{"id":3753,"date":"2009-12-03T00:00:00","date_gmt":"2009-12-02T23:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/?p=3753"},"modified":"2010-01-22T13:27:20","modified_gmt":"2010-01-22T12:27:20","slug":"finalmente-chove","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/finalmente-chove\/","title":{"rendered":"Finalmente chove"},"content":{"rendered":"<p>Depois de algumas semanas a sentir a pele pegajosa de tanta humidade, os dias come\u00e7aram a amanhecer cada vez mais escuros. O c\u00e9u prometia chuva, mas n\u00e3o havia maneira de cumprir.<\/p>\n<p>Algumas pingas nocturnas, que poderiam ser confundidas com uma eventual inflama\u00e7\u00e3o prost\u00e1tica celeste, n\u00e3o fora tal org\u00e3o ser conspicuamente ausente na atmosfera, avisavam que o dia da chuva estava perto.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" style=\"display: inline; border: 0px;\" title=\"Chuva nocturna\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2009\/11\/chuva01.jpg\" border=\"0\" alt=\"Chuva nocturna\" width=\"600\" height=\"400\" \/><\/p>\n<p>O dia chegou. Choveu. Primeiro gotas t\u00edmidas. Depois gotas grossas de umca copiosa chuva tropical e quente. Sem rel\u00e2mpagos desta vez. Depressa as ruas se transformaram em rios, com os carros a levantar grandes ondas que varriam os passeios. Onde n\u00e3o h\u00e1 asfalto formaram-se po\u00e7as de lama vermelha com profundidade indeterminada e aspecto pouco convidativo.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" style=\"display: inline; border: 0px;\" title=\"Carro levantando \u00e1gua\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2009\/11\/chuva05.jpg\" border=\"0\" alt=\"Carro levantando \u00e1gua\" width=\"600\" height=\"400\" \/><br \/>\nEsgotos e chuva misturados<\/p>\n<p>Os esgotos come\u00e7aram a transbordar, transformando a \u00e1gua da chuva feita \u00e1gua de valeta em \u00e1gua cinzenta pestilenta que deixa os pe\u00f5es sem saber se h\u00e3o-de tapar o nariz ou proteger a cabe\u00e7a. As ruas da baixa transformaram-se em rios, arrastando lixo e lama em direc\u00e7\u00e3o \u00e0 ba\u00eda.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" style=\"display: inline; border: 0px;\" title=\"Mulher com casaco sobre a cabe\u00e7a\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2009\/11\/chuva04.jpg\" border=\"0\" alt=\"Mulher com casaco sobre a cabe\u00e7a\" width=\"600\" height=\"400\" \/><br \/>\nRecolhendo passageiros nas ilhas<\/p>\n<p>Gente apressada enruga a testa para que a \u00e1gua n\u00e3o lhes escorra para os olhos. Encharcados at\u00e9 aos ossos procuram abrigos tempor\u00e1rios que evitem sentir as gotas bater no corpo. Est\u00e1 calor e a chuva morna, mas as caras com que nos cruzamos mostram pessoas transidas de frio. Jovens fugiam do jogo de basquetebol com a roupa colada ao corpo. N\u00e3o interessa quem ganhou, \u00e9 preciso fugir da chuva.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" style=\"display: inline; border: 0px;\" title=\"Rua inundada\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2009\/11\/chuva08.jpg\" border=\"0\" alt=\"Rua inundada\" width=\"600\" height=\"400\" \/><br \/>\nFugindo da \u00e1gua<\/p>\n<p>\u00c0 medida que a \u00e1gua enchia os passeios e as ruas, pe\u00f5es e carros passaram a partilhar o centro das faixas, uns evitando pisar lixo ou trope\u00e7ar em pedras, ou outros a tentar manter as rodas fora de buracos submersos.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" style=\"display: inline; border: 0px;\" title=\"Chuva torrencial\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2009\/11\/chuva03.jpg\" border=\"0\" alt=\"Chuva torrencial\" width=\"600\" height=\"400\" \/><br \/>\nProcurando abrigo<\/p>\n<p>Os vendedores que usam os passeios como bancas abandonam a mercadoria e abrigam-se aos cinco e seis debaixo de um guarda-sol. Ficam todos de p\u00e9, encostados uns aos outros a ver chover. As revistas tinham um pl\u00e1stico por cima, mas a \u00e1gua encheu a depress\u00e3o do passeio e ficaram submersas. Ao lado, uma dezena de pares de sapatos perfilados enchiam-se de \u00e1gua. Sapatos de senhora brancos imitavam copos. Dois vendedores partilhavam uma dose de whisky vendido em bolsa de pl\u00e1stico enquanto viam as revistas desaparecer.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" style=\"display: inline; border: 0px;\" title=\"Jantes cromadas no charco\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2009\/11\/chuva07.jpg\" border=\"0\" alt=\"Jantes cromadas no charco\" width=\"600\" height=\"400\" \/><br \/>\nContrastes<\/p>\n<p>Os pol\u00edcias de tr\u00e2nsito que, desde h\u00e1 uma semana, passaram a andar com as bolsas dos imperme\u00e1veis presas no cintur\u00e3o, vestiram as suas capas brancas que os cobrem da cabe\u00e7a aos p\u00e9s. Nos cruzamentos, s\u00f3 com as luvas brancas a sobressair das mangas da capa de pl\u00e1stico, imitam bonecos de neve. N\u00e3o consigo deixar de me lembrar das decora\u00e7\u00f5es natal\u00edcias que come\u00e7am a surgir na cidade.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" style=\"display: inline; border: 0px;\" title=\"Carro do lixo \u00e0 chuva\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2009\/11\/chuva02.jpg\" border=\"0\" alt=\"Carro do lixo \u00e0 chuva\" width=\"600\" height=\"400\" \/><br \/>\nEsperando que a chuva passe<\/p>\n<p>Choveu e depois parou. A cidade ficou virada do avesso. H\u00e1 ruas intransit\u00e1veis. H\u00e1 neg\u00f3cio de <em>cadeirinhas<\/em>, que cobram alguns kwanzas para carregar pessoas \u00e0s costas e atravessar as po\u00e7as mais fundas. H\u00e1 neg\u00f3cios de portagem em pranchas colocadas sobre os lama\u00e7ais. Quem n\u00e3o quiser pagar pode muito bem ver-lhe retiradas as t\u00e1buas e ficar preso no meio da rua. Ou paga ou suja o p\u00e9. Carros atolados e viagens mais caras. O fim-de-semana vem j\u00e1 a\u00ed.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" style=\"display: inline; border: 0px;\" title=\"Fugindo da lama\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2009\/11\/chuva06.jpg\" border=\"0\" alt=\"Fugindo da lama\" width=\"600\" height=\"400\" \/><br \/>\nRua enlameada<\/p>\n<p>Em Luanda chove poucas vezes, gra\u00e7as ao seu clima muito particular, feito de encomenda para uma cidade sem esgotos a funcionar. Mas quando chove, os estragos s\u00e3o evidentes. Estou certo que os jornais v\u00e3o dar conta de pessoas que perderam as casas ou de mortes por afogamento. H\u00e1 muitas casas constru\u00eddas sobre linhas de \u00e1gua, em virtude da constru\u00e7\u00e3o desregrada um pouco por todo o lado. O que \u00e9 lament\u00e1vel \u00e9 que s\u00e3o trag\u00e9dias evit\u00e1veis.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Depois de algumas semanas a sentir a pele pegajosa de tanta humidade, os dias come\u00e7aram a amanhecer cada vez mais escuros. O c\u00e9u prometia chuva, mas n\u00e3o havia maneira de cumprir. Algumas pingas nocturnas, que poderiam ser confundidas com uma eventual inflama\u00e7\u00e3o prost\u00e1tica celeste, n\u00e3o fora tal org\u00e3o ser conspicuamente ausente na atmosfera, avisavam que [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"footnotes":""},"categories":[1,14,360],"tags":[41,527,473,538,52,433],"class_list":["post-3753","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-angola","category-luanda","category-provincia-de-luanda","tag-chuva","tag-clima","tag-esgotos","tag-portagem","tag-transportes","tag-vendedoras"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3753","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3753"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3753\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":4002,"href":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3753\/revisions\/4002"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3753"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3753"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3753"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}