{"id":3579,"date":"2009-10-28T00:00:00","date_gmt":"2009-10-27T23:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/?p=3579"},"modified":"2009-09-25T22:34:38","modified_gmt":"2009-09-25T21:34:38","slug":"albarda-se-o-burro-vontade-do-dono","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/albarda-se-o-burro-vontade-do-dono\/","title":{"rendered":"Albarda-se o burro \u00e0 vontade do dono"},"content":{"rendered":"<p>Achei por bem dar a este artigo um prov\u00e9rbio como t\u00edtulo. Afinal de contas, vou falar de um outro, que por c\u00e1 ouvi, que sofreu uma pequena altera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Num dos famosos engarrafamentos de Luanda em que toda a gente tenta chegar primeiro que os outros e depois ningu\u00e9m anda, com os candongueiros armados em baratas tontas de azul e branco, furando aqui e ali, passando nas valas e nos taludes e seguindo em contra-m\u00e3o, troquei de esta\u00e7\u00e3o de r\u00e1dio. A do costume passava as horrorosas vers\u00f5es ac\u00fasticas de m\u00fasicas que nem na vers\u00e3o original se ouviam, quanto mais nesta edi\u00e7\u00e3o melosa, mais indicada para um ser\u00e3o abra\u00e7ado \u00e0 <em>dama<\/em> que \u00e0 hora do almo\u00e7o. A n\u00e3o ser que os angolanos aproveitem a hora do almo\u00e7o para dar uma escapadinha e ir ter com a <em><a href=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/?p=2261\" target=\"_blank\">outra<\/a><\/em>\u2026 Mas divago e fujo ao tema. Hoje quero falar de prov\u00e9rbios.<\/p>\n<p>Dizia eu que troquei de esta\u00e7\u00e3o de r\u00e1dio porque a m\u00fasica melosa n\u00e3o era a banda sonora ideal para o bailado dos candongueiros. A tecnologia moderna trouxe grandes conquistas para o conforto dos pregui\u00e7osos. Uma delas \u00e9 a sintonia autom\u00e1tica. Carrega-se num pequeno bot\u00e3o e o pr\u00f3prio receptor se encarrega de ir testando cada frequ\u00eancia at\u00e9 encontrar um canal ocupado e depois ainda se d\u00e1 ao trabalho de fazer o ajuste final, para o som n\u00e3o ficar roufenho. S\u00f3 falta mesmo inventar-se a sintonia autom\u00e1tica com bom gosto musical, mas isso ter\u00e1 de ficar para outra altura.<\/p>\n<p>Assim que o concerto de buzinas do exterior e o arfar da ventoinha do ar condicionado do interior foram substitu\u00eddos pela voz nada desagrad\u00e1vel da locutora, senti-me como um verdadeiro nababo. Mexo um dedo e tenho uma senhora a dizer-me as principais not\u00edcias do dia. Fabuloso. E com isto tudo, na fila que desaparecia l\u00e1 na curva, avancei exactamente: nada. Ou melhor, na fila que agora eram tr\u00eas, mantive a mesma posi\u00e7\u00e3o relativa, absoluta ou outra coisa qualquer, porque as rodas nunca se mexeram.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" style=\"border-bottom: 0px; border-left: 0px; display: inline; border-top: 0px; border-right: 0px\" title=\"Dois funcion\u00e1rios viajam deitados sobre a carga no semi-atrelado\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2009\/09\/samba.jpg\" border=\"0\" alt=\"Dois funcion\u00e1rios viajam deitados sobre a carga no semi-atrelado\" width=\"600\" height=\"400\" \/><br \/>\nJ\u00e1 que n\u00e3o se vai a lado nenhum, aproveita-se a praia<\/p>\n<p>Terminadas as not\u00edcias, uma curta informa\u00e7\u00e3o sobre o tr\u00e2nsito na capital. Nada de novo, mas fica sempre bem referir todas as art\u00e9rias da cidade e dizer que h\u00e1 tr\u00e2nsito intenso em cada uma delas. S\u00f3 faltou o directo com o rep\u00f3rter de tr\u00e2nsito no local, mas desconfio que n\u00e3o tenha conseguido sair da rua da redac\u00e7\u00e3o. Os eufemismos acerca do engarrafamento geral s\u00e3o deliciosos. Apeteceu-me abrir a janela e gritar \u00abTr\u00e2nsito era se isto se mexesse\u00bb!<\/p>\n<p>N\u00e3o me esqueci do prov\u00e9rbio. A s\u00e9rio.<\/p>\n<p>Depois do panorama acerca do consumo de combust\u00edveis f\u00f3sseis de v\u00e1rias dezenas de milhar de autom\u00f3veis durante horas para cada um se mover um par de quarteir\u00f5es, traduzido apenas pela express\u00e3o tr\u00e2nsito intenso, seguiu-se o conselho de preven\u00e7\u00e3o rodovi\u00e1ria.<\/p>\n<p>Mais um pequeno aparte. Prometo que \u00e9 o \u00faltimo. Confesso que contribu\u00ed, durante quase uma hora para o consumo de gasolina e mil vezes me arrependi de n\u00e3o ter ido a p\u00e9, at\u00e9 porque as obras obrigaram-me a um desvio de quase onze quil\u00f3metros. Nesta perspectiva, 1\u2019800 metros a p\u00e9 para cada lado, ao Sol e a pular po\u00e7as de lama e regos de esgoto nem me pareceram maus de todo.<\/p>\n<p>O conselho de preven\u00e7\u00e3o rodovi\u00e1ria apelava ao bom senso das pessoas. N\u00e3o \u00e9 aconselh\u00e1vel andar depressa, dizia a senhora de voz agrad\u00e1vel. A pressa \u00e9 inimiga da seguran\u00e7a. Terminou com uma adapta\u00e7\u00e3o de um prov\u00e9rbio conhecido que, apesar de esquisita, pareceu-me a mais adequada ao tr\u00e2nsito de Luanda.<\/p>\n<p>\u00ab<em>Devagar e bem, h\u00e1 pouco quem.<\/em>\u00bb<\/p>\n<p>Em Luanda, s\u00f3 se circula a duas velocidades: depressa e parado. Em qualquer das situa\u00e7\u00f5es \u00e9 pedal no fundo \u2013 acelerador ou trav\u00e3o, conforme o caso. Quando se est\u00e1 parado, vemos sempre os <em>espertos<\/em> a tentar contornar e furar a fila, piorando tudo. Quando se anda depressa, s\u00e3o as ultrapassagens selvagens, s\u00e3o as passadeiras, as <em>m\u2019baias<\/em> e as manobras demasiado cretinas para merecerem categoria pr\u00f3pria. Conclu\u00ed-se que, em Luanda, nem se conduz devagar, nem bem. Genial, a adapta\u00e7\u00e3o do prov\u00e9rbio \u00e0 realidade. Os meus parab\u00e9ns \u00e0 locutora!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Achei por bem dar a este artigo um prov\u00e9rbio como t\u00edtulo. Afinal de contas, vou falar de um outro, que por c\u00e1 ouvi, que sofreu uma pequena altera\u00e7\u00e3o. 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