teclas do computador, quase sempre a morder a l\u00edngua no canto da boca\u2026<\/p>\n<p>A terceira separa\u00e7\u00e3o come\u00e7ou quase um m\u00eas antes de expirar o visto e tem-se prolongado para al\u00e9m do razo\u00e1vel. Desde que entrou na DEFA, que nunca mais o viram. Dois meses, daqui a nada. Em troca recebi um papelito com um ar semi-oficial, sem carimbos ou assinaturas, que ser\u00e1 contestado pelo primeiro fiscal de estrangeiros que lhe puser as m\u00e3os em cima, alegando ser falso, feio ou fazer uma sede <a href=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/?p=1187\" target=\"_blank\">desgra\u00e7ada<\/a>\u2026<\/p>\n<p>Depois de ouvir algumas hist\u00f3rias de passaportes que desaparecem naquela casa e s\u00e3o encontrados, meses depois, a servir de cal\u00e7os a mesas mancas, j\u00e1 estou por tudo. A minha teoria \u00e9 a de que faltou papel na casa de banho e algu\u00e9m usou o que tinha mais \u00e0 m\u00e3o; um pouco como a hist\u00f3ria do urso e do coelhinho que deu o t\u00edtulo a este artigo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quando entrei em Angola, tinha comigo um passaporte. N\u00e3o era especialmente bonito nem nada, nem sequer era meu, porque o Estado Portugu\u00eas s\u00f3 mo emprestou por uma d\u00e9cada. 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