{"id":3500,"date":"2009-10-24T00:00:00","date_gmt":"2009-10-23T23:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/?p=3500"},"modified":"2009-09-24T00:15:57","modified_gmt":"2009-09-23T23:15:57","slug":"a-maldio-do-relgio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/a-maldio-do-relgio\/","title":{"rendered":"A maldi\u00e7\u00e3o do rel\u00f3gio"},"content":{"rendered":"<p>A certa altura na Hist\u00f3ria do Homem algu\u00e9m, provavelmente muito bem intencionado, teve a ideia peregrina de medir a quarta dimens\u00e3o. N\u00e3o lhe bastava s\u00f3 saber onde estava, queria tamb\u00e9m saber quando estava.<\/p>\n<p>A princ\u00edpio, a ideia trouxe benef\u00edcios interessantes. As esta\u00e7\u00f5es do ano podiam ser identificadas n\u00e3o s\u00f3 pelos sinais habituais, mas tamb\u00e9m por uma contagem independente. Para os agricultores, mesmo que as condi\u00e7\u00f5es n\u00e3o o prometessem, havia o conhecimento de qual a \u00e9poca apropriada para as sementeiras. Para os ca\u00e7adores, as migra\u00e7\u00f5es passavam a ser acontecimentos c\u00edclicos que n\u00e3o dependiam da aprendizagem individual de in\u00fameros sinais para serem previs\u00edveis.<\/p>\n<p>A curiosidade levou a ideia longe demais. Para al\u00e9m de usar o tempo para indicar acontecimentos futuros, come\u00e7ou-se tamb\u00e9m a aplicar as medidas aos acontecimentos passados, os quais s\u00e3o imposs\u00edveis de mudar. Depressa se come\u00e7ou a medir a dura\u00e7\u00e3o da vida e aquilo que sempre tinha sido uma sucess\u00e3o de dias intermin\u00e1vel, passou a ser um n\u00famero finito de anos e meses, que se escoam a um ritmo seguro, imperturb\u00e1veis.<\/p>\n<p>A no\u00e7\u00e3o de mortalidade, que j\u00e1 existia, sofreu uma promo\u00e7\u00e3o. Passou a ser uma meta que se atinge, mesmo contrariado. O tempo e a no\u00e7\u00e3o de mortalidade devem-se ter unido para criar a religi\u00e3o.<\/p>\n<p>O que mais me espanta \u00e9 que n\u00e3o temos inata esta no\u00e7\u00e3o de mortalidade a prazo. Esquecendo calend\u00e1rios e rel\u00f3gios, a cada dia que passa somos apenas n\u00f3s mesmos, mais experientes talvez, mas nunca muito diferentes do que \u00e9ramos na v\u00e9spera. Mesmo que nos digam que temos tantos anos, n\u00e3o acreditamos. Sentimo-nos insens\u00edveis a essa coisa da idade. Ainda n\u00e3o percebi a diferen\u00e7a intr\u00ednseca entre ter vinte anos ou ter trinta. Sei que sou uma pessoa diferente, mas n\u00e3o me sinto diferente. Talvez me assuste mais com o n\u00famero infind\u00e1vel de coisas que ainda quero fazer e com o conhecimento de que a meta n\u00e3o se compadece com os meus projectos.<\/p>\n<p>Nem costumo pensar nisto, mas, tal como dizia, \u00e9 preciso refer\u00eancias externas para que o calend\u00e1rio fa\u00e7a sentido. Hoje acordei a pensar que a minha mana est\u00e1 quase a fazer anos. Vinte e nove, para ser exacto. N\u00e3o me pareceram assim tantos e demorei uns segundos at\u00e9 me aperceber que eu tamb\u00e9m os tenho, e ainda mais alguns. O tempo passa depressa quando estamos desatentos\u2026<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" style=\"border-bottom: 0px; border-left: 0px; display: inline; border-top: 0px; border-right: 0px\" title=\"P\u00f4r-do-Sol em Luanda\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2009\/09\/calendario.jpg\" border=\"0\" alt=\"P\u00f4r-do-Sol em Luanda\" width=\"600\" height=\"400\" \/><br \/>\nRel\u00f3gio perfeito<\/p>\n<p>O nosso rel\u00f3gio interno est\u00e1 ligado ao Sol e, todos os anos, volta a zero. Faz-nos confus\u00e3o que tal n\u00e3o aconte\u00e7a nos calend\u00e1rios. Talvez seja esse o choque que sentimos quando nos apercebemos destas armadilhas. Quando ser\u00e1 que tomamos consci\u00eancia disto?<\/p>\n<p>Quem inventou os rel\u00f3gios n\u00e3o criou uma m\u00e1quina para contar o tempo que passou. Criou uma m\u00e1quina que mede o tempo que ainda falta.<\/p>\n<p>Entretanto, e porque o tempo que passou nunca ser\u00e1 mais feliz que o h\u00e1-de vir: Parab\u00e9ns Bulza!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A certa altura na Hist\u00f3ria do Homem algu\u00e9m, provavelmente muito bem intencionado, teve a ideia peregrina de medir a quarta dimens\u00e3o. N\u00e3o lhe bastava s\u00f3 saber onde estava, queria tamb\u00e9m saber quando estava. A princ\u00edpio, a ideia trouxe benef\u00edcios interessantes. 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