{"id":3741,"date":"2009-12-02T00:00:00","date_gmt":"2009-12-01T23:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/?p=3741"},"modified":"2009-11-27T22:09:44","modified_gmt":"2009-11-27T21:09:44","slug":"habilitaes-literrias","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/habilitaes-literrias\/","title":{"rendered":"Habilita\u00e7\u00f5es liter\u00e1rias"},"content":{"rendered":"<p>A falta de quadros angolanos assume dois aspectos importantes. O primeiro \u00e9 o da necessidade da importa\u00e7\u00e3o de t\u00e9cnicos do estrangeiro enquanto a escassez de quadros nacionais persistir.<\/p>\n<p>Na maior parte do mundo os emigrantes s\u00e3o aqueles que deixam o seu pa\u00eds para ir fazer noutro aquilo que os seus habitantes j\u00e1 n\u00e3o querem fazer. Trocam m\u00e1 qualidade de vida por um mau trabalho no estrangeiro, pelo menos aos olhos dos outros. Salvo as devidas excep\u00e7\u00f5es, quem emigra para um pa\u00eds mais desenvolvido econ\u00f3mica ou socialmente, tem poucas habilita\u00e7\u00f5es para oferecer para al\u00e9m do trabalho manual.<\/p>\n<p>Em Angola o fen\u00f3meno migrat\u00f3rio funciona um pouco ao contr\u00e1rio do habitual. Os estrangeiros n\u00e3o v\u00eam para c\u00e1 fazer o que os angolanos j\u00e1 n\u00e3o querem fazer, v\u00eam c\u00e1 fazer o que eles ainda n\u00e3o conseguem. Parte das suas fun\u00e7\u00f5es, mesmo que tal n\u00e3o esteja contemplado nos contratos, \u00e9 ensinar os angolanos que com eles convivem. N\u00e3o \u00e9 paternalismo neo-colonial, \u00e9 a realidade. A gera\u00e7\u00e3o que est\u00e1 agora a concluir os seus cursos universit\u00e1rios vai ser aquela que contribuir\u00e1 decisivamente para a evolu\u00e7\u00e3o do seu pa\u00eds. Foram os primeiros a poder fazer os seus cursos sem a sombra da guerra.<\/p>\n<p>Ouve-se nas ruas dizer que \u00e9 claro que os consultores estrangeiros n\u00e3o v\u00eam para a Angola por mil ou mil e quinhentos d\u00f3lares. A especula\u00e7\u00e3o em torno dos pre\u00e7os das rendas e produtos tidos como essenciais para os estrangeiros tamb\u00e9m tem de ser assegurada nos sal\u00e1rios. Em qualquer parte do mundo a lei da oferta e da procura funciona. Se houvesse mais quadros angolanos, a oferta seria maior e os incentivos aos estrangeiros bem menores.<\/p>\n<p>Custa-me, no entanto, ver estrangeiros a desempenhar tarefas n\u00e3o especializadas, como varrer ruas ou abrir valas. O trabalho \u00e9 o direito de todos, mas por cada varredor importado h\u00e1 um angolano de bra\u00e7os cruzados a pensar como h\u00e1-de ganhar a vida.<\/p>\n<p>O segundo aspecto da falta de quadros m\u00e9dios e superiores \u00e9 a desconfian\u00e7a interna que reina. Os angolanos n\u00e3o acreditam neles pr\u00f3prios. Por vezes preferem contratar estrangeiros porque os acham mais fi\u00e1veis, n\u00e3o porque n\u00e3o consigam encontrar um angolano com as compet\u00eancias certas.<\/p>\n<p>Por desconfian\u00e7a temos tamb\u00e9m de entender falta de confian\u00e7a. N\u00e3o \u00e9 s\u00f3 suspeitar da falta de qualidades pessoais, assiduidade ou compet\u00eancia, \u00e9 assumir logo \u00e0 partida que n\u00e3o ser\u00e3o capazes ou que n\u00e3o existe ningu\u00e9m qualificado.<\/p>\n<p>Ao inv\u00e9s de se procurar contratar as pessoas mais qualificadas ou competentes baixa-se a fasquia at\u00e9 ao m\u00ednimo admiss\u00edvel. Um curso m\u00e9dio ou superior n\u00e3o garante que n\u00e3o se contrate um analfabeto funcional em nenhuma parte do mundo, mas h\u00e1 muito mais probabilidades de o fazer procurando algu\u00e9m que saiba apenas soletrar. A escola n\u00e3o serve apenas para se aprender a ler e a fazer contas, aprende-se tamb\u00e9m a viver.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" style=\"border-bottom: 0px; border-left: 0px; display: inline; border-top: 0px; border-right: 0px\" title=\"Certificado de habilita\u00e7\u00f5es\" border=\"0\" alt=\"Certificado de habilita\u00e7\u00f5es\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2009\/11\/luanda07.jpg\" width=\"450\" height=\"600\" \/>    <br \/>Requisitos m\u00ednimos <\/p>\n<p>Obviamente que os funcion\u00e1rios menos qualificados recebem menos que os outros, mas h\u00e1 alturas em que o que se investe \u00e9 proporcional aquilo que se recebe em troca.<\/p>\n<p>Se os angolanos n\u00e3o come\u00e7aram a exigir habilita\u00e7\u00f5es m\u00ednimas mais elevadas do que as que pedem hoje, n\u00e3o haver\u00e1 press\u00e3o social para que se estude mais.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A falta de quadros angolanos assume dois aspectos importantes. 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