{"id":3149,"date":"2009-08-23T00:00:00","date_gmt":"2009-08-22T23:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/?p=3149"},"modified":"2009-08-23T00:00:00","modified_gmt":"2009-08-22T23:00:00","slug":"terceiro-acto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/terceiro-acto\/","title":{"rendered":"Terceiro acto"},"content":{"rendered":"<p>O pr\u00f3logo do \u00faltimo acto da trag\u00e9dia \u00e9 apenas o choro da m\u00e3e que n\u00e3o quer deixar a sua casa. Sentada na soleira da porta, olhando para a rua que j\u00e1 n\u00e3o existe, reclama que foi ali que cresceu. As vizinhas, mais conformadas, dizem-lhe que \u00e9 inevit\u00e1vel, que tem de se resignar, que a vida dos pequenos \u00e9 assim mesmo. O pano desce.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" style=\"border-bottom: 0px; border-left: 0px; display: inline; border-top: 0px; border-right: 0px\" title=\"\u00daltima casa da Travessa da Mutamba\" border=\"0\" alt=\"\u00daltima casa da Travessa da Mutamba\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2009\/08\/Mutamba302.jpg\" width=\"400\" height=\"600\" \/>&#160; <br \/>A soleira do pr\u00f3logo<\/p>\n<p>Ao longo dos \u00faltimos meses, os dois primeiros actos da trag\u00e9dia da <a href=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/?p=2361\" target=\"_blank\">Travessa da Mutamba<\/a> foram-se desenrolando com a aparente inevitabilidade que rodeia as obras em Luanda. Aos poucos, as paredes foram sendo <a href=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/?p=2642\" target=\"_blank\">derrubadas<\/a>, preparando o terreno para mais um sinal de <a href=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/?p=2505\" target=\"_blank\">modernidade<\/a>.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" style=\"border-bottom: 0px; border-left: 0px; display: inline; border-top: 0px; border-right: 0px\" title=\"Ru\u00ednas do restaurante da esquina\" border=\"0\" alt=\"Ru\u00ednas do restaurante da esquina\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2009\/08\/Mutamba304.jpg\" width=\"600\" height=\"400\" \/>    <br \/>A demoli\u00e7\u00e3o passo-a-passo<\/p>\n<p>Abre num novo dia, por sinal um Domingo de Cacimbo que acordou pregui\u00e7oso. A cidade ainda est\u00e1 silenciosa e as ruas vazias. Os poucos haveres de tr\u00eas fam\u00edlias s\u00e3o carregados quase sem barulho no balde de um cami\u00e3o de transporte de terras. Duas escavadoras vermelhas inertes sobre um mar revolto de entulho preenchem o cen\u00e1rio.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" style=\"border-bottom: 0px; border-left: 0px; display: inline; border-top: 0px; border-right: 0px\" title=\"1931\" border=\"0\" alt=\"1931\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2009\/08\/mutamba301.jpg\" width=\"600\" height=\"400\" \/>    <br \/>Data de nascimento<\/p>\n<p>Aos haveres juntam-se as pessoas. O cami\u00e3o parte, em direc\u00e7\u00e3o a Viana. Alguns olham para tr\u00e1s, de cora\u00e7\u00e3o apertado, vendo a casa desaparecer ao virar da esquina. Outros sentam-se de costas, com os olhos inchados, revivendo mem\u00f3rias.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" style=\"border-bottom: 0px; border-left: 0px; display: inline; border-top: 0px; border-right: 0px\" title=\"Publicidade antiga da Pepsi-Cola\" border=\"0\" alt=\"Publicidade antiga da Pepsi-Cola\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2009\/08\/Mutamba303.jpg\" width=\"600\" height=\"400\" \/>    <br \/>Mem\u00f3rias esbatidas<\/p>\n<p>O Sol surge no c\u00e9u, furando o v\u00e9u de cacimbo que o escondeu at\u00e9 tarde. O cami\u00e3o regressou vazio. Despejou a sua carga de gente e vidas como se mais uma carga de entulho fosse. Espera agora que o encham de novo, com o entulho em que as escavadoras transformaram as \u00faltimas quatro paredes que resistiam na travessa mal-amada.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" style=\"border-bottom: 0px; border-left: 0px; display: inline; border-top: 0px; border-right: 0px\" title=\"Terreno cheio de entulho\" border=\"0\" alt=\"Terreno cheio de entulho\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2009\/08\/Mutamba305.jpg\" width=\"600\" height=\"400\" \/>    <br \/>Fim da mem\u00f3ria<\/p>\n<p>A obra tr\u00e1gica inspirada nos \u00faltimos dias da Travessa da Mutamba chega ao fim. Cabe agora a vez \u00e0s escavadoras de limpar o cen\u00e1rio. Sobrar\u00e3o as mem\u00f3rias dos que l\u00e1 passaram ou viveram.<\/p>\n<p>Agora resta esperar pela obra que se segue. As apostas para o n\u00famero de andares j\u00e1 est\u00e3o abertas, mas todos suspeitam que sejam muitos. Nas fotografias acima, tiradas em todas as direc\u00e7\u00f5es em volta da travessa, est\u00e1 presente uma das torres da nova Luanda. A que aqui ir\u00e1 nascer n\u00e3o deve ser muito diferente.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O pr\u00f3logo do \u00faltimo acto da trag\u00e9dia \u00e9 apenas o choro da m\u00e3e que n\u00e3o quer deixar a sua casa. Sentada na soleira da porta, olhando para a rua que j\u00e1 n\u00e3o existe, reclama que foi ali que cresceu. 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