{"id":3510,"date":"2009-10-18T00:00:00","date_gmt":"2009-10-17T23:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/?p=3510"},"modified":"2009-09-23T00:53:00","modified_gmt":"2009-09-22T23:53:00","slug":"momento-delicatessen","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/momento-delicatessen\/","title":{"rendered":"Momento Delicatessen"},"content":{"rendered":"<p>Certos filmes t\u00eam o cond\u00e3o de nos marcar para a vida, pela hist\u00f3ria, pela fotografia, pela encena\u00e7\u00e3o ou por uma coisa t\u00e3o simples como um plano bem enquadrado.<\/p>\n<p>O final de quase todos os filmes de Jacques Tati, com as suas janelas abertas para um futuro imposs\u00edvel que se perde numa nostalgia insuport\u00e1vel devem ser a perfeita tradu\u00e7\u00e3o visual da <em>saudade<\/em> que a tantos poetas escapa.<\/p>\n<p>Pequenos pormenores levam-nos de imediato ao escuro da sala de cinema, onde recordamos o cheiro do p\u00f3 das cadeiras e imaginamos a cruz de malta do projector a marcar o ritmo da fita.<\/p>\n<p>Um destes dias tive esta sensa\u00e7\u00e3o na Baixa de Luanda, vi-me dentro do filme, com uma cena elaborada, cheia de planos e cortes encadeados de forma quase hipn\u00f3tica, que me rodeava e fazia olhar para todas as direc\u00e7\u00f5es ao mesmo tempo, sem perceber muito bem como tinha sido sugado para a tela.<\/p>\n<p>No cruzamento, a ambul\u00e2ncia marcava o compasso do quarteir\u00e3o, qual maestro de orquestra sinf\u00f3nica. O pol\u00edcia apitava acompanhando a sirene e, seguindo o mesmo ritmo, o oper\u00e1rio martelava alguma coisa contra o tapume, que ressoava pela rua inteira. As peixeiras preenchiam os espa\u00e7os mortos, anunciando carapaus e peixes-espada. Rabos pendurados \u00e0 janela dos azuis-e-brancos gritavam paragens importantes nas rotas dos candongueiros, com o seu ritmo caracter\u00edstico, que hoje parecia estar preso ao da ambul\u00e2ncia, como o resto do tr\u00e2nsito e o engraxador, que batia com a escova na caixa da graxa, atra\u00edndo clientes.<\/p>\n<p>Por uns instantes apenas, toda esta cacofonia fez sentido. Parecia que tinha sido escrita para a cena. Procurei, em v\u00e3o, a mulher-a-dias a bater o tapete ou o homem com os sapatos de palha\u00e7o a pintar o tecto. Nem sequer consegui distinguir as molas do colch\u00e3o da amante do talhante, mas sei que estavam l\u00e1, provavelmente afogadas pela sirene da ambul\u00e2ncia presa no tr\u00e2nsito.<\/p>\n<p>A ilus\u00e3o desfez-se t\u00e3o depressa como surgiu. As c\u00e2maras foram-se embora, sem nunca ter ouvido o famoso \u00ab<em>Corta!<\/em>\u00bb. Mas hoje, por uns instantes, o Delicatessen esteve em Luanda, com todos os seus canibais, chamarizes de vaca e novelinhos de l\u00e3.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Certos filmes t\u00eam o cond\u00e3o de nos marcar para a vida, pela hist\u00f3ria, pela fotografia, pela encena\u00e7\u00e3o ou por uma coisa t\u00e3o simples como um plano bem enquadrado. 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