{"id":3270,"date":"2009-10-13T00:00:00","date_gmt":"2009-10-12T23:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/?p=3270"},"modified":"2009-09-19T15:19:11","modified_gmt":"2009-09-19T14:19:11","slug":"no-pronunciars-o-nome-da-defa-em-vo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/no-pronunciars-o-nome-da-defa-em-vo\/","title":{"rendered":"N\u00e3o pronunciar\u00e1s o nome da DEFA em v\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p>Os estrangeiros em Luanda est\u00e3o habituados a ouvir pronunciar com uma esp\u00e9cie de assombro e uns olhares por cima do ombro o nome da pol\u00edcia de estrangeiros. Poucos conseguem dizer a palavra sem baixar um pouco a voz ou fazer uma pausa comprometida e os outros dizem-na alto e bom som, mas disfar\u00e7am o calafrio que lhes percorre a espinha.<\/p>\n<p>Tal \u00e9 a rever\u00eancia prestada \u00e0 \u2013 olha em volta \u2013 <em>DEFA<\/em>, que a simples express\u00e3o \u00ab<em>vou \u00e0 DEFA<\/em>\u00bb nos faz logo imaginar uma visita a um edif\u00edcio austero e bem guardado onde teremos a sensa\u00e7\u00e3o de que mil olhos invis\u00edveis nos vigiam. No fundo, todos receiam ter de entrar na <em>Ant\u00f3nio Maria Cardoso<\/em>, sede de outra institui\u00e7\u00e3o cujo nome era pronunciado com o pesco\u00e7o encolhido, e j\u00e1 n\u00e3o sair.<\/p>\n<p>Confesso que n\u00e3o estava a achar piada nenhum ter de ir \u00e0 <em>DEFA<\/em>, e usei todos os pretextos para ir adiando. Quanto mais adiava, mais pequenas ficavam as janelas e mais armados ficavam os pol\u00edcias do edif\u00edcio que imaginava.<\/p>\n<p>Diziam-me que ficava algures para os lados da Fortaleza, mas n\u00e3o conseguia identificar nenhum edif\u00edcio que se parecesse remotamente com a imagem que formava. Entre o Pal\u00e1cio da Cidade Alta e a Fortaleza apenas existiam umas casas velhas e uns anexos de estilo provis\u00f3rio-definitivo com ar decr\u00e9pito. Cheguei a temer que a <em>DEFA<\/em> fosse subterr\u00e2nea e cheirasse a bafio. Pintei um quadro mental de corredores estreitos com as paredes escurecidas por milhares de corpos suados que se lhes encostaram, permanentemente iluminados por l\u00e2mpadas fluorescentes velhas, que enchem tudo com uma luz amarela tremeluzente.<\/p>\n<p>At\u00e9 que um dia fui l\u00e1.<\/p>\n<p>Primeiro, subi uma rampa \u00edngreme em direc\u00e7\u00e3o \u00e0 Cidade Alta, desviando-me dos rapazes das motas que se divertem a subir e descer a rua o dia inteiro. Para cima s\u00f3 na roda de tr\u00e1s e para baixo sem trav\u00f5es. Na esquina, um edif\u00edcio cujas entradas dizem todas serem reservadas a funcion\u00e1rios da <em>DEFA<\/em> prometia qualquer coisa. L\u00e1 em cima, \u00e0 esquerda h\u00e1 o controlo policial para entrar no Pal\u00e1cio, \u00e0 direita o acesso \u00e0 Fortaleza e, em frente, a cancela do que parece ser um parque de estacionamento com uns contentores mar\u00edtimos encostados a um canto.<\/p>\n<p>Perguntei a um militar de \u00f3culos escuros onde era a <em>DEFA<\/em>. Apontou-me para o tal parque de estacionamento. Junto da cancela, dois pol\u00edcias revezam-se a deixar entrar e sair dezenas de pessoas ou simplesmente a embirrar que t\u00eam de contornar um cone pela esquerda ou pela direita. Infelizmente, nunca est\u00e3o de acordo sobre qual o lado certo e mudam de opini\u00e3o frequentemente. Apanhei-os na altura em que discutiam um com o outro acerca de onde era a entrada. Entrei e fiquei boquiaberto. Aquele p\u00e1tio entre tr\u00eas paredes de contentores \u00e9 a <em>DEFA<\/em>!<\/p>\n<p>Uma d\u00fazia de contentores de vinte p\u00e9s transformados em escrit\u00f3rios forma um U comprido. O espa\u00e7o no meio est\u00e1 coberto com um telhado de chapa de zinco. Os bancos corridos aqui instalados s\u00e3o a sala de espera. Muita confus\u00e3o, muito barulho, muitas caras negras, algumas caras brancas e dois chineses. Das janelas numeradas saem m\u00e3os que acenam a algu\u00e9m na multid\u00e3o. Processos entram e saem por frestas entre vidro. Funcion\u00e1rios de farda azul chamam alto nomes e s\u00e3o interrompidos por algu\u00e9m que acabou de chegar e quer saber se j\u00e1 \u00e9 a vez dele. A restante multid\u00e3o reclama e grita para o rec\u00e9m-chegado \u00ab<em>Deixa o homem trabalhar! Sai da\u00ed!<\/em>\u00bb.<\/p>\n<p>Olho em volta e n\u00e3o acredito que isto seja a temida <em>DEFA<\/em>. Ao contr\u00e1rio de uma masmorra bafienta, o local \u00e9 arejado e iluminado. Bem vistas as coisas, \u00e9 ao ar livre, que \u00e9 coisa que nunca me teria passado pela cabe\u00e7a; e n\u00e3o \u00e9 muito diferente dos escrit\u00f3rios dos restantes fiscais da <em>DEFA<\/em> que pedem documentos na berma das estradas.<\/p>\n<p>Obviamente que isto \u00e9 s\u00f3 o atendimento. O trabalho a s\u00e9rio deve ser feito no edif\u00edcio da esquina e nesse ningu\u00e9m entra. Ou se entrar, j\u00e1 n\u00e3o sai!<\/p>\n<p>Suspeito que, da pr\u00f3xima vez que ouvir algu\u00e9m dizer <em>DEFA<\/em> com o ar enfiado de quem pecou ao invocar o seu nome em v\u00e3o, me d\u00ea vontade de sorrir. S\u00e3o piores os medos que imaginamos do que os que confrontamos\u2026<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Os estrangeiros em Luanda est\u00e3o habituados a ouvir pronunciar com uma esp\u00e9cie de assombro e uns olhares por cima do ombro o nome da pol\u00edcia de estrangeiros. 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