{"id":3761,"date":"2009-12-04T07:42:00","date_gmt":"2009-12-04T06:42:00","guid":{"rendered":"http:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/?p=3761"},"modified":"2009-12-04T07:42:00","modified_gmt":"2009-12-04T06:42:00","slug":"censura","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/censura\/","title":{"rendered":"Censura"},"content":{"rendered":"<p>Oficialmente, em Angola n\u00e3o h\u00e1 censura. A liberdade de express\u00e3o est\u00e1 consagrada na constitui\u00e7\u00e3o e n\u00e3o existem mecanismos oficiais que restrinjam o seu exerc\u00edcio.<\/p>\n<p>A realidade, no entanto, est\u00e1 bem longe de ser o mundo idealizado na legisla\u00e7\u00e3o. Num mar de tubar\u00f5es n\u00e3o conv\u00e9m dar muito nas vistas e apontar os defeitos de quem tem mais dentes. Nunca se sabe como ou quando d\u00e3o a sua dentada.<\/p>\n<p>H\u00e1 sempre vozes que se levantam, na sua maioria an\u00f3nimas e gritadas de tr\u00e1s de uma moita ou identificadas, mas proferidas de um qualquer cantinho onde se espera que os tubar\u00f5es n\u00e3o cheguem. Aos poucos, os que nadam no lago e abrem a boca v\u00e3o-se censurando a si pr\u00f3prios, receando n\u00e3o sabem bem o qu\u00ea. V\u00e3o refreando palavras, escondendo ideias ou esperando que outros tomem a iniciativa.<\/p>\n<p>A prop\u00f3sito desta situa\u00e7\u00e3o, vem a par\u00e1bola da experi\u00eancia com os macacos, em que penduram um cacho de bananas num escadote electrificado numa jaula com cinco macacos. Sempre que tentam chegar \u00e0s bananas apanham um choque, at\u00e9 que desistem de lhes tocar. Nessa altura, retiram um dos macacos e introduzem um novo que se dirige logo \u00e0s bananas, mas \u00e9 impedido pelos restantes, que j\u00e1 sabem ser uma experi\u00eancia dolorosa. Quando esse macaco tamb\u00e9m desiste de comer as bananas trocam outro dos mais antigos e v\u00e3o-no fazendo sucessivamente at\u00e9 que j\u00e1 n\u00e3o reste nenhum dos macacos originais. Os que agora ocupam a jaula n\u00e3o sabem que o escadote lhes dar\u00e1 um choque, mas recusam-se a comer as bananas.<\/p>\n<p>No Aerograma publiquei alguns artigos que causaram alguma pol\u00e9mica, insultos e at\u00e9 mesmo amea\u00e7as veladas \u00e0 minha integridade f\u00edsica. Apesar de estar apenas de passagem, senti-me atirado ao tal lago dos tubar\u00f5es o optei pela estrat\u00e9gia mais segura, com o amargo de boca que \u00e9 sentir-me amorda\u00e7ado por mim mesmo.<\/p>\n<p>Esta situa\u00e7\u00e3o levou-me a pensar numa s\u00e9rie de assuntos, inclu\u00edndo as diferen\u00e7as civilizacionais actuais. Por vezes, esta hist\u00f3ria de n\u00e3o se querer ofender ningu\u00e9m t\u00e3o arreigada na sociedade ocidental, acaba por nos ofender a n\u00f3s mesmos por ter de aceitar que nos ofendam, numa vers\u00e3o verbal do dar a outra face.<\/p>\n<p>Como facto curioso que ilustra bem como funciona a auto-censura, a ag\u00eancia noticiosa angolana permite coment\u00e1rios \u00e0s not\u00edcias que publica no seu s\u00edtio internet. N\u00e3o lhes faz qualquer modera\u00e7\u00e3o ou censura, o que permite a publica\u00e7\u00e3o das coisas mais desprez\u00edveis e insultuosas pelo meio de coment\u00e1rios pertinentes. Algumas pessoas levam t\u00e3o a peito a liberdade de express\u00e3o que se esquecem que, como qualquer liberdade, termina quando come\u00e7a a do pr\u00f3ximo. O escudo no anonimato no seu melhor. No entanto, esta liberdade de comentar termina quando s\u00e3o publicados comunicados oficiais ou discursos do presidente, numa esp\u00e9cie de auto-censura da ag\u00eancia.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Oficialmente, em Angola n\u00e3o h\u00e1 censura. A liberdade de express\u00e3o est\u00e1 consagrada na constitui\u00e7\u00e3o e n\u00e3o existem mecanismos oficiais que restrinjam o seu exerc\u00edcio. A realidade, no entanto, est\u00e1 bem longe de ser o mundo idealizado na legisla\u00e7\u00e3o. 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