{"id":3715,"date":"2009-11-23T00:00:00","date_gmt":"2009-11-22T23:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/?p=3715"},"modified":"2009-11-23T00:00:00","modified_gmt":"2009-11-22T23:00:00","slug":"histrias-de-cigarros","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/histrias-de-cigarros\/","title":{"rendered":"Hist&oacute;rias de cigarros"},"content":{"rendered":"<p>Durante anos foi escutando hist\u00f3rias e epis\u00f3dios de quem tinha vivido em \u00c1frica, Angola em particular. Antigos militares, civis que deixaram a terra temendo pela vida e angolanos na di\u00e1spora foram descrevendo este pa\u00eds, um pormenor de cada vez, mas, acima de tudo, falavam das suas gentes e costumes.<\/p>\n<p>Lembro-me de, em pequeno, ter ouvido falar do modo peculiar como as mulheres fumavam, mordendo o cigarro ao contr\u00e1rio, com o morr\u00e3o para dentro, cuspindo a cinza por um canto da boca e fazendo sair o fumo pelo outro. Diziam que era por ser mais pr\u00e1tico fumar assim enquanto se trabalhava no campo, curvadas de enxada na m\u00e3o, com o filho \u00e0s costas. Os homens, ao que parece, fumavam com os cigarros para o lado normal.<\/p>\n<p>Na minha estadia em Angola, poucos angolanos tenho visto a fumar regularmente. Quase sempre s\u00f3 jovens, no intervalo das cervejas. Alguns velhos, por vezes. Mesmo na prov\u00edncia, os \u00fanicos fumadores inveterados com quem me cruzei foram russos e chineses, umas verdadeiras chamin\u00e9s, uns e outros.<\/p>\n<p>Mulheres a fumar t\u00eam sido ainda menos, da\u00ed que a cena com que me deparei h\u00e1 uns dias me deixou a olhar embasbacado.<\/p>\n<p>Parado no meio do tr\u00e2nsito, como de costume, reparei numa mais-velha, de aspecto fr\u00e1gil, sentada \u00e0 sombra de um carro estacionado a revolver um bibe verde-alface \u00e0 luz do Sol que lhe iluminava as m\u00e3os. Dava-lhe voltas, sempre com as costas encostadas \u00e0 parede fresca, afastando o tecido dos olhos, provavelmente por j\u00e1 ver mal ao perto. De cabelo branco e muito enrugada, contrastava com as tr\u00eas crian\u00e7as luzidias s\u00f3 de cuecas que, de p\u00e9, n\u00e3o lhe chegavam \u00e0 cabe\u00e7a. Segurava qualquer coisa na boca. Primeiro pensei que fosse uma agulha e que procurasse coser um qualquer rasg\u00e3o na roupa de um dos mi\u00fados. A posi\u00e7\u00e3o em que tinha a cabe\u00e7a e a sombra escura n\u00e3o me deixavam perceber o que era. Vi-a soltar uma baforada de fumo, como quem enxota uma mosca com um sopro pelo canto da boca. Percebi que as gentes das hist\u00f3rias que ouvi h\u00e1 decadas n\u00e3o mudaram\u2026<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Durante anos foi escutando hist\u00f3rias e epis\u00f3dios de quem tinha vivido em \u00c1frica, Angola em particular. Antigos militares, civis que deixaram a terra temendo pela vida e angolanos na di\u00e1spora foram descrevendo este pa\u00eds, um pormenor de cada vez, mas, acima de tudo, falavam das suas gentes e costumes. Lembro-me de, em pequeno, ter ouvido [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"footnotes":""},"categories":[1,14,360,625],"tags":[664,119,124],"class_list":["post-3715","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-angola","category-luanda","category-provincia-de-luanda","category-rocha-pinto","tag-cigarros","tag-mais-velho","tag-mulheres"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3715","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3715"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3715\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3715"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3715"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3715"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}