{"id":3301,"date":"2009-08-18T00:00:00","date_gmt":"2009-08-17T23:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/?p=3301"},"modified":"2009-08-18T20:01:41","modified_gmt":"2009-08-18T19:01:41","slug":"elis-regina-odeio-te","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/elis-regina-odeio-te\/","title":{"rendered":"Elis Regina, odeio-te!"},"content":{"rendered":"<p>Julgo que n\u00e3o estarei sozinho quando escolho a can\u00e7\u00e3o <em>\u00c1guas de Mar\u00e7o<\/em> como uma das minhas preferidas. A sua cad\u00eancia, quase chuva, recria uma atmosfera de sonho que nos remete para as brincadeiras de crian\u00e7a e tudo quanto nos marca para sempre. O espantoso poema e o mais que fabuloso dueto de Elis Regina e Tom Jobim fazem dela uma obra-prima.<\/p>\n<p>Os vizinhos do pr\u00e9dio da frente acharam por bem fazer uma festa no terra\u00e7o e, desta vez, para al\u00e9m das m\u00fasicas habituais que sacodem o esqueleto, surpreenderam-nos com <em>\u00c1guas de Mar\u00e7o<\/em>, quase comemorando o fim do Cacimbo. A noite musical n\u00e3o estava a ser grande coisa, mas deu-nos esperan\u00e7a de que melhorasse.<\/p>\n<p>Umas horas mais tarde, recome\u00e7aram os primeiros acordes, com aquelas duas notas quase desafinadas no piano. Por momentos, todos par\u00e1mos o que faz\u00edamos e apreci\u00e1mos o doce embalar da Bossanova que vinha das colunas roufenhas do lado de l\u00e1 da rua.<\/p>\n<p>N\u00e3o pude deixar de me lembrar de uma das chuvadas de Mar\u00e7o em Luanda, com as ruas transformadas em rios e <em>\u00e9 pau, \u00e9 pedra, \u00e9 um resto de toco, \u00e9 um caco de vidro<\/em>\u2026<\/p>\n<p>Mais tarde ainda, quando a noite de Domingo j\u00e1 se tinha transformado em madrugada de Segunda, a festa continuava. Um pouco mais calma, com muita m\u00fasica para dan\u00e7ar devagarinho, agarrado \u00e0 <em>dama<\/em>. Uma salutar melhoria em rela\u00e7\u00e3o ao habitual, temos de admitir, mas nada adequado \u00e0 necessidade de dormir.<\/p>\n<p>A certa altura, a Elis Regina regressou. O Tom Jobim tamb\u00e9m. Assim que acabou, recome\u00e7ou. E depois outra vez. E outra. E outra. A dada altura, a m\u00fasica ainda estava a meio quando algu\u00e9m a fazia recome\u00e7ar. Comecei a odiar aquela voz que me fala da vida,do Sol e da chuva chovendo. S\u00f3 conseguia pensar no carro engui\u00e7ado e na lama, na lama. E l\u00e1 vem a can\u00e7\u00e3o de novo.<\/p>\n<blockquote><p>\u00c9 pau, \u00e9 pedra,<br \/>\nQue me apetece<br \/>\nAtirar aos vizinhos<br \/>\nE \u00e0s colunas<br \/>\nPara ver<br \/>\nSe se calam\u2026<\/p><\/blockquote>\n<p>Ao fim de seis repeti\u00e7\u00f5es completas e outras tantas s\u00f3 pelo meio, conseguiram fazer a mesma m\u00fasica tocar quase uma hora seguida. Adormeci a odiar a Elis, o Tom, os seus ascendentes e descendentes at\u00e9 \u00e0 oitava gera\u00e7\u00e3o e ainda todos os que alguma vez ouviram falar na m\u00fasica.<\/p>\n<p>Passei o dia seguinte com a can\u00e7\u00e3o no ouvido, como seria de esperar\u2026<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Julgo que n\u00e3o estarei sozinho quando escolho a can\u00e7\u00e3o \u00c1guas de Mar\u00e7o como uma das minhas preferidas. A sua cad\u00eancia, quase chuva, recria uma atmosfera de sonho que nos remete para as brincadeiras de crian\u00e7a e tudo quanto nos marca para sempre. O espantoso poema e o mais que fabuloso dueto de Elis Regina e [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"footnotes":""},"categories":[1,14,360],"tags":[348,560,428,394],"class_list":["post-3301","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-angola","category-luanda","category-provincia-de-luanda","tag-barulho","tag-elis-regina-tom-jobim","tag-festas","tag-terracos"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3301","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3301"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3301\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3311,"href":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3301\/revisions\/3311"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3301"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3301"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3301"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}