{"id":3486,"date":"2009-09-27T00:00:00","date_gmt":"2009-09-26T23:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/?p=3486"},"modified":"2009-09-27T01:14:56","modified_gmt":"2009-09-27T00:14:56","slug":"o-cego-que-escuta-mulheres-bonitas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/o-cego-que-escuta-mulheres-bonitas\/","title":{"rendered":"O cego que escuta mulheres bonitas"},"content":{"rendered":"<p>Perto do Hotel Alvalade, h\u00e1 um restaurante concorrido, de clientela variada e pre\u00e7os que, apesar de subirem a cada meia-d\u00fazia de semanas, ainda conseguem fingir que s\u00e3o civilizados. O servi\u00e7o \u00e9 demorado, mas n\u00e3o mais que o habitual.<\/p>\n<p>A divis\u00e3o entre os que t\u00eam e os que n\u00e3o t\u00eam funciona da mesma forma em todo o <a href=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/?p=2145\" target=\"_blank\">lado<\/a>. No interior sentam-se os que podem pagar a refei\u00e7\u00e3o, no exterior passam os outros.<\/p>\n<p>A frente do restaurante desenvolvem-se neg\u00f3cios de lavagem e <em>controlo<\/em> de viaturas, bem como o original viveiro, com plantas vi\u00e7osas enfiadas em vasos de pl\u00e1stico. A \u00e1gua que escorre dos condensadores das m\u00e1quinas de ar condicionado do restaurante \u00e9 partilhada entre as plantas e a brigada de higiene autom\u00f3vel.<\/p>\n<p>Um grupo mais discreto e silencioso \u00e9 o dos pedintes que os seguran\u00e7as do restaurante mant\u00eam afastado do peda\u00e7o de passeio em frente \u00e0s vidra\u00e7as da sala de refei\u00e7\u00f5es. Mas a porta est\u00e1 quase na esquina e a\u00ed j\u00e1 \u00e9 territ\u00f3rio n\u00e3o controlado. Dois ou tr\u00eas t\u00eam lugar marcado entre os ardinas e os engraxadores de bainhas e meias.<\/p>\n<p>Um dos pedintes \u00e9 uma figura peculiar. Sempre de camisa azul e barba aparada, senta-se de lado, com uma canadiana muito enferrujada e velha entre as pernas, onde apoia o bra\u00e7o que usa para pedir uma esmola. Nunca o ouvimos dizer uma palavra e os \u00f3culos escuros colados \u00e0 cara fazem adivinhar cegueira. Um pedinte surdo, mudo e coxo merece mais a nossa aten\u00e7\u00e3o que os rapazes com duas pernas, dois bra\u00e7os e dois olhos que seguram paredes enquanto bebem cerveja e pedem dinheiro a quem passa\u2026<\/p>\n<p>Quem sobe os degraus depara-se sempre com esta figura silenciosa, de bon\u00e9 enterrado na cabe\u00e7a e bra\u00e7o na pega da muleta. Ao descer, reparamos que estica a m\u00e3o, procurando receber parte do troco da refei\u00e7\u00e3o. Dizem que tem bom ouvido e distingue quando se abre a porta para entrar ou para sair, pedindo apenas aos que saem. Dizem os mais ing\u00e9nuos que \u00e9 gra\u00e7as a este extraordin\u00e1rio ouvido que sabe esticar a m\u00e3o exactamente na direc\u00e7\u00e3o da nota que lhe estendem, nunca falhando o alvo. Sabem os mais avisados que \u00e9 este ouvido fant\u00e1stico que o faz virar a cabe\u00e7a quando passa uma mulher bonita!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Perto do Hotel Alvalade, h\u00e1 um restaurante concorrido, de clientela variada e pre\u00e7os que, apesar de subirem a cada meia-d\u00fazia de semanas, ainda conseguem fingir que s\u00e3o civilizados. O servi\u00e7o \u00e9 demorado, mas n\u00e3o mais que o habitual. 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