{"id":3687,"date":"2009-11-19T00:00:00","date_gmt":"2009-11-18T23:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/?p=3687"},"modified":"2009-11-19T00:00:00","modified_gmt":"2009-11-18T23:00:00","slug":"crises-existenciais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/crises-existenciais\/","title":{"rendered":"Crises existenciais"},"content":{"rendered":"<p>Em certas alturas da vida somos confrontados com problemas aparentemente insol\u00faveis, centrados no mist\u00e9rio da vida. Muitos porqu\u00eas e poucos porques enchem-nos os pensamentos.<\/p>\n<p>Conclu\u00edmos que o maior mist\u00e9rio da vida \u00e9 a sua finitude, pelo menos naquilo a que chamamos <em>Eu<\/em>. As crises existenciais da adolesc\u00eancia surgem quando nos conformamos com a nossa pr\u00f3pria mortalidade, quando descobrimos que os dias infinitos da inf\u00e2ncia eram apenas o caminho at\u00e9 \u00e0 curva de onde vemos a meta. As restantes surgem nos momentos em que sentimos que o tempo recuperou o avan\u00e7o que nos tinha dado.<\/p>\n<p>Quanto mais se racionaliza o problema, menos o percebemos. Depois come\u00e7amos a questionar-nos se os nossos pensamentos s\u00e3o assim t\u00e3o importantes para a ordem das coisas e conformamo-nos com a realidade \u2013 salvo raras excep\u00e7\u00f5es, s\u00e3o apenas ru\u00eddo de fundo. Se os nossos pensamentos, mesmo que registados e catalogados s\u00e3o insignificantes, que seremos n\u00f3s, objectos fr\u00e1geis e de dura\u00e7\u00e3o limitada?<\/p>\n<p>O grande drama de alguns \u00e9 que sejam esquecidos ap\u00f3s a morte. Preocupa\u00e7\u00e3o injustificada, julgo eu. Seremos lembrados pelas pessoas que acharem importante preservar a <a href=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/?p=2161\" target=\"_blank\">nossa mem\u00f3ria<\/a>, depois disso, que interesse h\u00e1 em recordar um desconhecido? Lembro-me de, ainda antes de andar na escola, desejar que o meu ursinho de peluche fosse conservado para sempre, ou pelo menos cinco mil anos, que era um n\u00famero redondo na altura, n\u00e3o para me recordar, mas para provar que eu tinha existido. Sentia o cora\u00e7\u00e3o apertado s\u00f3 de pensar que pudesse ser deitado fora como se fosse um objecto vulgar. Sim, ainda hoje o tenho.<\/p>\n<p>Uma grande amiga minha, senhora de outra \u00e9poca e de outro mundo, tem visto a sua vida andar para tr\u00e1s, agora que sabe estar quase no fim da viagem. Os netos partem depois dos av\u00f3s, diz a ordem natural das coisas, mas, desta feita, ficou tudo virado do avesso. Quem preservar\u00e1 a mem\u00f3ria, agora que os mais novos desaparecem?<\/p>\n<p>Por outro lado, todas estas preocupa\u00e7\u00f5es parecem desaparecer se nos recusarmos a racionalizar a vida. Os animais vivem e morrem sem se importar com isso, julgamos. O instinto preenche o espa\u00e7o deixado vago pelas crises existenciais e tudo corre como sempre correu. H\u00e1 alturas em que me apetecia ser como a ceifeira\u2026<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em certas alturas da vida somos confrontados com problemas aparentemente insol\u00faveis, centrados no mist\u00e9rio da vida. Muitos porqu\u00eas e poucos porques enchem-nos os pensamentos. Conclu\u00edmos que o maior mist\u00e9rio da vida \u00e9 a sua finitude, pelo menos naquilo a que chamamos Eu. 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