{"id":381,"date":"2008-08-04T00:00:12","date_gmt":"2008-08-03T23:00:12","guid":{"rendered":"http:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/?p=381"},"modified":"2009-08-08T22:32:22","modified_gmt":"2009-08-08T21:32:22","slug":"grande-hotel-bakkini-gafsa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/grande-hotel-bakkini-gafsa\/","title":{"rendered":"Grande Hotel Bakkini, Gafsa"},"content":{"rendered":"<p>Quando cheg\u00e1mos ao Hotel Turismo de Ganda, j\u00e1 depois do Sol posto, tive uma sensa\u00e7\u00e3o de <em>deja vu<\/em> muito estranha. N\u00e3o era exactamente reviver uma situa\u00e7\u00e3o, mas sim preencher uma mem\u00f3ria que tinha ficado incompleta.<\/p>\n<p>H\u00e1 uns anos fui conhecer a Tun\u00edsia e tive o prazer de almo\u00e7ar no restaurante do maior hotel de Gafsa, o Grande Hotel Bakkini. Foi uma experi\u00eancia memor\u00e1vel, comparar os padr\u00f5es europeus e africanos em termos de hotelaria. Desde as toalhas de pl\u00e1stico muito gordurosas at\u00e9 aos talheres que se v\u00e3o reciclando a cada prato, passando por casas de banho t\u00edpicas de pa\u00edses \u00e1rabes, isto \u00e9, com uma mangueira do lado direito a fazer a vez de papel, fomos brindados com tudo. Ainda me lembro que o almo\u00e7o come\u00e7ou com uma sopa de tomate e havia um prato de esparguete l\u00e1 pelo meio. Mas os percursos tur\u00edsticos organizados fazem-nos sempre pernoitar em hot\u00e9is com condi\u00e7\u00f5es semelhantes \u00e0s do mundo ocidental pelo que, apesar de j\u00e1 ter dormido algumas noites em hot\u00e9is de \u00c1frica, nunca dormi num hotel africano. Alguma vez havia de ser a primeira.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2008\/08\/img_6836.jpg\" alt=\"\" \/><br \/>\nParece desocupado<\/p>\n<p>Dar com o hotel foi bem mais f\u00e1cil do que o esperado. Ganda n\u00e3o \u00e9 uma terra muito grande e o hotel \u00e9 um marco importante, conhecido por todos. Depois de perguntar duas vezes, a recep\u00e7\u00e3o l\u00e1 apareceu. Estava fechada e entaipada. Uns momentos depois ouviu-se um gerador a arrancar e iluminou-se um letreiro na esquina.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2008\/08\/080208-1105-grandehotel1.jpg\" alt=\"\" \/><br \/>\nEstenografia<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2008\/08\/080208-1105-grandehotel2.jpg\" alt=\"\" \/><br \/>\n\u00c9 aqui!<\/p>\n<p>Demos a volta \u00e0 esquina e entr\u00e1mos no bar do hotel. Fez-me lembrar uma taberna de prov\u00edncia em mau estado de conserva\u00e7\u00e3o e com cadeiras de pl\u00e1stico. A um canto, a omnipresente televis\u00e3o.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2008\/08\/080208-1105-grandehotel3.jpg\" alt=\"\" \/><br \/>\nParedes com d\u00e9cadas de gordura<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 electricidade em Ganda. No bar do Hotel Turismo, onde h\u00e1 gerador, junta-se uma multid\u00e3o para ver a novela da noite. As pessoas v\u00e3o entrando e acotovelando-se para ver a vers\u00e3o brasileira de um folhetim venezuelano&#8230; se os di\u00e1logos j\u00e1 eram maus e a dobragem atroz, o conjunto final era de fugir.<\/p>\n<p>Estou \u00e0 porta, a ver as ruas da cidade. \u00c0 entrada sou o tema de conversa. Chin\u00eas? <em>Pula<\/em>? <em>Tuga<\/em>? Os mais informados v\u00e3o esclarecendo a d\u00favida. \u00c9 <em>tuga<\/em>! Mas rapidamente o enredo da novela acaba com estas preocupa\u00e7\u00f5es e todos fitam a televis\u00e3o. Ningu\u00e9m fala ou comenta. Apenas se ouve o espor\u00e1dico clarear de garganta ou uma risada sentida nos momentos mais ligeiros&#8230;<\/p>\n<p>Eles s\u00e3o todos muito novos. Na verdade, todos bastante mais novos que eu. Elas s\u00e3o tamb\u00e9m novas, mas h\u00e1 uma ou outra com mais de vinte anos. Ao contr\u00e1rio deles, elas arranjaram-se para este momento especial. Um len\u00e7o bonito na cabe\u00e7a, um casaco a condizer com os cal\u00e7\u00f5es bem curtos ou apenas um par de brincos mais vistosos. Como sempre, toda a gente anda de chinelos&#8230;<\/p>\n<p>Quem tem telefone aproveita para o carregar na ficha tripla da televis\u00e3o. \u00c9 preciso aproveitar as alturas em que se tem acesso ao gerador.<\/p>\n<p>No pre\u00e7\u00e1rio vem a men\u00e7\u00e3o a H<sub>2<\/sub>O MIN. O empregado n\u00e3o perde tempo a explicar que se trata de \u00e1gua mineral. Bom sinal. A educa\u00e7\u00e3o j\u00e1 chegou aqui!<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2008\/08\/080208-1105-grandehotel4.jpg\" alt=\"\" \/><br \/>\nA bela da ard\u00f3sia<\/p>\n<p>A empregada do hotel foi-nos mostrar os quartos enquanto tomava nota da ementa para o jantar. Pedia desculpa, mas ainda s\u00f3 tinha tido tempo para arranjar um dos quartos. Os outros estariam prontos a seguir ao jantar.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2008\/08\/080208-1105-grandehotel5.jpg\" alt=\"\" \/><br \/>\nA caminho do quarto<\/p>\n<p>O hotel desenvolve-se no p\u00e1tio interior de uma casa do tempo do colono. J\u00e1 na altura devia ser hotel. As divis\u00f5es originais do resto do complexo foram sofrendo algumas altera\u00e7\u00f5es ao longo dos anos, sendo preciso percorrer um verdadeiro labirinto de corredores, salas, pequenos p\u00e1tios, cozinhas e despensas at\u00e9 atingir o p\u00e1tio principal, com os quartos, as casas de banho e as oficinas. Um poss\u00edvel atalho \u00e9 entrar directamente para o p\u00e1tio, contornando tanto a recep\u00e7\u00e3o como o bar.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2008\/08\/080208-1105-grandehotel6.jpg\" alt=\"\" \/><br \/>\nDe noite<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2008\/08\/080208-1105-grandehotel7.jpg\" alt=\"\" \/><br \/>\nDe dia<\/p>\n<p>Como quem parte e reparte e n\u00e3o fica com a melhor parte ou \u00e9 burro ou n\u00e3o tem a arte, fiquei com a suite. Os outros quartos tinham a casa de banho exterior.<\/p>\n<p>Fui buscar a mala e apreciar as acomoda\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2008\/08\/080208-1105-grandehotel8.jpg\" alt=\"\" \/><br \/>\nUma televis\u00e3o, uma mesinha de cabeceira, uma cama de casal<\/p>\n<p>Na gaveta da mesinha est\u00e1 um ferro de engomar, o manual de instru\u00e7\u00f5es de um gerador\/m\u00e1quina de soldar e uma embalagem de preservativos subsidiados pelo estado. Algumas gotas de cera indicam que o gerador que canta l\u00e1 fora \u00e9 a excep\u00e7\u00e3o e n\u00e3o a norma.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2008\/08\/080208-1105-grandehotel9.jpg\" alt=\"\" \/><br \/>\nOs hot\u00e9is americanos t\u00eam uma B\u00edblia na gaveta<\/p>\n<p>Um colch\u00e3o de molas assentava sobre uma cama de ferro vermelha vinda directamente da China. As bolas douradas da cabeceira eram de pl\u00e1stico. Ou melhor, a que ainda se mantinha no s\u00edtio era de pl\u00e1stico. A roupa de cama era constitu\u00edda por duas colchas muito finas. A fronha de uma delas serve de <em>naperon<\/em> para a mesinha. Para o clima angolano duas colchas s\u00e3o mais do que suficientes. No entanto estava \u00e0 espera de algo um pouco mais digno da palavra hotel.<\/p>\n<p>Espreitei a casa de banho. Lavat\u00f3rio, sanita, duche. Menos mal. Ladrilhos por assentar e ferramentas em todos os cantos. Um b\u00f3nus. Montes de entulho e lixo. Normal. Nada de \u00e1gua nas torneiras, ali\u00e1s, as torneiras at\u00e9 est\u00e3o todas dentro do lavat\u00f3rio. N\u00e3o faz mal, uso a casa de banho exterior, mesmo \u00e0 sa\u00edda do quarto.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2008\/08\/080208-1105-grandehotel10.jpg\" alt=\"\" \/><br \/>\nTemos direito a duche<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2008\/08\/080208-1105-grandehotel11.jpg\" alt=\"\" \/><br \/>\nO indispens\u00e1vel<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2008\/08\/080208-1105-grandehotel12.jpg\" alt=\"\" \/><br \/>\nPara quem se quiser entreter<\/p>\n<p>Esta estava mais arrumada. Tinha uma banheira entupida, um bid\u00e9 entupido e uma sanita a funcionar. O lavat\u00f3rio estava de f\u00e9rias. A loi\u00e7a sanit\u00e1ria que resiste deve ter custado uma fortuna l\u00e1 nos meados do s\u00e9c. XX. O facto de ainda agora estar a uso s\u00f3 diz bem dela.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2008\/08\/080208-1105-grandehotel13.jpg\" alt=\"\" \/><br \/>\nLoi\u00e7a sanit\u00e1ria de luxo<\/p>\n<p>Entre a banheira e o bid\u00e9 estavam armazenadas as \u00e1guas correntes quentes, frias e mornas, consoante a hora do dia. N\u00e3o eram bem correntes porque estavam em dois baldes de 50 litros e um alguidar. Tamb\u00e9m n\u00e3o seriam bem \u00e1guas, a julgar pela cor.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2008\/08\/080208-1105-grandehotel14.jpg\" alt=\"\" \/><br \/>\n\u00c1gua quente no balde vermelho. \u00c1gua fria no balde azul.<\/p>\n<p>Pendurada num prego estava uma rede para lavar as costas. Depois de olhar para a \u00e1gua, passou-me logo a vontade de lavar a cara, quanto mais as costas.<\/p>\n<p>Disseram-nos que n\u00e3o era muito agrad\u00e1vel ter uma toalha a que toda a gente se limpa\u2026 por isso n\u00e3o h\u00e1 toalhas para ningu\u00e9m.<\/p>\n<p>Havia, no entanto, acabadinho de abrir e pronto a estrear, um sabonete reluzente assente no parapeito da janela. Era Lux.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2008\/08\/080208-1105-grandehotel15.jpg\" alt=\"\" \/><br \/>\n9 em cada 10 estrelas de cinema usam Lux.<\/p>\n<p>O consolo chegou ao jantar. Um belo bife de panela acompanhado por funge de milho. Tenho de perguntar \u00e0 senhora como se faz aquela del\u00edcia. Optei por n\u00e3o a ver cozinhar porque a cozinha se enquadrava nos padr\u00f5es de normalidade de Ganda e olhos que n\u00e3o v\u00eaem&#8230;<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2008\/08\/080208-1105-grandehotel16.jpg\" alt=\"\" \/><br \/>\nA casa de banho do bar<\/p>\n<p>O gerador a trabalhar ao fundo do quintal sempre vai embalando, mesmo quando se engasga e \u00e9 preciso faz\u00ea-lo arrancar de novo. As luzes v\u00e3o tremeluzindo e mudando de cor ao longo da noite, mas \u00e9 normal. O longo dia j\u00e1 se faz sentir nas p\u00e1lpebras e \u00e9 chegada a hora de deitar. Volto ao quarto.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2008\/08\/080208-1105-grandehotel17.jpg\" alt=\"\" \/><br \/>\nLago dos jacar\u00e9s?<\/p>\n<p>A coisa que mais me apetece fazer \u00e9 despir, mas depois olho para os quase-len\u00e7\u00f3is e penso duas vezes. Sento-me na cama e descal\u00e7o as botas. Come\u00e7o a tirar as meias e volto a olhar para a cama. Mudo de ideias. Enfio as cal\u00e7as para dentro das meias, troco a camisa por uma t-shirt e deslizo meio a medo para entre as duas colchas.<\/p>\n<p>Olho para as frestas da porta. Por ali passava um cabrito. N\u00e3o \u00e9 que haja bichos, mas pelo sim, pelo n\u00e3o. Besunto-me de repelente de mosquitos e apago a lanterna. At\u00e9 amanh\u00e3.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2008\/08\/080208-1105-grandehotel18.jpg\" alt=\"\" \/><br \/>\nUm dos h\u00f3spedes<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quando cheg\u00e1mos ao Hotel Turismo de Ganda, j\u00e1 depois do Sol posto, tive uma sensa\u00e7\u00e3o de deja vu muito estranha. N\u00e3o era exactamente reviver uma situa\u00e7\u00e3o, mas sim preencher uma mem\u00f3ria que tinha ficado incompleta. 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